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Tarso, Morricone e Fernando |
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Tarso e Susanna Rigacci |
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Tarso e Gilda Buttà |
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Com o chapa "manager" |
03 de junho de 2007
MÚSICA EM CENA: ENCONTRO COM IL MAESTRO
Em 1994, aos 14 anos, conheci a música de
Ennio Morricone. Foi um
assombro! Aqueles assobios, o coro forte das vozes masculinas e o som dos
instrumentos inusitados me tomaram de assalto. Era Uma Vez no Oeste foi
a primeira de muitas partituras que me fizeram chorar. Depois conheci
Cinema Paradiso e a dramática e romântica trilha de Era Uma Vez na
América. Aos poucos fui me interando da obra de Morricone, e hoje posso
dizer que sou um grande conhecedor de sua música. Não só da música para
cinema, mas também de sua música de concerto e de suas composições e seus
arranjos para cantores populares de todo o mundo.
Como toco piano, comecei a transcrever suas músicas e as incorporei em meu
repertório. O público que me ouve tocar sempre vai ouvir Ennio Morricone. Hoje
tenho um grande arquivo de partituras transcritas por mim (até porque é bem
difícil encontrá-las no Brasil). Falei um pouco sobre mim para dar a dimensão
da importância que a música de Ennio Morricone tem em minha vida. E para que
seja compreendido o quão emocionante foi estar com Il Maestro.
Em 14 de maio de 2005, tive o que até então seria a maior emoção da minha vida
musical. Assisti ao concerto de Morricone em Florença. Lá conheci uma pessoa
que viria a se tornar um amigo: o flautista Paolo Zampini, que participou da
gravação de muitas trilhas como Secret of the Sahara, City of Joy,
Ninfa Plebea e Bugsy, me recebeu na porta do Mandela Forum.
Naquele dia tentei chegar ao camarim, mas não consegui. Guardei a emoção
daquele concerto como se fosse o único, mas ainda acreditava que um dia
poderia falar com o mestre. Quando soube do concerto de Morricone no Rio de
Janeiro, que abriria o
MÚSICA EM CENA - 1º Encontro
Internacional da música de Cinema,
achei que seria a minha oportunidade e que através de meu amigo falaria com o
maestro. Mas Zampini me disse que não viria, então percebi que não seria uma
tarefa fácil. No dia 5 de maio de 2007 cheguei ao Rio de Janeiro vindo de
Vitória, ES. Um grande amigo meu voou de São Paulo para o Rio para nos
encontrarmos lá e assistirmos ao concerto juntos. Com ele vieram mais um amigo
e sua família, e nos transformamos em um grupo de seis pessoas, todos fãs do
compositor.
Às 14h, Fernando Polaco, um dos maiores colecionadores de trilhas sonoras do
cinema europeu no Brasil, foi ao Theatro Municipal do Rio para tentar entrar
no ensaio do concerto que seria às 21:30h, enquanto eu e a turma fomos ao
Hotel onde supostamente ele estaria hospedado. Não obtivemos sucesso. Mas essa
seria apenas a primeira tentativa. No teatro, Fernando recebeu o conselho para
voltar às 19h. E foi o que fizemos. Chegamos pontualmente e fomos para os
fundos do teatro. Um rapaz nos recebeu e nos disse que não seria possível
falar com o maestro naquele momento. Não satisfeitos, voltamos ao mesmo lugar
meia hora depois. Fernando tinha levado uma camisa do Santos Futebol Clube
para presentear Morricone com uma lembrança de nossa cidade e então, com esse
pretexto, chamamos novamente uma pessoa responsável que pudesse nos ajudar.
Mas desta vez aconteceu o inesperado. Desceu um rapaz careca e muito
simpático, falando em italiano e se dizendo seu “manager”. Ele nos recebeu
muito bem e nos disse que após o concerto teria uma fila de cumprimentos. Não
acreditamos, mas voltamos para a longa fila que já se formava na porta do
Municipal.
Assistimos ao concerto na galeria, e foi fantástico. O público o aplaudiu de
pé por 15 minutos e ele foi obrigado a fazer três bis. A Orquestra Petrobras
Sinfônica se mostrou à altura da importância do evento e interpretou muito bem
seu repertório. Mas nós não estávamos satisfeitos e não iríamos desistir do
encontro. Enquanto a orquestra tocava o último bis, levantamo-nos e fomos para
a porta do camarim. Um segurança disse: “Daqui eu não saio!”. E foi então que
a porta se abriu e surgiu aquele italiano careca e simpático. Ele nos viu e
disse: “Aspetta che io ti chiamo”, e em dois minutos ele voltou: “Due, due”
disse olhando para nós. Era a nossa vez! Com o sorriso no rosto, entramos e
logo à nossa direita, em seu camarim, estava Ennio Morricone. Quanta emoção!
Entramos e fomos logo cumprimentá-lo. Ficamos a sós com ele e com sua esposa
Maria em seu camarim, por uns 5 minutos. Fernando lhe deu a camisa do Santos e
ele se mostrou surpreso e contente com o presente. E eu olhei pra ele e disse:
“Você é o maior compositor do mundo. O maior de todos os tempos”. Ele me
olhou, me deu um sorriso e timidamente me respondeu: “Grazie” e apertou minha
mão. Quanta humildade! Quanta simpatia! Quanta genialidade!
Eu e Fernando aproveitamos a credencial para falarmos ainda com Gilda Buttà,
pianista virtuose que admiro há algum tempo, e com a grande soprano Susanna
Rigacci, dona de uma das vozes mais belas do mundo. As duas nos receberam
muito bem e pudemos conversar bastante. Ambas consideraram o concerto
maravilhoso, belíssimo. E pareciam surpresas com o carinho do público
brasileiro.
Este dia ficará marcado não só na minha vida ou na de Fernando, mas na
história da música no Brasil, pois enquanto grandes maestros da atualidade
regem orquestras pelo mundo afora com um repertório erudito que inclui
Beethoven, Mozart ou Bach, Ennio Morricone viaja o mundo regendo a sua própria
obra, que em minha opinião pode se comparar à dos grandes compositores de
todos os tempos. E por este motivo o concerto do dia 5 de maio só terá sua
importância dimensionada daqui a alguns anos.
Texto e Fotos:
Tarso Ramos |