Cotação: ***** (Clássico), **** (Ótimo), *** (Bom), ** (Regular), * (Ruim)
Clique no link , para ouvir o trecho de uma faixa selecionada do CD comentado

 

THe Lord of The RingS: THE FELLOWSHIP OF THE RING
Música composta, orquestrada e regida por Howard Shore. Interpretação: The London Philharmonic Orchestra, The New Zealand Symphony Orchestra, The London Voices, e The London Oratory School Schola, apresentando Edward Ross (Reprise Records CDW 48110)/18 faixas/Duração: 71:20/Cotação: **** - Desde que foi divulgado que o diretor Peter Jackson levaria às telas uma trilogia de filmes baseada na cultuada obra de Tolkien O Senhor dos Anéis, os fãs de música de cinema começaram a especular sobre quem seria o melhor compositor para criar as músicas da Terra Média. Os óbvios prediletos sempre foram John Williams e Jerry Goldsmith, com um largo número de trabalhos no gênero, seguidos de perto por James Horner. que compusera as trilhas das fantasias Krull e Willow (mais do que inspiradas em O Senhor dos Anéis). Dinheiro não parecia ser o problema, já que Jackson contou com um generoso orçamento providenciado pela New Line Cinema para realizar os 3 filmes. Deste modo, houve uma grande surpresa quando anunciou-se que Howard Shore fora o compositor escolhido. Shore, apesar de ter criado bons e elegantes scores para filmes como A Mosca e O Silêncio dos Inocentes, ainda é lembrado por muitos principalmente por suas partituras eletrônicas ou experimentais para filmes de David Cronenberg (Scanners, Crash), o que levava à dúvida sobre a sua competência para compor para grande orquestra e coral, o estilo adequado à produção. Mas a verdade é que Shore é um autor versátil, como já demonstrara compondo para diversos gêneros cinematográficos, e o resultado de seu trabalho na primeira parte da trilogia The Lord Of The Rings provavelmente surpreendeu àqueles que duvidavam de sua capacidade. Na melhor tradição da velha escola de Hollywood ele criou um score temático, com 3 motivos principais: um lírico em estilo celta, que representa os pequenos Hobbits e o seu Condado, desenvolvido plenamente em flauta doce e cordas em "Concerning Hobbits"; outro que evoca as forças malignas de Sauron com orquestra e coral, o mais ouvido no filme em faixas como "The Black Rider" e "A Knife in The Dark"; e uma fanfarra para a Sociedade do Anel ("The Council of Elrond", "The Ring Goes South", "The Bridge Of Khazad Dum") e que celebra os feitos dos heróis e a irmandade do grupo. O que permanece mais vivo na memória do ouvinte é  o tom sombrio do score, decorrente do uso intenso do "tema do mal", provavelmente a maior fonte das críticas que classificam a trilha como "repetitiva". Fato acentuado com o uso contínuo de música - um problema comum nos filmes de hoje. Os velhos mestres de Hollywood sabiam como poucos o valor do silêncio para acentuar certas cenas. Hoje, opta-se por musicar praticamente cada segundo do filme, o que no caso nos dá praticamente 3 horas de música contínua. Fato, sem dúvida, minimizado pela menor duração do CD ("apenas" 70 minutos). Assim o álbum tem a vantagem de ressaltar os melhores momentos do score, como "A Knife In The Dark", onde a orquestra e a percussão possuem admirável intensidade. Ainda sob o aspecto de força orquestral, merece destaque "The Bridge of Khazad Dum", que apresenta a maior versão do motivo principal da trilha e uma intervenção agressiva do coral sobre tímpanos e metais. Do lado lírico e emotivo, "The Breaking Of The Fellowship" é capaz de arrancar lágrimas do espectador/ouvinte mais durão... Indiscutivelmente o grande chamariz comercial da trilha é a participação da cantora Enya, que colaborou com 2 canções originais. Contudo, diferentemente do que ocorre com a maior parte das canções utilizadas atualmente em trilhas, as músicas da cantora, em "The Council Of Elrond" e "May It Be", integram-se harmoniosamente à partitura. Apesar de seus bons scores experimentais, considero este Lord of The Rings: The Fellowship of The Ring como a maior obra de Shore, capaz de satisfazer à maior parte dos exigentes fãs de música de cinema. Ouvidos os mais recentes trabalhos de Goldsmith e Horner, é de se questionar se hoje eles comporiam algo melhor, e Williams... Quem sabe? É uma trilha "convencional", mas no bom sentido é bom frisar, e sem dúvida era o que o filme exigia: grande, ambiciosa e acima de tudo clássica.  Totalmente merecedora do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original conquistado, na primeira indicação de Shore ao prêmio. Jorge Saldanha


Cotação: **** ½ - Lord of the Rings, o grande épico de J.R.R. Tolkien foi durante muito tempo visto como algo impossível de passar para celulóide. E provavelmente com razão. O novo filme de Peter Jackson falha em convir o tom épico e heróico do livro, e pior ainda, é incapaz de transpor a rica mitologia de Tolkien para o filme. Acrescente-se a isso planos estranhamente escolhidos e uma montagem apressada, e temos mais uma fita saída da máquina de fazer filmes de Hollywood, com o único intuito de vender bilhetes à custa da Arte de contar histórias. Apenas isso... mais um filme. Mais umas horas passadas na sala de cinema, e não uma experiência única, como a que sentimos quando vemos cinema a sério. Não a experiência que nos assombra muito depois de deixarmos a sala de cinema. Mal pomos o pé fora da sala, já não sabemos exatamente o que vimos... e o mais triste é estarmos a perder um dos mais épicos contos de ficção da história. Isto só serve para provar o seguinte: