Cine & Música
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Entrevista: ALEXANDRE POLLARA DOS SANTOS

Caros leitores, o primeiro Cine & Música do ano tem a honra de trazer uma entrevista com o jornalista Alexandre Pollara dos Santos. Pollara, 33 anos, formado em jornalismo pela Universidade Bandeirante de São Paulo, habilitado em jornalismo cultural especializado em cinema e vídeo e em Cinema História e Linguagem. Trabalha na Folha de S.Paulo há 17 anos. Escreveu para a Folha da Tarde, jornais do interior e teve experiências no Notícias Populares. Hoje, no Banco de Dados da Folha de S.Paulo, trabalha com pesquisas e arquivos digitais de textos e fotos.

CINE & MÚSICA - Quando foi que o cinema entrou em sua vida?

 ALEXANDRE POLLARA DOS SANTOS - O cinema esteve o tempo todo em minha vida. Desde que começaram a namorar, meus pais  iam muito ao cinema, saíam de uma sala e entravam em outra. Devido a isso eu cresci em um meio cinematográfico. Minha mãe sempre gostou de trilhas sonoras também, e eu por estar envolvido nesse ambiente acabava assistindo muitos filmes em casa, indo ao cinema.

C&M - E nessa sua infância teve algum filme que te marcou? 

POLLARA - Eu sempre classifico por gênero, mas tem filmes que marcam mesmo. Eu lembro que em torno de 1978 assisti  “Invasores de corpos”. É um filme que me marca até hoje por se tratar de uma ficção científica muito forte. Claro que tem aquelas aventuras, por exemplo “Krull”, “Os Goonies”, que fizeram parte da infância. Eu diria que na minha vida eu classifico os filmes de acordo com a minha faixa etária. É a classificação por exemplo de um suspense, as vezes uma comédia, eu lembro de “Porky's”. “Porky's” marcou uma adolescência, o filme trata da descoberta sexual, então são vários filmes que ao longo da vida e do crescimento vão marcando sua idade. 

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C&M - Você comentou que sua mãe sempre gostou de trilha sonora. Você quando novo escutava algum vinil de trilha sonora que sua mãe colocava? Qual foi o seu primeiro contato musical com o cinema? 

POLLARA - Bom, a minha mãe deve ter assistido umas dez... sei lá quantas vezes “A Noviça Rebelde”. Ela tinha disco, fita, enfim, era fã do musical. Ela não só assistiu mais de dez vezes como fazia a gente assistir também. Ela até cantava prá gente. Quando íamos viajar ela punha as músicas, cantava e fazia a gente cantar e acabávamos decorando. Então automaticamente acaba passando essa herança de pai para filho. Até hoje meu pai canta “Edelweiss”. Meu primeiro contato foi de fato com “A Noviça Rebelde”, mas minha mãe também tinha um vinil do filme “Em Algum Lugar do Passado”. E como ela gosta muito dos filmes a gente acabava assistindo e ouvindo por tabela. 

C&M- Você acredita que o cinema pode exercer influências no seu gosto musical? Por exemplo: “Os Goonies” foi um filme que te marcou bastante, e a gente lembra que no filme passa um clipe da...

POLLARA - ... Cindy Lauper. Eu comecei a gostar dela quando eu assisti “Os Goonies”. Eu acredito que se você gosta do filme, automaticamente acaba gostando do cantor ou da cantora, mas por conta justamente do cinema. Então eu acho que há sim uma influência musical. Uma banda, um conjunto, enfim, uma orquestra, que acaba sendo uma identificação. Você gostou do filme, e a trilha por fazer parte desses fragmentos que compõem o cinema, acaba te cativando também. Talvez se eu escutasse um tema isolado sem ter visto o filme, pode ser que até não gostasse, mas a questão do contexto Imagem/Som acaba te envolvendo, e você acaba gostando.

C&M - Você tocou em um ponto agora que é o não tão popular “score”. Onde entram os compositores John Williams, Hans Zimmer, Nino Rota. Quando foi que você abriu mais sua cabeça e começou a procurar o trabalho desses compositores? Ver que existe uma certa parceria diretor/compositor? A perceber – puxa, esse cara compõe muito bem! – Porque o John Williams é um ícone e as pessoas acabam não se ligando nos outros compositores. 

