Cine & Música
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12 de março de 2007

ENTREVISTA COM SÉRGIO DE OLIVEIRA

Caros leitores, o Cine&Música tem a grande honra de trazer uma entrevista exclusiva com o advogado,  cinéfilo de carteirinha, "enciclopédia do cinema" e meu amigo pessoal, Sérgio de Oliveira, o Sérgio Paulista. São quase 14.000 filmes assistidos desde 1949, quando sua paixão teve início. Nascido em 20 de agosto de 1936, Sérgio, agora com 70 anos, dedica boa parte do seu dia para a apreciação da Sétima Arte.

ScoreTrack – Como é que começou essa paixão pelo cinema?

Sérgio de Oliveira
– Eu sempre sonhei com viagens. Mas como eu não tinha condições econômicas para viajar, eu viajei através do cinema. Foi assim que eu comecei a me entusiasmar para ver os filmes americanos, franceses, italianos, então eu acabei conhecendo os países através da tela do cinema. 

ST – Você já chegou a me falar pessoalmente e eu também já vi em entrevistas que suas anotações somam 40 volumes de 200 páginas.
Sérgio – É, agora são 41 volumes de 200 páginas, onde eu, manualmente, artesanalmente, anoto todos os filmes que vejo. Eu coloco o cinema (espaço físico), o dia, o filme, os atores principais, uma pequena sinopse e dou uma nota, e ao fim de cada ano escolho os meus melhores, ator, atriz, filme, etc, e vou acumulando isso ano a ano. Tenho inclusive uma estatística em que eu faço “cinemas”. Faço musicais, os melhores roteiros, as melhores montagens, as melhores direções. Então hoje, eu tenho condições de dizer quais foram os dez melhores filmes da minha vida os dez melhores musicais, os dez melhores westerns, os dez melhores policiais e assim por diante.

ST – Seria apenas um hobby?
Sérgio – É um hobby, e mais do que um hobby, uma paixão. E faço desses cadernos praticamente o diário da minha vida. Porque ao lê-los eu revejo toda a minha vida desde garoto, passando por minhas namoradas, o encontro com a minha esposa, os filmes que vi com os meus netos, meus filhos, as viagens que fiz, então não deixa de ser uma história cinematográfica. E eu sou cada vez mais apaixonado.

ST – Quantos filmes você vê por dia?
Sérgio – Hoje eu tenho muito mais tempo do que tinha antes, pois estou praticamente aposentado, então eu tenho condições de ver uma média de dois a três filmes por dia. E eu faço isso com o maior prazer. Vejo de manhã em cabines, à tarde no cinema e à noite sempre em DVD ou na TV a cabo.

ST – Já que você comentou dos melhores,  qual seria o gênero favorito de Sérgio Paulista?
Sérgio – Olha, é muito difícil você estabelecer uma preferência por gênero. Eu acho que o filme acima de tudo tem que ter emoção. Tem que passar um sentimento. Adiante da técnica que eu obviamente respeito, música, montagem, roteiro, direção, eu gosto muito de uma boa história. Quando o filme consegue mexer com o coração. Provoca uma lágrima, raiva, ou amor. Esses filmes mexem mais comigo.  As vezes até filmes considerados medíocres sob o ponto de vista artístico e cinematográfico, podem ser filmes que me toquem muito por mexer com os meus sentimentos.

ST
– Cite um exemplo.
Sérgio
Melodia Imortal foi um filme que mexeu muito comigo. Aquela história bonita do Eddy Durchin com o filho, os dois casamentos, a leucemia. É uma história é muito bonita, como em  Suplicio de uma Saudade, Tarde Demais para Esquecer, são filmes que mexem com a emoção. O que pra mim ainda é o principal no cinema.

ST – E quanto ao cinema nacional?
Sérgio – Tem muita coisa boa. Quase que o Collor consegue destruí-lo, mas, felizmente, ele escapou daquela guilhotina que o Collor apresentou e quase matou o nosso cinema. Acho que, fora os óbvios, tem filmes maravilhosos, inesquecíveis, que eu guardo com muita saudade porque vi no teatro e depois vi no cinema. Eles não usam Black Tie por exemplo, acho um filme muito bem feito. Gosto muito de Central do Brasil, Bye bye Brasil. O cinema brasileiro tem coisas marcantes. Como o filme do Jofre Soares por exemplo, Chuva de Verão.