o compositor é o elemento mais menosprezado na 'linha de montagem' de Hollywood. Como estes homens conseguem com a sua música suportar filmes insuportáveis é um mistério... e que nesse processo consigam criar obras primas, não só da música para cinema, mas de toda a música, é um autêntico milagre. Homens como Williams, Goldsmith, Bernstein, antes deles Steiner, Waxman e North, e agora Goldenthal e Shore são autênticos milagreiros. No caso especifico, Howard Shore, criador de algumas das partituras mais inventivas e exigentes do seu tempo (alguém ouviu o seu trabalho em Crash?), poderia ser visto como um Bernard Herrmann dos nossos dias, embora com um feitio muito mais agradável. Shore foi capaz de imbuir a sua partitura com o tom épico, heróico e místico que falta ao desastroso filme de Jackson. E ainda conseguiu apoiar o filme e disfarçar algumas das suas falhas através da música. Muitas vezes, é isso que é pedido ao compositor, a tarefa ingrata de melhorar um trabalho medíocre, e embora o filme em questão esteja além de qualquer salvamento, Shore consegue levar a história a sério (provavelmente, através do texto de Tolkien), e apresentar uma obra completa e de proporções épicas, proporções essas vistas pela última vez quando Williams musicou as aventuras de cavaleiros Jedi. Shore faz um grande uso do coro, que contribui de forma definitiva para o tom mítico da música. Mas em vez de grandioso e empolgante como em Star Wars, o som que ouvimos é mais dramático. A música ajuda-nos a entender que a aventura que vamos assistir é uma de grandes provações e onde não é claro que o bem se sobreporá sobre o mal. Há interessantes passagens para coro e metais ao longo do CD, que fazem lembrar o trabalho do já mencionado Elliot Goldenthal. O trabalho de Goldenthal em Alien 3 também vem à memória no uso de solistas em faixas como "Lothlorien" e "The Breaking of the Fellowship", onde a voz surge como perdida por cima de uma delicada textura instrumental. Tematicamente há material associado ao anel e ao seu criador, aos Hobitts (ouvido no seu maior e completo desenvolvimento na faixa 2 "Concerning Hobbits"), que recorda um dos temas de Willow de James Horner, uma fanfarra para a irmandade e para a sua missão, fanfarra que surge tanto nos metais, cheia de força e nobreza com um tom mais dramático, diluída na paleta orquestral. A meio do nosso caminho somos apresentados a uma canção de Enya, que não é outra coisa senão um love theme para duas das personagens. No final Enya canta outra canção ("May It Be"), e ao contrário do desastroso uso de canções no recente A.I. de Williams, aqui estas duas canções são perfeitas partes integrantes do todo. Para além de surgirem integradas noutro material e de seguirem a mesma orientação estética, há breves citações deste material durante o resto do trabalho.
Shore cria um todo que bem podia contar sozinho a história desta irmandade através da música, sem a presença das imagens de Jackson. E com certeza que o faz. E quando a canção "May It Be" se dilui no silêncio, e os metais ecoam uma última vez a brilhante fanfarra nós sabemos que Shore acredita nesta história e que a vai continuar a contar... mesmo com filmes tão medíocres como este. Miguel Andrade

John Goldfarb Please Come Home
Música composta e regida por John Williams (FSM Silver Age Classics Vol. 4 Nº 17/27 faixas/Duração: 71:33/Cotação: *** ½ - O lançamento mais recente da FSM, dedicado ao compositor de Star Wars, tem a particularidade de ser o seu primeiro trabalho como compositor free lancer. Depois de vários anos a trabalhar como pianista e orquestrador para a 20th Century Fox e Columbia Pictures, Williams consegue em 1959 um contrato de cinco anos com a Revue Studios (o braço televisivo da Universal) e que levou o jovem compositor a musicar algumas produções cinematográficas menores da produtora mãe. Em 1964, findo o contrato, Williams encontrou-se a trabalhar numa esquecida comédia para Lionel Newman (irmão do lendário Alfred Newman) na 20th Century Fox. John Goldfarb Please Come Home conta com uma partitura que já deixa vislumbrar todas as marcas registradas do estilo compositivo de Williams. Há material temático para os principais personagens: um "Main Title" que pode ser chamado de James Bondiano, um love theme para Goldfarb (Richard Crenna) e Jenny (Shirley MacClaine), uma marcha militar para o Departamento de Estado norte americano, e muita música arábica para o Rei Fawz (Peter Ustinov) e o seu harém. Há também faixas com um som mais jazzistico como em "Mongoose Blues" e a inevitável influência de Henry Mancini (digo inevitável pois estávamos no momento de maior fama deste compositor) em várias faixas como "Goldfarb Focuses" ou "Wrong Way Lawrence". O "Main Title" recebe letras de Don Wolf e é transformado numa canção, originalmente gravada por Jaye P. Morgan (faixa 22), canção que parece saída de um filme do agente secreto 007. Mas acabou por ser substituída por uma interpretação por Shirley MacClaine, que pondo as coisas de uma forma simpática, não tem a voz que seria necessária para esta canção. Várias versões por MacClaine surgem no "Main Title", "End Credits" e em dois outtakes do tema de abertura. Após ouvir isto uma vez sugiro que saltem as restantes versões... O love theme é curiosamente o mesmo tipo de melodia que Williams iria apresentar em muitos dos seus temas românticos na década seguinte e mesmo ainda nos anos 80. Podemos ouví-lo em "Iceberg Melts" (que termina com um interessante piano rag), "Sleeping with