Cine & Música
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Blazing Magnum

La Gatta in Calore

Sesso Matto

10 de setembro de 2008

BEAT RECORDS E A MÚSICA DO CINEMA ITALIANO DOS ANOS 1970

A gravadora Beat Records vem se consolidando através das décadas como uma das mais importantes de sua área pelo resgate de diversas trilhas sonoras do cinema italiano. Dirigida desde 1968 pelo harmonista Franco de Gemini, ninguém menos do que o Homem da Harmônica de inúmeros filmes italianos (em Era Uma Vez no Oeste é a harmônica de Mr. De Gemini que protagoniza a trilha e dá nome ao personagem de Charles Bronson), a Beat garantiu seu lugar no mercado de CDs com um variado (e crescente) catálogo de trilhas cult, principalmente de faroestes

 

Destacam-se nos lançamentos de 2008 da gravadora, as músicas de Blazing Magnum e Sesso Matto de Armando Trovaioli e La Gatta in Calore de Gianfranco Plenizio. Armando Trovaioli (1917- ) foi um dos mais prolíficos e importantes compositores do cinema italiano. Sua obra é incalculavelmente extensa e variada e está bastante associada às comédias (Dino Risi, Ettore Scola, Totó) que, por décadas, tanto marcaram a produção italiana. Mas Trovaioli teve trabalhos notáveis em outros gêneros como faroestes (Il Lunghi Giorno Della Vendetta), dramas (Perfume de Mulher, Esposamante), aventuras (Hercules no Centro da Terra) e filmes policiais (Manhunt, Blazing Magnum).

 

Depois dos faroestes e dos filmes de suspense (giallos) são os filmes policiais italianos que têm recebido grande atenção do mercado moderno. O gênero poliziotto já se praticava na Itália desde os anos 60. Filmes como I Ragazzi Del Massacro (1969) de Fernando Di Leo e Banditi a Milano (1967) de Carlo Lizzani, empregavam tanto a ação física e violenta quanto a profundidade de um comentário social e humano em seu conteúdo. Enquanto a vertente mais ambiciosa dessa linha de filmes derivou para o cinema político, o gênero poliziotto acabou por se consolidar como puro cinema de ação (principalmente depois do sucesso de filmes americanos como Bullit, Operação França e Dirty Harry). As produções oscilaram em qualidade, mas, invariavelmente, contaram com grandes acompanhamentos musicais.Blazing Magnum (Una Magnum Special per Tony Saitta, 1973), foi um dos casos mais notáveis na questão trilha sonora. Ambientado em Montreal, o filme segue modelos conhecidos: policial duro-na-queda buscando justiça pela morte de alguém muito próximo, no caso, sua irmã, vítima de envenenamento. O ponto fraco do filme é o inexpressivo Stuart Whitman como o policial Tony Saitta, primo pobre de Dirty Harry. Mas a produção e direção, de níveis suficientemente seguros, garantiram um atrativo cult ao filme. Atrativo esse, acentuado pela ótima música de Trovaioli. A trilha está entre as mais notáveis do gênero, com seu jazz refinado e elegante logo na abertura, com a faixa Louise, conduzida por trompete e clima introspectivo. Uma abertura sofisticada para um filme de ação e certamente pensada como forma de acentuar a seqüência que viria em seguida: a perseguição aos assaltantes do banco, com trombadas e a magnum de Tony Saitta falando alto na trilha de som. Praticamente monotemática, as faixas seguintes são variações do tema Tony’s Magnum, novamente com trompete solando, mas com ritmos mais intensos e dinâmica extra nos metais de acompanhamento. Tony’s Back ganha amplitude espacial com o acompanhamento de cordas. Identikit acrescenta alguma variedade temática com seu clima de romantismo psicodélico (efeitos de vocoder e distorções em loop). Alternando nos arranjos, guitarras com efeito, baixo e bateria em swing quase black music, e ocasionais piano elétrico e sintetizador, a trilha se situa como exemplar de sua época: jazz-pop safra anos 70.