POLLARA  - Até certo ponto, a partir dos cursos que eu comecei a fazer: Um deles, “Cinema, história e linguagem” com o Inácio Araújo, fiz durante 1 ano,  e tive vários conhecimentos nos fragmentos do cinema. Desde a edição, roteiro, plano e contra-plano e toda a parte técnica do filme. E como trilha sonora e composição para um filme faz parte disso, automaticamente me identifiquei. Portanto eu sempre tive um conhecimento, sabia que existia, mas não me atentava tanto. E diria que por influência dos amigos também... tenho um amigo chamado Lucas Vandanezi, conhece? risos... que me mostrou muito material. É como nos cursos. Se você vai no cinema com alguém que direciona o seu olhar, neste caso os ouvidos – olha perceba isso, ouça aqui – você acaba tendo essa visão. Depois que alguém levantou seu olhar para um certo tema, você começa a perceber a cada filme, por conta própria, a trilha sonora, o plano e contra-plano etc. Como eu já disse, tem filmes que marcam. O “Cinema Paradiso” foi um que marcou muito na questão da trilha sonora, e que me fez esse despertar para o Ennio Morricone. Então é a partir de alguns filmes e a partir do momento que fui direcionado a essa área do cinema. 

C&M - Você tem algum compositor favorito? 

POLLARA - Olha, é aquela coisa que eu falo da trilha sonora. Por que a gente gosta de um compositor ou de uma banda? As vezes é pelo fato de ter gostado do filme. Hitchcock é um diretor que eu gosto muito. O jeito como ele trabalha o filme, os storyboards, a seleção de atrizes, e você sabendo como ele trabalha todo o conjunto da obra, todos os detalhes, logicamente você acaba conhecendo a trilha sonora, conhecendo o compositor que é Bernard Hermann, e acaba se identificando e gostando também de seu trabalho. Eu falei que você acaba gostando primeiramente do filme, mas tem uns compositores que se destacam pela maneira de como compor a música sem o filme primeiramente. Escuta somente a trilha sonora. Você vai perceber que a música de repente aponta a história também. Não necessariamente precisa da imagem. E nesse caso me identifico muito também é com John Williams, que é alegre. Você escuta a música e ele te leva automaticamente à fantasia. Claro que Williams está ligado diretamente com Spielberg, mas eu acho que a música dele, mesmo quando a escuto antes mesmo de ver o filme,  já fico imaginando a história. 

C&M - Tudo que é feito em massa, acaba tendo sua qualidade esquecida. Você acha que é possível, assim como os efeitos especiais, a trilha sonora ser composta em massa e não perder a qualidade, como por exemplo o trabalho realizado pela Media Ventures? Você acha que isso é errado, ou que isso é válido? 

POLLARA - Na verdade quando a gente pensa em cinema temos que pensar em dinheiro. Hitchcock enfrentava problemas, porque ele tinha o roteiro e queria fazer da forma que ele acreditava, da forma que ele achava que era legal. Mas na hora que chega na questão financeira, na questão da grana, na questão do investimento, o cara que vai investir não quer nem saber se o roteiro é legal, se vai atender um certo público, ele quer saber do retorno financeiro. Então muitas vezes acontece isso, as vezes é uma trilha sonora para a massa, enfim é um filme como os de hoje em dia, filmes explosivos, filmes para a massa. O público pede. Hoje a grande maioria, os adolescentes querem filmes de explosão. Mas é feito por quê? Porque ele vai ter um retorno. Por isso que existe esse conceito de fazer trilha sonora para a massa. Claro que vai atender de repente a grande maioria porque quer ver, tá pagando e vai ter um retorno para o cinema. Mas eu acho que os compositores tem de pensar também em atender um público mais erudito, que preza e espera por uma coisa mais refinada, mais elaborada para o filme... não que a trilha em massa não seja, mas é feita de repente para um público que espera somente diversão. 

C&M - Como a Cine & Música já destacou no mês de Outubro – Momentos Poéticos. Você tem algum momento poético em trilha sonora que gostaria de destacar?