Asps" e "Jenny and Goldfarb". A marcha de tom marcial para o Departamento de Estado é também um parente próximo da marcha de influência prokofieviana de Close Encounters of the Third Kind. Williams introduz este tema por entre o decorrer de várias faixas, dissolvendo-o com outro material. Há muita música de influência arábica, com cuidadoso uso de instrumentos de sopro locais, o que demonstra o vasto conhecimento musical do compositor, quando este tinha apenas 32 anos. A marcha da equipe de football Notre Dame (composta por Rev. Michael Shea) surge também em duas ocasiões. Tal como descrito nas excelentes notas que acompanham mais esta edição da FSM, muitas das faixas variavam entre durações de apenas dois segundos e alguns minutos. No caso das primeiras, estas foram agrupadas de forma cronológica em faixas mais longas, como acontece logo na segunda faixa do CD, "The Plot Beguins". Um álbum que será do interesse do fã incondicional de Williams, mas que não deixa de perder o seu interesse para os interessados em música para cinema. MA

RUNNING FREE
Música composta, orquestrada e regida por Nicola Piovani, interpretada pela Orquestra da Accademia Musicale Italiana (Varèse Sarabande VSD 6152)/16 faixas/Cotação: **** - Essa Trilha realmente é fantástica, o compositor Nicola Piovani optou por definir um tema de fácil memorização e inseri-lo em quase todas as faixas, mesmo que de forma sutil, um tema extasiante por excelência. Há uma utilização também de percussão, que muitas vezes lembra Lalo Schifrin em seus temas latinos. Percussão esta que vem a ser semelhante até ao nosso atabaque, empregado em momentos em que o filme se torna ágil, demonstrando uma sincronização absoluta entre o compositor e a película. Destaque para a faixa título, e a de número 6, que utiliza-se do mesmo tema, somente que em ritmo de "Brass Band". A Orquestra também garante o CD, demonstrando bastante vigor nas horas do Allegro temático. Augusto Leandro Silveira

The Poseidon Adventure/The Paper Chase/ConrackMúsica composta e regida por John Williams (FSM Silver Age Classics Vol. 1 Nº 2)/25 faixas/Duração: 75:53/Cotação:**** - Como na maioria das edições da FSM, este primeiro CD dedicado a Williams nunca tinha sido lançado comercialmente, nem mesmo em LP, e  tem também a particularidade de abraçar três trabalhos menos conhecidos do compositor. A capa dá destaque ao trabalho mais célebre dos três, o filme catástrofe The Poseidon Adventure, apenas disponível num EP japonês com excertos e em CD pirata durante alguns anos. The Paper Chase apenas teve disponível o tema transformado em canção lançado em 1973, e Conrack só seria conhecido por quem tivesse visto o filme. De particular interesse nesta edição é o fato de incluir toda a música disponível, incluindo source music composta e/ou dirigida por Williams. Para The Paper Chase, Williams gravou vários excertos do Concerto in D Major para 3 trompetes, 2 oboés, tímpano, cordas e contínuo de Georg Philip Telemann, associados a uma das personagens, mas apenas um destes sobreviveu, aparecendo neste CD na faixa 10. Williams também escreveu um arranjo para orquestra da Pequena Fuga em Sol menor para órgão de J.S. Bach, que serviu para musicar uma cena em que os protagonistas estão a estudar. Outras seqüências que apresentam os personagens nas suas atividades estudantis continuam a ser musicadas com música original, mas à moda barroca. O restante da partitura é baseada no love theme, que surge tanto em arranjos pop (faixa 1) ou usado como acompanhamento dramático (faixa 4 "Be Irrational", faixa 7 "Thinking of Susan" e faixa 11 "Real Identity"). Material com uma orientação mais pop pode ser ouvido em "Kevin's House" e "Kevin's Tutor" (faixas 5 e 8), mas o ponto alto desta partitura é a ambiental e misteriosa "The Passing of Wisdom", peça que usa alguma da mesma escrita que Williams usará anos mais tarde em Close Encounters of the Third Kind. Segue-se um excerto de seis minutos de Conrack, a única música que sobreviveu desde a gravação original. Na mesma linha de outros trabalhos de Williams para filmes passados no interior da América, este "Main Title" faz lembrar The Missouri Breaks e deixa antever The River e Rosewood, com solos para guitarra e flauta, enquanto que as passagens que fazem maior uso da orquestra recordam The Cowboys. Apesar de esta ser a única música que poderemos ouvir fora do filme, Williams compôs apenas cerca de 15 minutos de música para este filme de Martin Ritt (Pete'n'Tillie, Stanley and Iris). Um dos melhores momentos do CD. Chegamos então à partitura que merece o destaque da capa. A mais conhecida das três, é provavelmente um trabalho menor de Williams no gênero do filme catástrofe. O "Main Title" de The Poseidon Adventure acaba por ser o momento memorável, com a forte introdução do tema pelas trompas. O tema conclui com um glissando repetido incessantemente nas cordas que Williams exploraria anos mais tarde em Close Encounters of the Third Kind. Há passagens cheias de uma atmosfera tensa e outras que deixam revelar momentos de ação, ligados à tentativa de os vários personagens se salvarem. Em muitas das faixas o tema principal surge, nos mais variados arranjos, mas sempre para sugerir a ameaça que os protagonistas enfrentam. Há efeitos percussivos no piano para gerar tensão, uma das marcas registradas de Williams. E há também uma faixa de source music, no tom pop dos anos 70 em "To Love". O esforço de Lukas Kendall e dos seus companheiros teve frutos ao descobrirem um love theme, "Rogo