ST – Qual a grande mudança que você vem notando no cinema, de 1949 pra cá?
Sérgio – A principal, obviamente, são os efeitos visuais, a técnica, o digital. O cinema antigo tratava muito mais da história, da música, do roteiro e do tema. Não se via o que praticamente se vê hoje, efeitos visuais fantásticos, O Senhor dos Anéis, Harry Potter, filmes desse calíbre que deslumbram. Mas a mim, particularmente não toca. Eu prefiro ainda uma boa história do que um filme magnificamente produzido com efeitos visuais, técnicos, etc. Não deixa de ser um progresso , mas no meu gosto cinematográfico, prefiro um filme na linha quadrada, princípio meio e fim, os grandes dramas italianos, os policiais franceses, musicais americanos, até mesmo os velhos filmes da Metro.

ST – Mas existe algo no cinema moderno que te agrada?
Sérgio – Sim, há que se respeitar a evolução. Existe hoje muitas coisas boas. Dentre os cineastas modernos eu admiro demais o Almodóvar. Acho Fale com Ela uma obra prima, gosto muito de Carne Trêmula, de Tudo sobre minha Mãe. Há grandes diretores atuais, mas eu ainda prefiro o velho Alfred Hitchcock, Fellini, Visconti, os grandes diretores franceses, o italiano Dino Risi, enfim, esses são os filmes que eu gosto de ver e rever.

ST – Já que você gosta de um filme com uma boa história, eu vou, aproveitando o gancho de você ser advogado, citar um filme que tem pra mim uma grande história - que é O Advogado dos Cinco Crimes, com Cuba Gooding Jr. O que você achou?
Sérgio – Interessante, você é a segunda ou terceira pessoa que me fala desse filme. Olha, o filme é bem feito inegavelmente, mas existem outros filmes do gênero – aliás quando você perguntou por gênero, talvez seja esse o que eu mais goste – mas existem pelo menos uns cinco ou seis filmes melhores que esse.

ST – Como por exemplo?
Sérgio – Talvez o melhor policial de todos os tempos seja baseado na rainha do gênero Agatha Christie. Testemunha de Acusação, onde o Charles Laughton, um dos maiores atores da história do cinema, dá um verdadeiro show de interpretação fazendo um advogado fantástico. Tyrone Power está muito bem, Marlene Dietrich fantástica, um filme maravilhoso. Outro a ser lembrado é Veredito, com Paul Newman. Uma história policial interessantíssima de julgamento...

ST – Qual seria o melhor filme de julgamento?
Sérgio – O melhor filme de julgamento na verdade foi um filme de Guerra. A primeira versão do Julgamento de Nuremberg, onde são julgados os juízes nazistas pelos crimes cometidos na guerra. Então há coisas espetaculares, como por exemplo o personagem de Burt Lancaster, que faz um juíz e ele se defende das acusações dizendo que ele, ao condenar a morte milhares de judeus, nada mais fazia do que respeitar as leis de seu país que era contra os judeus e respeitar Hitler.

ST – Quanto a premiações, sei que você prefere Cannes, Berlim, e já não gosta tanto da Academia, como a maioria das pessoas mais íntimas do cinema. Nessa última cerimônia do Oscar, o Ennio Morricone recebeu o Prêmio honorário. O que é na sua visão, um compositor como Ennio Morricone, autor de temas como Os Intocáveis, Cinema Paradiso, entre outros, ter de receber um Oscar honorário?
Sérgio – Veja bem, eu, como você mesmo disse, acho dos prêmios mundiais, embora seja inegavelmente o mais famoso, o mais importante entre aspas, acho o Oscar extremamente comercial. O objetivo do Oscar é divulgar o cinema americano, é fazer bilheteria, é criar espaço para coisas que interessam ao público, onde a principal preocupação é ganhar dinheiro. Já os festivais como Cannes, como Veneza, como Berlim, procuram premiar os melhores, os filmes que têm mais qualidades artísticas. Portanto, isso mostra o motivo de o Morricone ter recebido um Oscar honorário.

