" Blaxploitation"
-
O
Som dos filmes "Black" dos Anos 70
Em
1965, o então jovem ator negro Sidney Poitier estrelou, ao lado
de Anne Bancroft, um thriller chamado 'The Slender Thread'.
A trilha foi composta por Quincy
Jones, à época trumpetista
na banda de Lionel Hampton. Ele já havia feito os scores
de 'The Pawnbroker' e
'Miragem', e Sidney Pollack, diretor
de 'Slender Thread', lhe deu completa liberdade artística
para ir além de uma trilha de jazz tradicional. A faixa 'Big Sir',
que encerra o álbum, deu uma pista do que estava por vir: soul,
com muitos metais. Em seguida, Poitier estrelou o drama racial 'Adivinhe
Quem vem para Jantar?' e
o premiado 'No Calor da Noite' (também com trilha de Jones),
no qual interpretou o policial negro Virgil Tibbs (papel que reprisaria
em 1970 com 'They Call Me Mr. Tibbs - Noite Sem Fim, em que Jones
forneceu um balanço mais funk, e em 1973 com'The Organization').
Esses filmes mostravam Poitier como um protagonista apresentável
da classe média, simplesmente tolerado, e não aceito, pela
sociedade racista na qual se encontrava. Enquanto Poitier tomava as telas
de assalto, tornando-se o primeiro astro negro de Hollywood, Jones trabalhava
duro como compositor de trilhas sonoras. Entre seus trabalhos mais conhecidos
estão 'Ironside', (Têmpera de Aço), 'Sanford
and Son' e filmes como 'Dollar$' (Ladrão Que Rouba
Ladrão), com Warren Beatty, e 'The Italian Job' com Michael
Caine.
Apesar
de os filmes de Poitier, feitos por grandes estúdios, sugerirem
que era possível aos negros serem plenamente aceitos pela sociedade
americana, a realidade era bem diferente. Protestos raciais pipocavam em
várias cidades dos EUA. Os Panteras Negras, com um grande número
de seguidores nas áreas pobres das grandes cidades, pregavam a revolta
armada. Apesar da influência positiva dos filmes de Poitier na sociedade,
eles simplesmente não refletiam a vida da maioria dos cidadãos
negros da época. Então, grandes artistas "black" como Funkadelic,
The Impressions, Sly and Family Stone e James Brown começaram
a produzir músicas contendo mensagens políticas, emolduradas
por um irresistível balanço. As paradas de R&B provaram
que a procura de "música com mensagem" estava em alta. E as platéias
negras americanas queriam, do mesmo modo, cinema que refletisse a sua realidade,
seu dia-a-dia.
Quando
os anos 70 começaram, essa tendência existia em duas formas
diferentes: a primeira eram os filmes com Poitier, uma mistura de comédia
e drama sério que convenientemente tinha um ator negro em um dos
papéis principais. Bill Cosby, Flip Wilson e mais tarde Richard
Pryor iniciaram suas carreiras desse modo. A música desses filmes
também tendia a ser "aceitável" para os grandes (e brancos)
estúdios, e era produzida por artistas da Motown, como Curtis Mayfield.
Os vocais normalmente cabiam a Aretha Franklin, Gladys Knight ou uma das
Staple Singers. Os temas leves refletiam a dificuldade dos grandes estúdios
em exibir as pressões sociais do período. Já os filmes
que produziram as músicas mais inovadoras, sem falar nos enredos,
foram os filmes menores, negros em essência e que contrastavam com
os filmes do cinemão Hollywoodiano. Hoje conhecidos como filmes
de blaxploitation, eles supriram a demanda das platéias urbanas
por filmes feitos por negros e dirigidos aos
negros. Os primeiros exemplares buscaram seguir o estilo dos filmes de
James Bond . Destes, 'The Lost Man', de 1969 (mais uma trilha de
Quincy Jones) e o britânico Uptight' (Booker T &
the MGs) originaram dois notáveis discos de trilhas sonoras.