and Linda", que não foi usado no filme e que contem uma lindíssima passagem para flauta, acompanhada pelas cordas. "Death of Belle" começa com as cordas a criarem mais um momento atmosférico, passando depois para uma variação, algo elegíaca do tema principal, mas ondulando-se com efeitos atonais e dissonantes por parte das cordas, com forte participação da harpa. "Hold your Breath", tem um tom muito mais otimista, com uma breve passagem para flauta, impondo depois um ritmo urgente, novamente com a presença da harpa. Após isto as madeiras e cordas regressam às passagens atmosféricas. Apropriadamente, o "End Title" inclui um retrabalhar do tema principal, após um início com um crescendo de tensão (enquanto os protagonistas se aproximam da saída do navio acidentado). Uma ótima forma de começar uma série de álbuns dedicados a um dos grandes de Hollywood, com três trabalhos desconhecidos por muitos, e apresentados com a melhor qualidade possível (a deterioração das fitas não permitiu melhor qualidade em algumas faixas). MA

A Guide for the Married Man
Música composta e regida por John Williams (FSM Silver Age Classics Vol. 3 Nº 5)/31 faixas/Duração: 73:25/Cotação: *** ½  - O CD da FSM de A Guide for the Married Man, uma comédia realizada pelo lendário Gene Kelly e protagonizada pelo então recentemente falecido Walter Matthau (a quem a disco é dedicado), surgiu apenas no verão de 2000. Mas a espera valeu a pena. Não sendo um dos trabalhos memoráveis de Williams, a música para esta comédia pertence ao mesmo universo que os trabalhos de Henry Mancini para Blake Edwards. Ainda assim, o jovem Johnny Williams não fica à sombra de Mancini, criando um trabalho que sugere a comédia mas que noutros momentos parece extremamente sério. Quase toda a música tem um tom quase balletico, sem dúvida derivado da forma de Kelly filmar. Há outras influências na música, nomeadamente uma passagem que faz lembrar o tema de James Bond ("The Globetrotters"), mas o Williams que todos conhecemos hoje já era visível, mesmo por debaixo de todas estas influências. Isso é notório logo na canção de abertura, com letras de Leslie Bricusse, da qual há duas gravações distintas, nas faixas 1 e 3. A primeira é interpretada pelos The Turtles, e faz fade-out para uma curta passagem orquestral. A segunda é interpretada por um coro dos estúdios de Hollywood. A certa altura Williams cria uma modulação na linha do coro, habitual no seu estilo de compor mais recente e maduro. O tema da canção é simpático e fica no ouvido, enquanto Bricusse providência uma letra igualmente inteligente e divertida. Visto o filme ser uma sucessão de sketches, onde vários maridos infiéis contam as suas aventuras (onde são invariavelmente apanhados pelas esposas traídas) a Matthau, a música não apresenta uma grande unidade temática, mas toda a partitura é unida pela qualidade estética da música, misturando de forma inteligente estilos dispares, como acontece logo na faixa 2 "Prologue/Off to Work". Uma seção inicial sugere os tempos antigos com uma melodia de influência arábica, passando depois por uma breve fanfarra Rózsiana, aludindo ao império romano, avançando para uma variação barroca no cravo e flauta, e concluindo com guitarra elétrica, bateria e seção de metais. Isto tudo apenas para apresentar uma animação para os créditos de abertura, que descreve a história da infidelidade marital. Muito disto aplica-se à partitura como um todo. Mas apesar disso há alguns motivos musicais que se repetem e acompanham todas estas peripécias. Duas curiosidades ficam em "Piano Bar", source music para piano solo, que o próprio Williams interpreta (e deixa ver como o compositor era de fato mais do que apenas um pianista competente) e "TV Music", já na seção das faixas bônus, que segundo a cue sheet do filme foi composta por Frank DeVol. As últimas nove faixas são então os bônus, que foram para aqui remetidos por serem versões alternativas, por terem sido excluídas do filme ou por se encontrarem danificadas. Um disco simpático, principalmente para os apreciadores do Mancini Sound, aqui com o toque do jovem Johnny Williams. Como sempre os valores de produção são cinco estrelas. MA

ENIGMA
Música composta e regida por John Barry. Interpretação: The Royal Concertgebouw Orchestra (Decca 467 864-2, 2001)/22 faixas/Duração: 56:43/Cotação: *** ½ - Um dos compositores cujas novas trilhas são ansiosamente esperadas (até pela sua escassa produção cinematográfica dos últimos anos) é John Barry. Seu mais recente trabalho é o score para o suspense de Michael Apted Enigma, que envolve uma máquina utilizada pela Inglaterra na 2ª Guerra Mundial para decodificar mensagens nazistas. Apesar do pano de fundo do filme ser um dos maiores conflitos bélicos da história, a música de Barry concentra-se no clima melancólico e romântico do período (sua cidade natal foi bombardeada durante a guerra, o que lhe trouxe uma perspectiva muito pessoal sobre a música). Recentemente Barry teve algumas partituras rejeitadas, e muitos o criticam por seus últimos trabalhos serem semelhantes e muito sutis. De fato Barry vem compondo nesse estilo “low profile” há quase 2 décadas, e Enigma está neste padrão, com melodias lentas construídas sobre metais discretos. Mas a música funciona, e Enigma é um belo e com freqüência sombrio score dividido em 2 partes - as faixas de suspense/ação ("Police Chase", "Wigram Arrives") e as dramáticas ("Is That What Happened?"). Nas faixas dramáticas temos as que transmitem um tom universal de guerra ("London 