POLLARA - Como acompanho o ScoreTrack, eu gostei justamente da cena do filme “Estrada para a Perdição” que é um caso excepcional prá mim e bem diferente dos outros filmes de gangsteres e máfia que eu assisti, que é justamente aquilo que você já sabe que vai ver. É imagem de tiro, é som de tiro prá todo o lado. Então aquele momento de “Estrada para a Perdição” é uma poesia, é uma coisa trágica, mas é poético no sentido que ao invés de tiros a trilha sonora toma conta de tal forma, ganhou uma outra conotação, uma outra história ali totalmente poética. Um outro momento do cinema que eu também acho poético é do filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, na hora que o Robin williams (o professor) está colocando a poesia no papel, e coloca Beethoven enquanto ele faz os alunos chutarem as bolas – extravasando – A trilha sonora nesse momento tem uma importância muito forte para mim. No sentido de ter garra, de querer vencer, de conseguir. 

C&M - Ano passado, o Brasil e o mundo passou por um momento complicado. Corrupções, guerras. Se você pudesse escolher um tema musical que resumisse todo o ano de 2005, qual seria ele? 

POLLARA - Eu acredito que o que resume acontecimentos mundiais vamos assim dizer, tanto nos EUA, como em tudo quanto é lugar, um tema que marca e é condizente a todos esses acontecimentos que estão aí é “A Marcha Imperial” de John Williams que toca justamente em Star Wars, e que mostra essa questão do império americano, ou no caso do Brasil, essa coisa do Darth Vather. 

C&M - O que você pensa das trilhas sonoras do cinema nacional? 

POLLARA - Precisam melhorar muito ainda. O cinema nacional está em desenvolvimento, está crescendo, está tendo investimento, o que é muito importante, estão aparecendo novos diretores, novos atores, mas e os compositores? O cinema nacional precisa ousar, colocar novas pessoas compondo. Eles ficam muito direcionados a Caetano Veloso, Gilberto Gil, um certo grupo de músicos. A trilha sonora precisa trazer novas pessoas, conhecer novos trabalhos de composição, arriscar mesmo, conhecer, senão fica muito restrito. Acho que resumindo, o cinema nacional precisa melhorar não só em trilha sonora, mas em roteiro, tecnologia – ousar – acredito que essa seria a palavra.

C&M - Quanto à Academia. Na opinião de Alexandre Pollara dos Santos, quem leva o Oscar® de melhor trilha sonora de 2005? 

POLLARA - É difícil, eu nem sei quem está concorrendo. John Williams está concorrendo de novo? 

C&M - Provavelmente concorrerá com “Munique”. 

POLLARA - ...quando se fala em Academia a gente tem que falar de política. É muito delicado, é complicado, pois estamos falando de política de trilha sonora... 

C&M - E no seu Oscar pessoal, para quem você daria o prêmio? 

POLLARA - Daria o prêmio para John Williams com “Guerra dos Mundos”, pois acho que ele conseguiu até diferenciar, o que é muito importante, os diversos gêneros filmados por Spielberg como “Prenda-me se for Capaz”, “E.T”, “A Lista de Schindler”, enfim, Williams consegue acompanhar os diferentes filmes dele com perfeição. 

C&M - Eu gostaria de agradecer aqui a sua participação na Cine & Música e pedir que você fale um pouco do seu projeto Bibliocine

POLLARA - Risos.. bom, eu que agradeço a oportunidade de divulgar meu trabalho no ScoreTrack. O Bibliocine é um projeto que já está há quase quatro anos em desenvolvimento, em discussão, em trabalho, em coletar o material todo que vai estar na Internet. Trata-se de uma biblioteca de cinema cuja intenção é trabalhar com pesquisas. Por ser jornalista sou um pesquisador e a idéia é disponibilizar, é pesquisar, é trazer as informações precisas para os leitores e para os cinéfilos. Eu acho que é importante você ter um lugar, um site, já que hoje a Internet é uma grande forma de pesquisas. Ter a confiabilidade técnica, trazer informações corretas para os amantes do cinema. Em trilhas sonoras a idéia vai ser trazer a história dos compositores, os discos, uma crítica das obras, os musicais – trazer a história desse fragmento em especial que é a trilha sonora.

Lucas Vandanezi Alexandre Pollara dos Santos
lvandanezi@scoretrack.net alexandrepollara@terra.com.br

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