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Música para Zumbis Brazucas
O
Filme
No Brasil,
fazer um filme de terror não é fácil nem para quem dispões de orçamentos
consideráveis. Fazer um filme de terror independente, então, nem se fala, ainda
mais quando aborda o sub-gênero zumbis. Isto porque, de modo geral, o público já
é restrito por se tratar de um filme de terror nacional. E quando você entra no
assunto mortos-vivos a tendência é de que a audiência seja ainda menor. O terror
nacional não conta com grandes referências - apenas algumas produções
interessantes do José Mojica Marins (o Zé do Caixão, que aliás faz uma aparição
em A Capital dos Mortos) e mais uma coisa ou outra, como os terrir
de Ivan Cardoso. Todo esse quadro aparentemente desfavorável, no entanto, não
foi barreira para o diretor brasiliense Tiago Belotti. Há muitos anos na luta
para realizar o filme, o diretor nunca conseguiu apoio ou patrocínio justamente
pelo baixo "status" do terror nacional, e então resolveu bancar tudo do seu
próprio bolso. No final das contas, todo mundo que ia se chegando ao projeto
acabou dando alguma contribuição, principalmente pela divulgação boca a boca,
que fez com que em pouco a comunidade do filme no orkut extrapolasse os 1000
membros - atualmente conta com mais de mil e oitocentos. O filme teve seu
lançamento no Festival de Filmes Curtìssimos em Brasília, realizado no
CineBrasília. A idéia original é de fazer uma trilogia, mas tudo vai depender da
repercussão deste primeiro filme.
A Trilha Sonora de Renan Fersy
Renan
Fersy, 21 anos, é arranjador, orquestrador e compositor de trilhas sonoras,
sendo um dos resenhistas de trilhas do ScoreTrack.net. Vindo de uma
família que sempre foi envolvida com a arte, seja na dança, pintura e
principalmente na música, Renan iniciou cedo seus estudos musicais, e aos 4 anos
de idade já tocava seus primeiros acordes no piano. Com a palavra, Renan:
"Eu
conheci o diretor Tiago Belotti ano passado através do orkut. Ele estava às
pressas procurando um compositor para a trilha orquestral do filme. A gente
trocou algumas palavras apenas, e a parceria já estava fechada. Ele ouviu duas
faixas minhas de outros projetos, e disse na hora que era exatamente o estilo de
composição que ele precisava.
Desde o
momento que eu e o Tiago fechamos para composição da trilha, eu sabia que o
filme seria algo nunca visto no Brasil.
Meu forte sempre foi compor música orquestral. Overtures grandiosos,
Poemas Sinfonicos. Essa foi uma barreira que me deparei já de cara, pois não
havia nenhuma trilha orquestral de filme de zumbi como referência. Digo, todos
filmes do Romero contam com trilhas de sintetizadores, sempre tendendo ao
eletrônico. Simplesmente, não tinha nada para me basear. Ao mesmo tempo, eu
queria evitar o eletrônico ao máximo. Queria criar um conceito diferente para
filmes de zumbis. Uma trilha ao melhor estilo Hollywoodiano de
Hans Zimmer e
Danny Elfman, fugindo do
estilo eletrônico de Tyler Bates (que compôs Madrugada dos Mortos, de
2004) e Marco Beltrami (Resident
Evil: O Hospede Maldito). Essa nova geração de compositores está cada vez
mais se baseando no eletrônico, e aos poucos a música vai perdendo em timbre,
massa sonora, forma e estrutura. E experimentar é bom, eu mesmo fiz diversos
experimento na trilha de Capital. Nos créditos iniciais procurei criar texturas
misturando percussões pesadas com elementos eletrônicos e então entra o coro,
sob a marcação do timpani. Esse é o único momento da trilha que tem o fator
eletrônico em proeminência. No resto da trilha usei o máximo de recursos
orquestrais possíveis. É como eu sempre digo, se você se dedicar a estudar todos
recursos que uma orquestra pode oferecer, vai se surpreender com a gama de
efeitos sonoros e de timbre que é possível obter. Usei bastante o waterphone
em cenas de suspense, para dar uma ambientação sinistra. Quem ouve pensa que
é eletrônico, mas é um instrumento acústico.