1946") e aquelas dedicadas aos momentos mais íntimos e de relacionamento ("Tom Goes To Cottage"). Barry apresenta seu tema principal já na "Main Title", mais uma vez em movimentos lentos e tocantes, dominado por cordas, metais, sopros e piano solo. Se você gostar deste tema ficará satisfeito com a freqüência com que ele aparece no CD. E talvez esta seja a maior falha deste álbum, o tema é repetido em demasia. Para muitos isto não será um problema, mas se analisarmos friamente, a maior parte do álbum consiste na repetição deste tema e suas variações. Quando isto – a repetição - não ocorre, Barry desenvolve um tema secundário de 4 notas, em piano, que surge em "Tom Explains Enigma". O tema principal retorna rapidamente na ótima "Is That What Happened?", desta vez com ênfase no piano solo. Nesta faixa de mais de 4 minutos, Barry com eficácia utiliza todos os truques de seu arsenal de compositor. Outro grande momento chega em "Tom Goes to Cottage", também não muito diferente das outras faixas, mas nela Barry aciona o piano solo mais uma vez e o mantém em um modo dramaticamente intimista. Outros bons momentos nos chegam em "Simply Wonderful/Finding Crib" (serenas, com a constante presença dos metais), "Trip to Beaumanor" e "Goodbye To Hester" (destas nenhuma especialmente serena, mas com um belo trabalho de cordas) e a ótima "End Credits", que reprisa o material temático do score. Enigma poderá não figurar entre as clássicas partituras de Barry, mas indiscutivelmente leva a marca de seu autor, uma lenda viva da música para o cinema. Apesar de não possuir a originalidade de seus clássicos, é melhor que seus últimos trabalhos, e proporciona uma audição satisfatória em CD. JS

The Hollywood Sound
Grover Washington Jr, alto sax/London Symphony Orchestra/John Williams (Sony Classical SK62788)/16 faixas/Duração: 68:59/Cotação:  **** ½ - Em 1996, John Williams deslocou-se até Londres para gravar dois álbuns para a Sony Classical. O primeiro, "The Five Sacred Trees", incluía o seu "Concerto para Fagote e Orquestra", enquanto que o segundo seguia a trilha mais comercial das compilações de temas de filmes. "The Hollywood Sound" pretendia, como o seu sub-título sugere, apresentar excertos das melhores partituras vencedoras do cobiçado prêmio da Academia de Hollywood, mas como qualquer coleção deste gênero, as escolhas serão sempre discutíveis. Mas em abono de Williams, devo dizer que poderia ser muito pior. Claro que faltam algumas coisas, é incompreensível não encontrar aqui um excerto de The Omen, o único trabalho premiado de Jerry Goldsmith, ou música de Max Steiner, vencedor de 3 Oscares, ou então de Alfred Newman, o artista mais vezes nomeado e galardoado pela academia. É mais estranho ainda, sabendo-se que Williams era amigo pessoal de muitos destes artistas. Mas provavelmente teve-se de encontrar um balanço entre os temas mais recentes e mais frescos na cabeça dos fãs, com outros que por vezes parecem ter sido esquecidos por muitos dos aficionados de música para cinema mais jovens. Assim encontramos temas de dois dos filmes animados da Disney Beauty and the Beast e Pocahontas, ambos de Alan Menken, Out of Africa e Dances With Wolves de John Barry, o tema de The Last Emperor de Ryuchi Sakamoto, com uma cadência mais pop, e do próprio Williams Star Wars, Jaws e E.T. Neste último seria totalmente dispensável mais esta interpretação do "Flying Theme", gravado pela mesma editora um ano antes em Boston; teria sido mais interessante ouvir música de Schindler's List. Mas as interpretações são sempre excepcionais, em particular o ameaçador tema de Jaws, da qual fica aqui aquela que penso ser a melhor interpretação em disco. O mais interessante do CD está na parte restante do programa. De particular interesse um curto excerto de The Best Years of our Lives do muito esquecido Hugo Friedhofer. Williams também recupera excertos do inesquecível Spellbound (Miklós Rózsa), reconstruído por Patrick Russ e de The Devil and Daniel Webster, a única partitura que deu o prêmio ao lendário Bernard Herrmann. Um interpretação muito fiel à leitura do próprio compositor é deixada no excerto de The Adventures of Robin Hood de Erich Wolfgang Korngold, e a orquestra responde com a adequada entoação latina no tema extraído de The Godfather II (Nino Rota). A pérola da coleção é a suíte que Franz Waxman preparou para saxofone e orquestra da sua música para A Place in the Sun. Com uma fantástica interpretação do agora falecido Grover Washington Jr., convém o tom sensual que o compositor imaginou para acompanhar as imagens. Embora muito mais conhecido, a Fantasia para Orquestra sobre temas de Wizard of Oz (Harlen), preparada por Angela Morley, é também digna de referência. Provavelmente esta foi a melhor compilação possível, tendo em conta as limitações impostas a este tipo de produto, inevitavelmente orientado mais para as intenções comerciais que artísticas. Fica o já habitual brilhantismo da London Symphony Orchestra, o Rolls Royce das orquestras, sob a direção de um homem, que melhor que ninguém, sabe como reger esta música. MA

Cinema Serenade
