Corpo Fechado (Unbreakable, EUA, 2000)
Gênero: Suspense 
Duração: 106 min 
Estúdio: Touchstone
Elenco: Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Robin Wright, Spencer Treat Clark, Charlayne Woodard, Eamonn Walker, Leslie Stefanson, Johnny Hiram Jamison 
Roteirista: M. Night Shyamalan
Compositor: James Newton Howard
Diretor: M. Night Shyamalan

Quem assistir CORPO FECHADO esperando ver outro SEXTO SENTIDO obviamente vai frustrar-se. São dois filmes que nada tem em comum, exceto por terem sido escritos e dirigidos pelo indiano M. Night Shyamalan. Ou seja: ambos tem o mesmo ritmo lento e soturno, fotografia esmaecida e escura, trilha sonora pesada (composta novamente por James Newton Howard) e, claro, Bruce Willis fazendo papel de anti-herói. Infelizmente, o título nacional acaba induzindo o espectador (não por acaso) a criar essa expectativa, já que remete equivocadamente ao espiritismo e à umbanda. Deveriam ter ficado com a tradução literal, INQUEBRÁVEL.

CORPO FECHADO é tão bom ou até melhor do que SEXTO SENTIDO, embora possua apelo limitado ao público do Brasil. Como se sabe, brasileiro lê pouquíssimo – muito menos gibis que aqui, ao contrário de nos Estados Unidos e Europa, são quase sempre associados a “coisa de criança”. Obviamente quem diz isso nunca viu uma HQ de Frank Miller ou leu Watchmen – obra prima dos quadrinhos modernos. E por falar nisso, Watchmen vem várias vezes à cabeça durante a projeção de CORPO FECHADO. Não por trazer história ou personagens parecidos, mas sim pelo grau de realismo da trama, que é mais ou menos a seguinte:David Dunn (Willis) é o único sobrevivente de um acidente de trem no qual morrem violentamente 131 pessoas. E o mais impressionante: escapa sem nenhum arranhão.

Tal fato chama a atenção de Elijah, um colecionador de gibis (Samuel L. Jackson, irreconhecível) obcecado em encontrar alguém que seja o oposto dele - Elijah tem uma doença rara que faz seus ossos quebrarem-se como vidro. Para ele, essa pessoa seria o verdadeiro “super-herói”, que embora exagerado e distorcido nos quadrinhos, é sempre baseado em experiências reais de alguém, em alguma época. Seguimos então o tortuoso caminho de Dunn, forçado a encarar esses novos fatos que, à medida que o filme avança, vão tornando-se cada vez mais incontestáveis, enquanto Elijah mergulha de cabeça em sua obsessão. Até o desfecho inesperado e chocante – mas, como em SEXTO SENTIDO, totalmente lógico e plausível.

Há de se tirar o chapéu para Shyamalan, que conseguiu a proeza de injetar sangue novo ao moribundo cinema de entretenimento de Hollywood. Seus dois filmes contam histórias fantásticas (até aí nenhuma novidade) mas de forma extremamente eficiente e refinada, quase artesanal. Seus personagens tem profundidade, não são apenas caricaturas unidimensionais como vemos corriqueiramente em filmes de suspense e terror. E por serem críveis e verossímeis, nos identificamos com eles e nos sensibilizamos com seus dramas – sejam eles ver pessoas mortas ou descobrir que tem “super-poderes”. E tudo isso sem apelar para a violência gratuita (pecado mortal de bombas como GLADIADOR) ou sexo.

Mas não se engane: o objetivo de CORPO FECHADO é somente entreter. É apenas um “filme pipoca”, embora do mais alto nível. Quem sair do cinema tentando encontrar significados escondidos ou algum tipo de mensagem profunda sobre o sentido da vida vai obviamente quebrar a cara. Fará sucesso por causa de SEXTO SENTIDO, mas vai agradar muito mais aos “iniciados”, principalmente os que curtem história em quadrinhos e conhecem a mitologia envolvida nesse universo. Nem pense, portanto, em vê-lo com aquela patricinha que você quer conquistar, pois vai queimar o filme. Afinal, gibi é “coisa de criança”...

Cotação: ****


André Lux
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