Enquanto
esses filmes eram lançados comercialmente, o talentoso diretor negro
Melvin Van Peebles rodava um drama cômico sobre um branco racista
que, certa manhã, acorda e descobre que sua pele ficou escura! Lançado
em 1970, 'Watermelon Man' foi um sucesso e colocou Peebles sob os
holofotes de Hollywood. Na esperança de que o sucesso lhe permitisse
fazer um filme mais próximo de suas experiências, ele começou
a trabalhar em um filme direcionado às platéias negras, porém
rapidamente descobriu que os grandes estúdios não queriam
saber do projeto. Chamado 'Sweet Sweetback's Badaaass Song', foi
considerado cruel e descompromissado, inacessível aos brancos. Peebles
foi em frente assim mesmo, bancando quase toda a produção.
Impossibilitado de exibí-lo em muitas salas, ele convenceu a uns
poucos cinemas negros de Detroit, San Francisco e New York a colocá-lo
em cartaz. A resposta foi incrível. Pessoas faziam filas, às
centenas, para assisitir ao que era, essencialmente, a história
de um anti-herói negro e promíscuo que vai para o México
fugindo da polícia branca. O próprio Peebles escreveu a trilha
com a ajuda de um grupo recém formado chamado Earth, Wind and Fire.
Quase
simultaneamente, a MGM filmava o primeiro filme blaxploitation de
grande orçamento, 'Shaft', dirigido por Gordon Parks. O estúdio
buscava desesperadamente um grande sucesso para reviver seus tempos de
grandes bilheterias. No filme, segundo a sinopse da MGM, um "detetive particular
negro, musculoso e atraente chamado John Shaft (Richard Roundtree) enfrenta
mafiosos, capangas e raptores, provando ser eficiente na cama e com uma
arma". Os críticos brancos imediatamente decretaram que o filme
refletia a vida das ruas, quando na realidade nada mais era do que um filme
de ação dirigido e estrelado por negros. A MGM foi recompensada
quando 'Shaft' ganhou um Oscar. A estatueta de melhor canção
- "Theme from Shaft" - foi para o maior artista que a Stax Records
já teve, o cantor e arranjador
Isaac Hayes. Sua performance na cerimônia
do Oscar, pilotando um piano flutuante e vestindo uma espécie de
camiseta feita de correntes, causou tanto impacto quanto a música.
A faixa-título é um dos mais memoráveis temas compostos
para o cinema. Iniciando com uma forte cadência ditada pelo prato
da bateria, logo complementada por uma soberba e muito imitada guitarra
wah-wah, o tema resume toda a trama do filme em três minutos. As
letras, cortesia da maestria de Hayes, ao mesmo tempo satirizam e
glamurizam o herói. O resto da trilha é forte, com temas
românticos ("Ellie´s Love Theme), muitos metais, faixas flertando
com o jazz e ritmo contagiante ditado por baixo e bateria. A inacreditável
"Do Your Thing" inicia como uma espécie de balada urbana, e termina
como uma apoteose de guitarra, baixo, órgão Hammond, metais
e vocais surrealistas dos The Masquerades, com quase 20 minutos de duração.
Enfim, a grande diferença de 'Shaft' e outras trilhas jazzísticas
era uma criatividade refrescante; com conteúdo mas funk e dançante,
o álbum duplo vendeu milhões e tornou-se um clássico
obrigatório. A maior parte dos álbuns de trilhas que se seguiram,
como 'Shaft', lançaram um grande número de singles
de sucesso. Shaft e sua trilha estabeleceram o estilo dos filmes
negros que surgiriam nos cinco anos seguintes, até o gênero
morrer após originar filmes progressivamente mais ridículos
e caricatos.
'Shaft'
rapidamente originou uma sequência, 'Shaft's Big Score' (O
Grande Golpe de Shaft, 1972), que teve a trilha composta pelo próprio
diretor Gordon Parks, com vocais de O.C. Smith. O destaque vai para "Symphony
of The Shafted Souls", que em seus 13 minutos de duração
acompanha a grande sequência de ação do filme, em que
Shaft é perseguido no porto de Nova York. O terceiro e último
exemplar da série - sem contar a sua refilmagem de 2000 - foi 'Shaft
in Africa' (Shaft na África, 1973), que misturou as experiências
de Johnny Pate no jazz e como arranjador dos The Impressions, com ritmos
africanos e o soul. The Four Tops interpretaram um ótimo tema de
sucesso, "Are You Man Enough". O álbum possui
muitas faixas vibrantes, e merece ser comprado (foi recentemente reeditado,
juntamente com algumas faixas do primeiro Shaft, sob o título 'The
Best of Shaft'). 'Shaft' também originou uma série
de TV de curta duração, igualmente estrelada por Richard
Roundtree.