 

Dirigida por Dino Risi e estrelada pelos grandes Giancarlo Gianinni e Laura Antonelli (atriz que nunca teve fase ruim: sempre esteve no auge da beleza), Sesso Matto (1973) é uma comédia erótica em episódios, característica do período, e correspondente às pornochanchadas brasileiras da mesma época.Filmes do gênero são um terreno fértil para acompanhamentos musicais e Trovaioli, generosamente criativo, despeja uma profusão admirável de temas musicais e efeitos emocionais distintos. Alguns momentos são vinhetas e piadas sonoras como a aceleração rítmica em Nozze in Ascensore (Núpcias no Elevador) ou a versão “desrespeitosa” de La Gazza Ladra (com bateria e sintetizador). A firmeza melódica e a imbatível simpatia musical desfilam por toda a trilha (edição expandida, mais de 70 min.) em uma seqüência de temas cativantes, desde a tradição folclórica italiana (Mi Fai Impazirre), incluindo, bossa-nova (L’Ospite), easy listening (Signora Sono Le Otto), samba estilizado (Kinky Peanuts), minueto (Una Pesca Tra i Fiori), e momentos muito inspirados como a tocante balada Torna Piccola Mia (para o episódio da prostituta que “faz o papel” da esposa ausente), ou a beleza triste de Un Amore Difficile, que, no episódio da inocente paixão do patso Giannini pelo travesti Gilda, adquire um tom ao mesmo tempo comovente e hilariante. Só os diretores italianos tinham essa receita. A trilha inclui a belíssima canção Vorrei Che Fosse Amore (sucesso de Milva) e não poderiam faltar os momentos francamente sensuais como D’Amore Si Muori, para a vingança de Laura contra o mafioso assassino de seu marido, e a grande faixa tema do filme, Sesso Matto, quase uma fanfarra erótica, com swing rítmico insistente, metais jazzísticos e os vocais (risinhos e gemidos) da sempre perfeita Edda Dell’Orso, cuja voz se tornou o “principal instrumento” em diversas trilhas e filmes.

 

Edda se tornou uma referência tão forte nas trilhas italianas que muitas edições recentes em CD dão amplo (e merecido) destaque a seu nome. Sua presença vocal é tão marcante que engrandeceu qualquer material do qual tenha participado. Mais do que uma vocalista lírica, Edda Dell’Orso é uma verdadeira força da natureza. Na música de La Gatta in Calore, thriller erótico de 1972, sua voz evidencia o elemento humano e romântico em contraste ao ambiente de suspense. Na belíssima Voce D’Amore, a faixa principal, ela exibe (em vocalização sem letra) seu magnífico dote vocal em uma balada exemplar das muitas que a celebrizaram.Composta por Gianfranco Plenizio, nome de menor exposição no mercado de trilhas, La Gatta in Calore difere da média italiana por sua postura melódica menos incisiva que o habitual. Entre o romantismo sensual e a atmosfera gótica, é uma trilha envolvente e de conteúdos musicais contrastantes, o que era quase uma regra nos thrillers italianos. Trilhas como as de La Notte Dei Diavoli(1971), de Giorgio Gaslini e Cosa Avette Fatto a Solange (1972) de Ennio Morricone, (ambas com participação de Edda Dell’Orso) podem ser vistas como modelos que orientaram o gênero ao qual La Gatta in Calore pertence. Além de Voce D’Amore, as faixas Ricordi Di Um Amore e Musica Per Anna acentuam o romantismo em clima introspectivo e evocativo. A atmosfera gótica está presente nos corais sombrios e tímpanos em Réquiem, nas dissonâncias de sopros e cravo em Foul Sin, e na austeridade das cordas (violoncelo e viola) de Acque Morte. As duas vertentes sonoras se encontram na versão final de Voce D’Amore, na qual a doçura romântica convive com espectrais fraseados de violino.

 

Os três CDs aqui comentados, além da importância histórica em seus respectivos gêneros cinematográficos (e musicais), são no mínimo imprescindíveis a fãs de material do período, e mais uma vez, provam que o mercado de trilhas sonoras no cinema italiano é uma inesgotável fonte de gratificantes surpresas.


Blazing Magnum/Uma Magnum Special Per Tony Saitta CDCR 78

Sesso Matto CDCR 72

La Gatta in Calore CDCR 70

 

Beat Records (www.beatrecords.it)

Guilherme De Martino

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