A visão de
liberdade artística está cada vez mais distorcida. Temos Gustavo Santaolalla
ganhando dois Oscars consecutivos, enquanto
Jerry Goldsmith,
Bernard Herrmann e
James Horner foram
contemplados apenas uma vez. Sem contar compositores extraordinários como Danny
Elfman, Alan Silvestri e John
Debney que nunca tiveram esta oportunidade.
Se isso
acontece em Hollywood, agora imagina aqui no Brasil como anda o meio das trilhas
sonoras. Tudo acaba em samba e bossa nova.
Eu
tinha a idéia desde o início de ter um tema principal para o filme, e acho que
de certa forma consegui isso. Mesmo que de forma discreta, temos um tema que se
apresenta diversas vezes. Ele lembra um pouco Zimmer tanto pelo ritmo, que é bem
intenso, como também pelo uso de grandes seções de cordas. Procurei, no entanto,
deixar a trilha o mais interessante possível e não apenas presa a um único tema,
por isso busquei apresentar diversos temas e motivos (leitmotifs), que
vão surgindo conforme personagens ou cenas específicas aparecem. Durante o filme
alguns temas vão sendo melhor desenvolvidos. Temas que antes estavam calmos, se
apresentam agitados e vice e versa. Procurei também utilizar orquestrações tão
ricas quanto foi possível, o tema de um dos personagens conta com orquestra
completa. Inclusive é um tema aventuresco que lembra um pouco os de filmes como
Rambo e Robocop. No filme ele aparece apenas em um momento, mas na
trilha oficial estará em versão completa. Aliás, várias faixas que são
apresentadas de forma bem rápida estarão em versão completa no release da
trilha. Ainda não sei se vai haver a venda e distribuição em CD ou se vamos
disponibilizar a trilha para download no site, mediante um pagamento
simbólico. A maior preocupação no momento é em lançar um DVD de qualidade, que
será duplo e recheado de extras. Temas como o de A Profecia, que aparece
no filme no momento em que a profecia do Dom Bosco é lida, tem um caráter um
pouco mais épico proposital, para remeter àquela coisa de profecias e maldições
clássicas dos filmes épicos como Merlin, O Senhor dos Anéis e
Hercules: The Legendary Journeys. Eu não queria fazer o filme soar como um
Star Wars, cheio de fanfarras e orquestrações extravagantes, mas também
não queria algo minimalista como o tema de Candyman, de Philip Glass.
Busquei um equilíbrio.
Simular uma orquestra virtualmente também não é um trabalho fácil. Eu queria
muito ter usado uma orquestra de verdade, mas isso não é barato, e como o
orçamento de Capital era bem limitado resolvi fazer tudo sozinho mesmo. E devo
confessar o resultado superou até mesmo minhas próprias expectativas. Hoje em
dia temos várias blibiotecas de samplers excelentes, como o Vienna
Symphonic Library e o East West Symphonic Orchestra, mas apenas isso
não garante o realismo. Você precisa trabalhar pesado na edição de cada faixa.
Já sou acostumado a trabalhar com samplers, então o processo todo foi
muito tranqüilo.
Se tudo der certo, e o Capital 2 se concretizar, a tendência é que a trilha seja
mais madura, mais consistente. Já tenho uma gama de temas compostos, posso
trabalhar melhor em cima de cada um deles, criar novas variações a partir de
cada tema. Vou até contar uma coisa: já tenho coisas compostas para o próximo
filme, temas e até composições inteiras que eu resolvi não usar no primeiro
Capital, porque achei que destoavam da abordagem do filme, mas que no segundo
vão se encaixar perfeitamente. O mais legal é que está tudo em segredo, ninguém
da produção teve acesso a essas faixas, nem mesmo o diretor Tiago Belotti. O que
posso dizer é que a trilha de Capital 2 terá boas surpresas."
E que Venham os Zumbis!
Como no ScoreTrack
somos fãs de carteirinha de filmes do Romero e de zumbis em geral, aguardamos
ansiosamente a chegada desta ave rara nacional que é A Capital dos Mortos.
E que esta primeira incursão do nosso Renan seja o início de uma bela carreira
como compositor de trilhas sonora aqui no Brasil ou até mesmo no exterior. Pelo
que já ouvimos da trilha do filme, o trabalho dele certamente irá surpreender.
Links
Site oficial do filme:
www.acapitaldosmortos.com.br
Comunidade do orkut:
www.orkut.com/Community.aspx?cmm=8085362
Portfólio do compositor Renan Fersy:
www.soundclick.com/renanfersy
Jorge
Saldanha |