Itzhak Perlman, violino/Pittsburgh Symphony Orchestra/John Williams (Sony Classical SK63005)/13 faixas/53:55/Cotação: ***** - Foi em Dezembro de 1996 que finalmente ganhou forma um projeto iniciado por John Williams e pelo violinista Itzhak Perlman, em 1993, durante o trabalho em Schindler's List: gravar um álbum com alguns dos mais memoráveis temas de música para cinema em arranjos para violino e orquestra. Williams iria escrever esses arranjos e já tinham a orquestra para acompanhar, a Boston Pops Orchestra, mas conflitos entre as agendas dos dois músicos tornou impossível avançar com o trabalho. Mas a idéia não morreu, e eis-nos com a Pittsburg Symphony a acompanhar um dos mais importantes solistas do nosso tempo, sob a atenta batuta do mais famoso compositor de Hollywood. Embora com um som diferente do dos músicos de Boston, a orquestra de Pittsburg não é menos competente, sendo dona de uma grande precisão interpretativa. Quanto à música propriamente dita, somos agraciados com alguns dos temas mais célebres das últimas três décadas em arranjos na sua maioria assinados pelo próprio Williams. A sua colaboradora habitual da Boston Pops, Angela Morley, é responsável por outros três arranjos e os veteranos André Previn e Elmer Bersntein aceitaram o convite e adaptaram as suas composições para violino e orquestra. O disco abre com o tema do único filme de Spielberg para o qual Williams não compôs a música, The Color Purple, de Quincy Jones. Mas no arranjo de Williams, facilmente poderíamos ser levados a acreditar que o autor é o colaborador habitual do realizador. Uma das grandes capacidades de Williams foi sempre o seu cuidado com a orquestração (em tenra idade já havia estudado os livros de orquestração de Rimsky-Korsakov), e sempre que pega numa peça alheia para a arranjar, torna-a um pouco sua, muitas vezes melhorando-a. O mesmo se passa com Il Postino, o grande sucesso do cinema italiano recente, que valeu um Oscar ao seu compositor, Luís Bacalov. O arranjo de Williams mais uma vez eleva a qualidade da peça. Mas ao mesmo tempo que isso acontece em alguns casos, noutros seria preferível que mantivesse a inocência do original. Como no tango de Carlos Garder "Por Una Cabeza", usado no filme Scent of a Woman (e também em Schindler's List) e no belíssimo "Manhã de Carnaval" de Luis Bonfá (Black Orpheus), que conta com um delicioso solo para guitarra clássica, não creditado. O francês Michel Legrand é representado por dois dos seus mais célebres temas: "Papa, Can You Hear Me?" de Yentl e "I Will Wait For You" de The Umbrellas of Cherbourg. Canções lendárias que aqui são cantadas pelo violino. Uma extraordinária apresentação do tema, uma valsa lenta, de The Age of Innocence (Elmer Bernstein), e do tema de Schindler's List (Williams) são momentos altos, mas é de destacar o quase esquecido tema que André Previn compôs para Four Horseman of the Apocalypse, bem como os arranjos do tema de Sabrina (Williams) e Out of Africa (John Barry), preenchidos com a apropriada magia que pretendiam sugerir em conjunção com as imagens. Nós completamos a nossa serenata cinematográfica com um dos mais belos temas da década de 90, o love theme de Cinema Paradiso, composto por Andrea Morricone, filho do importante compositor italiano, aqui num excelente arranjo de Angela Morley. Merecidamente, o CD  tornou-se num sucesso de vendas, chegando ao primeiro lugar das paradas de música clássica. As interpretações cheias de arte e dedicação, e os arranjos mais que simplesmente competentes, contribuíram para um álbum memorável. Mais do que música para cinema, grande música, que apenas por um mero acaso foi inicialmente pensada para suportar imagens. MA

Cinema Serenade 2: The Golden Age
Itzhak Perlman, violino/Boston Pops Orchestra/John Williams (Sony Classical SK60773)/12 faixas/47:35/Cotação: ***** - Dois anos após "Cinema Serenade", na qualidade de maestro laureado da Boston Pops Orchestra, John Williams traz Itzhak Perlman de volta à música para cinema, mas desta vez visitando obras dos fundadores da arte de musicar filmes. A Boston Pops tem um som muito mais quente, com realce para as cordas e madeiras, em grande parte devido ao Symphony Hall, uma sala toda ela revestida de madeira, e esse som é particularmente simpático para com a qualidade sonora das obras dos compositores escolhidos. Novamente Williams põe o chapéu de orquestrador e assina seis dos doze arranjos, sendo Morley novamente a responsável pelos restantes (com apenas uma exceção). O álbum abre com aquilo que Williams uma vez disse ser "uma das peças mais intoxicantes já escritas", o inesquecível tema de Laura de David Raksin. Max Steiner é recordado pelo tema da sua partitura vencedora do Oscar Now Voyager (arr. Williams) e pelo lendário "Tara's Theme" de Gone With the Wind (arr. Morley). Victor Young também é recordado em duas faixas, na imortal canção "Stella by Starlight", num arranjo de Williams e no tema para My Foolish Heart, também feito canção com letras de Ned Washington, aqui adaptado por Angela Morley. Num excerto de The Quiet Man, Williams e Perlman puseram de lado a música original de Victor Young e optaram pelo magnífico arranjo de Morley da peça tradicional "St. Patrick's Day". Um dos momentos altos fica naquela que para mim é a melhor gravação de "Smile", pequena e ingênua canção de Charlie Chaplin, num arranjo magistral de Williams, que não deixa perder toda a beleza do original. Williams também transforma o love theme de The Adventures of Robin Hood, que deu um Oscar ao grande Erich Wolfgang Korngold, num mini-concerto para violino, e quase podemos rever na orquestração o fantasma do compositor, assim como noutro love theme, desta feita o de The Lost Weekend de outro grande, Miklós Rózsa. O cinema extra-Hollywood não podia ser melhor representado... o sublime tema "Touch Her Soft Lips and Part" de Henry V, representa uma das colaborações entre o compositor Sir William