CANTORAS DO RÁDIO (Brasil, 2009)
Gênero: Documentário
Duração: 85 min.
Elenco: Carmélia Alves Carminha Mascarenhas Ellen de Lima Violeta Cavalcante
Compositor: Teco Fuchs
Roteiristas: Mônica Rischbieter, Gil Baroni
Diretor: Gil Baroni, Marcos Avellar

Levando a vida a cantar

Belo documentário faz justiça às cantoras e cantores que se dedicavam à música popular brasileira antes do surgimento da Bossa Nova e da Tropicália, cruelmente alijados dos veículos de comunicação

Apesar da forte vocação musical do Brasil, os estilos e ritmos musicais surgidos genuinamente no país sempre foram vítimas de muito preconceito - e muito mais por parte da mídia e de uma camada supostamente intelectual que do povo, que nunca teve inibição em amar e muito os ritmos da terra. Basta analisarmos o exemplo do samba que, quando surgiu, era visto como "coisa de marginal" (e mesmo atualmente ainda sofre certa resistência nos setores teoricamente mais refinados da sociedade); ou do sertanejo, que até hoje enfrenta o ódio de uma minoria também teoricamente mais intelectualizada simplesmente por haver levado o ritmo do interior do país ao sucesso nacional e internacional, e liderar há duas décadas a preferência popular. Mas talvez o episódio mais cruel de descaso com a nossa música diga respeito às cantoras (e cantores) que se dedicavam à música popular brasileira antes do surgimento da Bossa Nova e da Tropicália: estas foram cruelmente alijadas da mídia e dos veículos de comunicação.

É a essa sonora injustiça que o diretor Gil Baroni pretende compensar com uma sonora musicalidade - a musicalidade de CANTORAS DO RÁDIO, filme de estréia do cineasta e que resgata o maravilhoso trabalho de quatorze divas da música popular brasileira da primeira metade do século - dez delas já falecidas, e quatro que conseguiram burlar os preconceitos da mídia e da pseudo-intelectualidade e levar aos palcos um show-homenagem às outras dez, por sinal suas amigas e colegas de trabalho: Carmélia Alves, Carminha Mascarenhas, Ellen de Lima e Violeta Cavalcante.

CANTORAS DO RÁDIO não se limita, porém, a meramente filmar o show, por sinal chamado ESTÃO VOLTANDO AS FLORES. Claro que, se o fizesse, poderia realizar um filme delicioso da mesma forma - ou, melhor dizendo, de outra forma: afinal, se fosse nada menos que a simples filmagem do show, o filme provavelmente já seria tão lindo quanto este. Porém, Gil Baroni não se limita a registrar as divas no espaço de um palco, e vai muito além disso, registrando o cotidiano das quatro cantoras, grandes amigas entre si, e mostrando que, apesar do esquecimento de que são vítimas, elas não perderam a alegria, o gosto pelo ofício de cantar e muito menos o prazer de viver.

É esse prazer de viver, tão ávido naquelas senhoras, e que o cineasta tão habilmente registra, o maior diferencial de CANTORAS DO RÁDIO, e que representa o passo além entre o filme e o show que o originou. Entre uma música e outra, uma apresentação e outra, o espectador tem o privilégio de presenciar a reunião das quatro moças, realizada durante um agradável passeio pelo Rio de Janeiro - cidade aonde o show estava sendo realizado quando das filmagens de CANTORAS DO RÁDIO. Durante o passeio, de acordo com o depoimento de cada uma das moças, elas declaram seu amor à música e seu carinho às dez amigas homenageadas - depoimentos que Baroni reúne de tal forma a construir uma legítima (e linda) exaltação à música popular brasileira.

É essa exaltação o que mais emociona em CANTORAS DO RÁDIO: o filme pode ser definido como um resgate da música e da cultura brasileiras que responde ao descaso imposto pela mídia atual através do amor que Carmélia, Carminha, Ellen e Violeta tanto registraram em suas músicas - e cujo trabalho tão habilmente comprova que as canções dessas divas realmente cruzam o espaço azul, embalam nosso sono e nos acordam para um mundo de encantamento - e de filmes bonitos.

Cotação:
Carlos Dunham
FILME EM DESTAQUE