ST – Agora eu vou pedir que você resuma em poucas palavras alguns diretores que eu vou citar.
Sérgio – Ok.

ST - Giuseppe Tornatore.
Sérgio – Maravilhoso! Fantástico! Acho dos cineastas italianos dos ultimos anos, pois ele já não é tão novo, um dos melhores se não o melhor. Realmente fez coisas espetaculares. Cinema Paradiso é uma obra de arte.

ST – Alfred Hitchcock.
Sérgio – Pra mim o maior de todos os tempos até agora. Acho que Hitchcock teve um grande mérito, ele conseguiu além de fazer o suspense, como nenhum diretor jamais conseguiu imitá-lo, Brian DePalma chegou perto, mas ainda sim, longe dele, um diretor de uma versatilidade fantástica. Um homem que faz Pacto Sinistro, Intríga Internacional e depois faz Os Pássaros, é de um brilho espetacular. Aliás, Os Pássaros, pra mim, é uma obra prima. Fico imaginando como deve ter sido filmado aquilo com aqueles pássaros revoando a cidade, criando um clima de terror, em uma época que os efeitos visuais não eram como são hoje. Acho Hitchcock o grande gênio do cinema.

ST – Truffaut.
Sérgio – Ótimo! Na mesma linha, acho Truffaut excelente, desde Os incompreendidos até toda a sua série quase auto biográfica. Mas o que eu mais gosto de Truffaut é um filme talvez dos menos comentados, mas acho a história espetacular, A mulher do Lado com Fanny Ardant e Gérard Depardieu fazendo um casal que se reencontra depois de algum tempo, com ela casada e com um final trágico. Um filme belíssimo, uma obra prima.

ST – Woody Allen.
Sérgio – Magnífico, fantástico, embora com alguns altos de baixos. Mas acho que é dos grandes diretores americanos, o que eu mais gosto dele é A Rosa Púrpura do Cairo, Hannah e suas Irmãs, e  recentemente o Match Point. Agora, já tem algumas coisas dele que não me agradam muito como aqueles filmes mais antigos. Celebridades por exemplo, é um filme que não me tocou muito, o mesmo com Escorpião de Jade. Mas ele é um grande diretor, talentosíssimo, inteligente.

ST – Kubrick.
Sérgio2001 por si só já analisa tudo. Acho um diretor genial, inteligente, tem grandes méritos.

ST – E para encerrar, Spielberg, um ícone de Hollywood.
Sérgio – Veja bem, o Spielberg ele realmente foi um revolucionário. Teve filmes de grande porte, mas o que mais me impressionou foi um filme menor, mas que já trazia uma genialidade fantástica, Encurralado, em que o filme mostra a perseguição de um automóvel na estrada, onde não se vê o motorista que o persegue, um filme interessantíssimo, uma história bonita. E foi um filme pouco falado dele, mas eu adorei. Gosto muito de Tubarão, E.T é um filme criativo, e depois, tudo mais que ele fez, acho Spielberg, dos novos, um talento fantástico, porém hoje ele está mais voltado para a produção do que para a direção, mas eu ainda prefiro diretores com menos pretenções visuais e mais voltados para a criatividade e genialidade.

ST – Qual a sua visão de atores que acabam se arriscando na direção, como o recente exemplo de George Clooney?
Sérgio – Clint Eastwood! Eu acho que o Eastwood acabou sendo melhor diretor do que ator, embora tenha sido um excelente ator, ele teve uma fase dos westerns muito boa, mas acho que os últimos filmes dele revelam que ele tinha um talento muito além. Menina de Ouro é um filme muito bem feito, uma história bonita, sensível. Acho que os dois filmes deste ano, Cartas de Iwo Jima e A Conquista da Honra, são filmes interessantes. Acho que o Clint Eastwood é uma demonstração muito grande de que um ator pode vir a ser um excelente diretor, ele seja talvez o melhor exemplo disso. Já o Clooney não me empolga muito. Achei Boa Noite e Boa Sorte um filme apenas razoável,  não acho que tenha todo aquele mérito para ser inclusive candidato ao Oscar. 