Em
1972, as trilhas de blaxploitation estavam no auge. Muitos dos maiores
artistas negros americanos estavam compondo trilhas simultaneamente. O
soberbo álbum 'Trouble Man', de Marvin Gaye, foi a única
ocasião em que o prematuramente falecido e ainda respeitado artista
pôde flertar com o jazz, em várias faixas instrumentais
e funk. Bobby Womack, auxiliado pelo veterano trombonista de jazz J.J.Johnson,
apresentou alguns de seus melhores souls em 'Across 110th Street' (A
Máfia Nunca Perdoa). Mas
o destaque do ano foi inegavelmente 'Superfly', de Curtis Mayfield.
Apenas quatro anos antes, Mayfield (que ficou paraplégico após
sofrer grave acidente e faleceu em 1999) produzira canções
românticas e otimistas para The Impressions. Agora, ele já
absorvera a influência rítmica da música de James Brown,
juntamente com o sentimento melódico de Marvin Gaye, e suas composições
eram mais criativas e abrangentes. 'Superfly',
como seria de se esperar, era um filme violento. Narrava as trapaças
de um anti-herói traficante de drogas, Priest, interpretado por
Ron O'Neal. Polêmico, foi proibido pelo governo militar brasileiro,
e estranhamente nunca foi exibido por aqui, sendo inédito ainda
mesmo em vídeo. As canções belas e passionais de Mayfield
superaram a aparente mensagem do filme, e são as melhores que
já produziu.
Os
filmes que se seguiram foram ficando cada vez mais formuláicos,
sendo meras cópias de 'Shaft'. As gravadoras lutavam para
incluir seus maiores astros negros nas trilhas, e virtualmente todos os
grandes artistas do soul, e mesmo astros menores da época, constaram
em algum álbum de blaxploitation.  James
Brown, habilmente secundado pelo trombonista dos JB' s, Fred Wesley, forneceu
as trilhas de 'Black Caesar' (O Chefão do Harlem, 1973, estrelado
por Fred Williamsom) e 'Slaughter's Big Rip-Off'.(Slaughter, o Homem
Impiedoso, 1974, com Jim Brown). Este foi uma sequência de 'Slaughter',
cuja trilha não saiu em LP mas tinha uma canção tema
de Billy Preston. Uma das melhores trilhas compostas por James Brown, posteriormente
lançada em LP com o título 'The Payback', foi rejeitada pelo
diretor Larry Cohen. O filme era 'Hell Up In Harlem' (1974) e acabou
tendo uma trilha de Edwin Starr. Solomon Burke compôs a trilha de
'Cool
Breeze' (1972, com Gene Page) e 'Hammer' (1973), que nunca teve
a trilha lançada. Allen Toussaint compôs o score de
'Black
Samson', lançado em 1974. Gene Page, com vocais de The Hues
Corporation, compôs 'Blacula' (1972 - Page faleceu em 1998,
às vésperas do lançamento de Blacula em CD), enquanto
Roy Ayers produziu o  soberbo
'Coffy'
em 1973. Os Blackbyrds contribuíram com 'Cornbread, Earl and
Me' enquanto The Impressions forneceram canções para
'Three
The Hard Way' (Implacáveis até o Inferno, 1974). Barry
White escreveu a trilha de 'Together Brothers' (1974), que possuía
alguns sólidos instrumentais funk. Até mesmo o baterista
Bernard Purdie compôs um score para um filme erótico
chamado 'Lialeh' em 1974.
Wille
Hutch produziu dois grandes álbuns, 'The Mack' (1973) e 'Foxy
Brown' (1974), este protagonizado pela musa negra Pam Grier.
J.J.Johnson, veterano músico de jazz e muita competência
para compor trilhas, produziu seus melhores trabalhos em colaboração
com outros artistas. No western de Bill Cosby 'Man and Boy'
(1971) ele fez parceria com Quincy Jones e Bill Withers. O soberbo 'Across
110th Street' foi composto com Bobby Womack (apesar do álbum
ser bem diferente da música ouvida na tela). Johnson também
compôs 'Willie Dynamite' (com Martha Reeves) e 'Cleopatra
Jones', cujo tema de sucesso foi composto por Joe Simon e cantado por
Millie Jackson.