Walton e o grande ator Laurence Olivier, aqui num excelente arranjo de seu compatriota, o compositor Richard Rodney Bennett. Um dos grandes momentos do CD. Há tempo ainda para visitar Casablanca, através de "As Time Goes By", não composto para o filme, mas o tema que mais ligado ficou às aventuras de Humphrey Bogart, e para o belíssimo "Cathy's Theme" de Wuthering Heights, do lendário Alfred Newman. Igualmente excelente como o primeiro álbum da série, este "Cinema Serenade 2: The Golden Age" falhou no sucesso comercial, provavelmente por concentrar-se em repertório menos conhecido para a maioria dos ouvintes mais jovens. Lamentável, uma vez que estão aqui alguns dos alicerces da música para cinema. Dois CDs a não perder, com o toque mágico do violino de Itzhak Perlman e alguma da melhor música composta para a sétima arte. MA

The Spielberg/Williams Collaboration
(Sony Classical SK45997, 1990, 13 faixas) - Toots Thielmann, harmônica/American Boychoir, The Tanglewood Festival Chorus, The Boston Pops Orchestra/John Williams/Cotação: ***** - Desde o início da sua carreira, Williams tem trabalhado como intérprete. Em 1980, quando assumiu a direção da mundialmente famosa Boston Pops Orchestra (a alcunha da Boston Symphony durante os meses de verão), essa sua atividade apenas se tornou mais visível. E inevitavelmente, Williams, o compositor, aproveitou essa nova possibilidade para expor o seu trabalho e o dos seus pares, compositores de Hollywood. O seu primeiro álbum com a orquestra, "Pops in Space", gravado em maio de 1980 e lançado no final do mesmo ano, incluía apenas música de Williams. Nas gravações seguintes não foi raro encontrar composições de Williams, mas só em 1986 o compositor gravou um novo álbum exclusivamente dedicado às suas composições, intitulado "By Request...". Após terminar o contrato com a Philips Classics, Williams e a Boston Pops realizaram mais duas gravações dedicadas às suas composições para cinema, mas desta feita com o ponto comum de conterem apenas música para os filmes do grande amigo do compositor, o realizador Steven Spielberg. O primeiro destes álbuns, "The Spielberg/Williams Collaboration", é um sonho tornado realidade, com magníficas interpretações dos músicos de Boston, que não ficam nada atrás das gravações originais. Todas as peças gravadas são arranjos para sala de concerto, ou então as suítes de end credits, como é o caso da inesquecível "Raider's March", que abre o CD. Para além dos temas que marcam não só a colaboração de Spielberg e Williams, mas a própria história do cinema, como Jaws, Close Encounters of the Third Kind (aqui na suíte para coro e orquestra) e E.T., Williams revisita alguns trabalhos menos conhecidos, como o lindíssimo tema para Always, com um solo sublime para trompa, ou uma versão de concerto de "Cadillac of the Skies" do filme Empire of the Sun. De particular interesse é a primeira apresentação em disco do tema da primeira colaboração entre o realizador e o compositor, The Sugarland Express, aqui num arranjo para sala de concertos, mas mantendo o solo para harmônica, novamente interpretado, tal como na gravação original, por Toots Thielmanns. Jaws recebe uma mini-suíte, composta pelo tema e por "Out to Sea & Shark Cage Fugue". O segundo movimento é particularmente memorável, na magnífica interpretação da Boston Pops, enquanto que o tema pode ser encontrado numa interpretação ainda superior, com o compositor a dirigir a London Symphony no CD "The Hollywood Sound". De E.T. temos "Adventures on Earth", a grande e exuberante conclusão do filme, e o mini-concerto para dois pianos de "Over The Moon". Empire of the Sun traz também a peça coral "Exultate Justi", um dos pontos altos do CD, com a extraordinária participação do Tanglewood Festival Chorus. A marcha de 1941, uma típica marcha dos heróis, mas com um toque algo cômico, ganha uma das suas melhores interpretações. Das aventuras do arqueólogo/aventureiro Indiana Jones temos mais dois temas, sendo de realce o "Scherzo for Motorcycle and Orchestra" do último filme. O disco conclui com a suíte de Close Encounters of the Third Kind, uma viagem deste a atonalidade caótica até ao grand finale, com o som glorioso da Boston Pops, do American Boychoir e do Tanglewood Festival Chorus, enquanto o clássico "When You Wish Upon a Star" se mistura com o agora célebre motivo de cinco notas de Williams. Uma viagem por alguns dos grandes marcos cinematográficos da história recente, através da música de um dos grandes magos da batuta. Para completar em beleza, temos notas assinadas pelo próprio Spielberg e uma magnífica ilustração de Drew Stolzman. A não perder! MA

Williams on Williams: The Classic Spielberg Scores
(