ST – O Scorsese foi finalmente reconhecido pela Academia. Será que esse era o filme que deveria premiá-lo?
Sérgio – Com certeza não! Embora Os Infiltrados seja um filme bom, eu acho que o Scorsese fez coisas muito melhores. Os Bons Companheiros foi o melhor filme dele. Gosto muito de Touro Indomável, acho que o Scorsese já estava merecendo um prêmio, aliás, esse é um outro defeito do Oscar. O Oscar, muitas vezes para premiar um diretor ao invés de premiar aquilo que ele fez de melhor, premia um filme menor para compensar aqueles que ele deixou de dar. O melhor exemplo disso foi com Jane Fonda, que tendo feito um filme maravilhoso como Julia, acabou ganhando com um filme medíocre, Klute, um policialzinho de terceira categoria.

ST – É! Voltando em 1976, o Taxi Driver de Scorsese perdeu para Rocky, um Lutador.
Sérgio – Com certeza, embora, veja bem, aí vocês vão talvez me criticar. Mas eu acho que o primeiro Rocky foi muito bom, o Stallone conseguiu passar uma imagem de um pugilista meio abobalhado, um homem que vence pela força sendo de um crânio pequenininho. Eu achei o filme Rocky, um Lutador, um filme interessante, até mesmo merecedor do Oscar. É claro que não é um grande filme, não é espetacular, mas pra mim, na época, foi uma surpresa. Eu gostei muito do primeiro Rocky. Acho que depois do primeiro o melhor foi esse Rocky Balboa, o último. Não gosto dos outros, mas  Rocky, um Lutador e Rocky Balboa eu achei interessantes.

ST – Você já foi criticado por dizer isso?
Sérgio – Isso não, mas o pessoal me critica muito com relação àquele que é considerado a maior injustiça do cinema. Todos dizem que em 1941 o Oscar de melhor filme deveria ter sido ganho por Cidadão Kane, quando eu, acredito que seja um dos poucos, achei justo o prêmio ir para o filme Como era Verde o meu Vale. O filme é lindíssimo e muito mais interessante que Cidadão Kane, que não deixa de ser uma grande obra.

ST – (risos) é...bem polêmico mesmo. Agora para finalizar eu queria saber: quando Sérgio Paulista, a enciclopédia do cinema, partir para outro plano, quem ele gostaria de encontrar lá em cima, qual ator?
Sérgio – É difícil, eu preferia encontrar atrizes (risos), eu gosto mais de mulher do que de homem. Eu tive muitas divas no cinema. Eu sempre gostei muito de mulheres bonitas... bem eu gosto até hoje (risos). Acho que há atrizes fantásticas e lindas, talvez, Ava Gardner, tenha sido a atriz mais bonita da história do cinema. Eu acho que a beleza da mulher quando ela se torna uma diva do cinema, é impecável. Sarita Montiel, uma das mulheres mais lindas que eu já conheci, Claudia Cardinale, Vana Mangano, Eleanor Parker, Grace Kelly, são atrizes que além de talentosas, são belíssimas. E uma das coisas bonitas de se ver no cinema é uma mulher bonita, como na vida real não é? Quando a gente anda pela rua e vê uma mulher bonita é sempre um colírio. No cinema muitas vezes o filme é ruim, mas a mulher é tão bonita que você acaba gostando do filme.

ST – O grupo ScoreTrack Network gostaria de agradecer a entrevista e todo o conhecimento que você, enciclopédia do cinema, pôde nos passar.

Sérgio – Lucas, eu respeito muito você. Apesar de jovem, você, dos companheiros de cabine que eu fiquei conhecendo, é um dos que eu mais admiro e respeito, não só pela sua inteligência, mas também pela sua simpatia. Então eu que agradeço a oportunidade dessa entrevista e estarei sempre à sua disposição.

Lucas Vandanezi
Lvandanezi@scoretrack.net

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