CIDADE DE DEUS (Cidade de Deus, Brasil, 2002)
Gênero: Drama
Duração: 130 min.
Estúdio: Lumière
Elenco: Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino da Hora, Seu Jorge, Phellipe Haagensen, Jonathan Haagensen, Matheus Nachtergaele, Douglas Silva
Compositores: Ed Cortês, Antonio Pinto 
Roteiristas: Paulo Lins, Bráulio Mantovani 
Diretor: Fernando Meirelles, Kátia Lund

O Brasil que o Brasil não quer ver

Nunca um filme retratou com tanta precisão o mundo dos "excluídos" , cuja proximidade e violência crescentes nos obrigam a encarar de frente a falência social do país

CIDADE DE DEUS é mais uma prova incontestável do talento e da força que existem no cinema brasileiro, geralmente reconhecido no resto do mundo mas ignorado por aqui. Nunca antes um filme retratou com tanta precisão o mundo dos "excluídos" que, levando-se em conta os dados mais recentes de organizações humanitárias, já chegam a cerca de 60% da população do Brasil. Pessoas sem futuro, sem esperança, totalmente marginalizadas por um sistema que não apenas as isola mas também as reprime e caça como animais.

O filme de Fernando Meirelles realmente merece todos os elogios que vem recebendo. É, antes de mais nada, tecnicamente estupendo, não fica devendo quase nada se comparado aos "blockbusters" hollywoodianos: tem fotografia perfeita, montagem vigorosa e incrivelmente ágil, roteiro não-linear que faria inveja aos Tarantinos da vida e trilha sonora marcante (embora a mixagem do som ainda deixe um pouco a desejar, tornando os diálogos por vezes incompreensíveis). Mas sem dúvida o que mais impressiona é o elenco, composto praticamente por atores amadores, muitos representando papeis certamente bem próximos à realidade deles. Nunca o cinema nacional mostrou com tanta verdade a cultura dos "esquecidos" e o gingado de um povo que, mesmo sofrido, ainda consegue rir e ter prazer. Pela primeira vez podemos ouvir alguém dizendo "Seu filho da puta!" sem parecer estar declamando um poema de Camões. 

Mas o que mais choca e marca em CIDADE DE DEUS é a naturalidade com que os personagens interagem, agindo sempre acima de qualquer moral conhecida pela "sociedade oficial", trancafiada dentro de seus condomínios fechados cada vez mais cercados por altos muros e seguranças armados. Se no filme de Meireles a realidade violenta dos guetos e favelas é chocante, hoje em dia o medo é ainda maior, já que a distância entre esse mundo marginalizado e a nossa "bolha de ilusão" pequeno-burguesa fica cada vez mais estreita. E é exatamente aí que reside a força de CIDADE DE DEUS, ao mostrar com riqueza de detalhes o desenvolvimento da violência e da marginalidade, exatamente de dentro para fora da própria sociedade. Os excluídos estão cada vez mais perto e sua opção pelo crime não é nada mais do que uma mera escolha lógica e plausível, coerente com a realidade de suas vidas. "Se o tráfico fosse considerado como um negócio normal, Zé Pequeno teria sido escolhido o 'homem-do-ano'", afirma Busca-Pé (Alexandre Rodrigues, que é o fio condutor de todo o filme), ao ver o sucesso financeiro do líder das bocas locais.

Sem fazer concessões e mostrando a violência com realismo impressionante (mas sem excesso de sangue ou detalhes sórdidos), CIDADE DE DEUS peca apenas por não ir mais fundo na ferida, lembrando de mostrar a corrupção policial mas "esquecendo" de abordar justamente o elo mais importante nessa ignóbil cadeia de corrupção: o dos verdadeiros donos do pedaço, os grande "empresários" do tráfico cujas conexões fazem chegar a droga dentro das favelas. Talvez por medo de cutucar demais a onça com vara curta (ou por exigência dos próprios traficantes que, caso contrário, não permitiriam as filmagens in loco) temos a impressão que a droga "brota" dentro da favela, sem maiores conseqüências. Esse é, talvez, o único ponto baixo do filme - ou falha, se preferir. Outra reserva pode ser feita também em relação ao início, nos anos 60, que poderia ter sido enxugado, fazendo a ação propriamente dita começar mais cedo.

Mas é pouco para tirar o caráter de importância e pertinência dessa obra, realizada com inacreditável competência e vigor. Alguns críticos acusam o filme de ser "descontextualizado", tratando a favela como um micro-cosmos alheio ao resto da sociedade. Bobagem. É exatamente isso que dá força ao filme: a visão de dentro, vista por quem vive lá. E se nos anos 1970 a favela era realmente algo praticamente deslocado do sistema, hoje ela o invade cada vez mais e com ferocidade crescentes. Ou seja: não tem mais como ignorar os "excluídos". Eles estão aí, na nossa porta. E não estão contentes.

Cotação: *****

André Lux

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