Sony Classical SK68419, 1995, 15 faixas) - Tamara Smirnova, violino/The Boston Pops Orchestra/John Williams/Cotação: **** - Já a segunda incursão da Boston Pops na música dos filmes de Steven Spielberg não é tão satisfatória. Não no que se refere às interpretações, mas na seleção e seqüenciação das faixas. A suíte de cinco movimentos de Hook aparece inexplicavelmente repartida pelo disco. Da suíte "Three Pieces from Schindler's List" apenas surgem dois dos movimentos (o "Theme from Schindler's List" e "Remembrances"). Jurassic Park é representado pelo seu tema e "My Friend, The Brachiossaurus". O resto do disco continua a explorar o mesmo território do CD anterior. "Flying Theme" de E.T. abre o CD, e depois de excertos de Hook, Jurassic Park e Schindler's List, temos o magnífico "Battle of Hollywood" de 1941. E a Boston Pops consegue transmitir a total loucura do filme na sua interpretação. Mais à frente temos "The Barrel Chase" de Jaws, que Williams diz ser o seu excerto preferido da partitura vencedora do Oscar. Música de ação contínua no cômico segmento "The Basket Chase" de Raiders of the Lost Ark, e na ligeireza de "Jim's New Life" de Empire of the Sun. No entanto era absolutamente dispensável a versão apresentada de "The Conversation" de Close Encounters of the Third Kind, totalmente realizada em sintetizadores. De quem foi a triste idéia de não usar a versão original (que pode ser ouvida na edição original de Arista Records) não é claro, mas recomenda-se saltar simplesmente a audição desta faixa. O álbum conclui com mais dois excertos de Hook, o último dos quais "The Banquet" é um final capaz para mais esta viagem por uma das mais bem sucedidas colaborações entre realizador e compositor. Se nos dermos ao trabalho de re-sequenciar as faixas, muito em particular as de Hook, este cd poderá proporcionar uma audição tão enriquecedora como "The Spielberg/Williams Collaboration". Até porque a orquestra responde a Williams como sempre: um profissionalismo total e uma arte absoluta. MA

Black Sunday
Música composta e regida por
John Williams (Studio Orchestra), inclui interpretação da City of Prague Philharmonic regida por William Motzing (CD Pirata)/26 faixas/Duração: 54: 32/Cotação: *** ½ - Black Sunday é o último trabalho de Williams antes de Star Wars e de o compositor se transformar num ícone do cinema americano. Escrito para um filme longe de ser memorável, hoje, após os trágicos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, parece ser premonitório. O filme conta a história de uma tentativa de atentado contra um estádio durante a final do campeonato, onde será usado um dirigível carregado com explosivos. De um lado os terroristas (com uma das poucas coisas boas do filme, na interpretação de Bruce Dern) e do outro, um obstinado agente dos serviços secretos de Israel, numa interpretação muito pouco inspirada de Robert Shaw. Apesar da história com potencial, um fraco elenco e uma realização pobre impediram que o filme fosse algo melhor do que é. Inevitavelmente, Williams surge com um trabalho competente, que ao ser ouvido, não deixa imaginar o quanto ruim é o filme. E felizmente os admiradores do compositor não deixaram cair este trabalho pré-Star Wars no esquecimento. Esta edição pirata de 2000 já é a terceira versão em CD desta partitura. No fundo usa o material apresentado no CD pirata de 1998, que tinha um som apresentável e adiciona algumas das faixas mais curtas e com um som bastante fraco da edição, também pirata, de 1996. Houve a clara intenção, por parte dos autores deste CD, em colocar as faixas nas suas posições cronológicas e de atribuir títulos que, para quem conhecer o filme, permitam a fácil localização das mesmas no desenrolar da história. Mas ainda assim continua a ter apenas uma capa e contracapa muito simples, típico nestas edições não autorizadas. O lamentável é usar, em cinco das faixas, excertos da suíte gravada em 1993 pela City of Prague Philhamonic, sob a direção de William Motzing. Embora as interpretações sejam razoáveis, há uma clara diferença na clareza e precisão dos dois ensembles, apesar do som inferior do original de 1977 não ser tão bom como o da gravação da suíte. O CD abre com o "Theme", extraído do final da suíte. O tema apresenta o material temático principal a ser usado no resto do trabalho. Há uma melodia, que aqui surge numa aparição quase elegíaca no trompete e que vai servir de base para a extraordinária fuga de "Security Prep". Um segundo tema é construído sobre uma curta frase de apenas 7 notas, que convém ao mesmo tempo um sentido de urgência e de perigo. A partitura num todo tem uma qualidade imparável, amedrontadora, como nalgumas seqüências de Jaws. Mas enquanto no filme de Spielberg havia momentos em que podíamos respirar, aqui não nos é dado espaço, e o ambiente torna-se claustrofóbico. Há algum material adicional, algumas faixas em que a música se torna mais ambiental, mas ainda assim possui um tom no mínimo melancólico, como acontece em "Major Setback". Outras faixas onde Williams usa material adicional incluem "The Barn" e "Physics". Mas o próprio tema principal chega a ser usado de forma atmosférica, nomeadamente no início da faixa 2, "Beirut, Nov. 12". Excertos a realçar incluem "Planting the Charges", "Security Prep", "Blimp Takes Off", "Game Plan" e quase toda a parte final do disco, em que há um crescendo de tensão constante. Muito deste trabalho mantém muitas das soluções musicais que Williams usou na época, nomeadamente nas orquestrações e facilmente se ouvem idéias mais tarde desenvolvidas na célebre trilogia Star Wars. Mais uma vez é de se lamentar que boa parte destas faixas são a gravação da suíte. Aguarda-se que uma editora empreendedora se decida a lançar finalmente este trabalho oficialmente. Pelas várias edições piratas que tem surgido no mercado isto só pode significar que existe um público interessado. E com essa edição teríamos mais uma peça do mosaico musical começado em meados dos anos 70 e encerrado em 1983 com Return of the Jedi. Um disco a pesquisar, com um tema memorável e um desenvolvimento que só Williams e poucos mais conseguem criar. Black Sunday revela-se como mais um dos casos em que a música sobreviverá muito além da memória do filme para o qual foi escrita. Falta então quem faça verdadeira justiça a este trabalho do compositor. MA