Um
dos primeiros blaxploitation,
'Come Back Charleston Blue',
teve uma interessante trilha estilo anos 20 de Quincy Jones, além
do clássico soul de Donny Hathaway "Ghetto Boy". A continuação
de 1973 para 'Black Caesar', 'Hell Up In Harlem', teve
a canção tema interpretada por Edwin Starr, enquanto Barbara
Mason cantou o tema de 'Sheba Baby' em 1975. A inesperada escolha
do grupo africano Osibisa marcou a trilha da continuação
de 'Superfly', 'Superfly T.N.T.' (1973).
 Já
no início do declínio do gênero, Isaac Hayes estrelou
e compôs as trilhas de 'Three Tough Guys' (O Preço
da Ousadia, 1973) e 'Truck Turner' (1974) . Apesar de terem grandes
momentos (confira "Tough Guys Theme" e 'Pursuit of the Pimpmobile' de 'Truck
Turner'), estas trilhas não repetiram o sucesso de 'Shaft'.
Ambas foram relançadas em CD duplo com o título de "Double
Feature".
O
gênero, em sua forma criativa, terminou, porém sua influência
musical perdurou. Curtis Mayfield produziu a trilha de 'Short Eyes'
e até mesmo apareceu no filme. Também arranjou 'Let's
Do It Again' para The Staple Singers e 'Sparkle' para
Aretha Franklin. O grupo War fez uma aparição tardia na trilha
de 'Youngblood' em 1978. Também é interessante notar
que os filmes blaxploitation, em seu auge, influenciaram outros
gêneros, inclusive um que, ironicamente, foi a inspiração
de muitos de seus primeiros exemplares. Em
1973, Roger Moore encarnou pela primeira vez o agente 007 em 'Live and
Let Die' (Com 007 Viva e Deixe Morrer). Na trama, James Bond, ícone
do herói branco, enfrentava vilões negros, mas para evitar
a conotação racista uma das bondgirls era negra. Se a música
tema de Paul McCartney seguia um estilo mais próximo ao da série,
a trilha de George Martin (ex-produtor e arranjador dos Beatles) providenciou
várias faixas soul com guitarras wah-wah, para as cenas do Harlem
e de ação. Ainda
em 1973, 'Enter The Dragon' (Operação Dragão)
lançou o artista marcial Bruce Lee ao estrelato. Um dos heróis
foi interpretado pelo campeão negro de karatê Jim Kelly, que
posteriormente estrelou 'Black Belt Jones' (Jones, O Faixa Preta,
1974) e 'Three The Hard Way' (Implacáveis até o Inferno,
1974). Em Operação Dragão, a ótima trilha de
Lalo
Schifrin, que já produzira grooves
urbanos para 'Bullit' (1968) e 'Dirty Harry' (Perseguidor
Implacável, 1971), era convenientemente funky quando Kelly surgia
na tela.
Em
1977, já em plena era disco, 'Car Wash' foi praticamente
o canto de cisne do blaxploitation, narrando o divertido (e às
vezes dramático) dia-a-dia dos funcionários negros de um
lava-rápido. Para a trilha, o veterano produtor, compositor e arranjador
da Motown, Norman Whitfield, criou o grupo Rose Royce especialmente para
gravar algumas canções e interpretar as faixas instrumentais.
O álbum duplo, puxado pela canção título, foi
o último sucesso de vendas do gênero. Deve ser notado que,
surpreendentemente, muitas trilhas de blaxploitation nunca foram
lançadas comercialmente, e os filmes que tiveram trilhas lançadas
não eram, necessariamente, os de maiores orçamentos ou com
os maiores astros. Uma limitada seleção de faixas inéditas
ainda pode ser encontrada em arquivos sonoros de estúdios, ou ainda
em LPs ou CDs de edição especial e limitada. Nestes trabalhos,
brilharam músicos de estúdio como Charles Pitts e Lester
Snell (guitarras), Harvey Mason (bateria), "Wah Wah" Watson (também
conhecido por Melvin Ragin, guitarra) e Lee Ritenour (guitarra), alguns
inclusive seguindo carreira solo. Infelizmente, muitas dessas trilhas,
como os próprios filmes, desapareceram na obscuridade dos anos 80.
Mas a recente onda de interesse pelo cinema e a cultura dos anos 70 levou
ao desejo de muitos explorarem o gênero blaxploitation, um
justo, mas tardio reconhecimento à sua duradoura influência
na música moderna.
|