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21 de abril de 2009

Erudito ou Pop? Bravo, Muhly!

Música Clássica 1. Música “séria”, por oposição à música popular, música folclórica, música ligeira ou de jazz. Dicionário de Música ZAHAR.

São nesses termos que se define “música clássica” ou “erudita” nos dicionários. E podem pesquisar mais a fundo, vocês verificarão que não há uma definição objetiva e definitiva sobre o termo.

Na verdade isto ocorre porque essa distinção é apenas um preconceito, ou uma maneira de se colocar em uma posição de superioridade. Existe sim - e muita - diferença entre os diversos estilos de composição musical, mas essas diferenças não chegam a dividir a música ao meio. Assim como existem filmes de arte e filmes de entretenimento; literatura portuguesa e gibis; quadros de arte e quadros simplesmente decorativos; existem também a música intelectualizada e a música para entreter, sem nenhuma intenção de expressar uma idéia mais profunda, filosófica. E a música deveria ser chamada apenas: música!

Bem, mas o que me motivou a escrever esse texto foi a indicação de um grande amigo meu, Arthur Henrique, de Santos, como eu, que me enviou um e-mail sugerindo que pesquisasse a música de um tal Nico Muhly. Sem muito entusiasmo entrei no MySpace e escrevi seu nome. Quando a primeira música, Mothertongue começou a soar em meus monitores de áudio fiquei de boca aberta! Meu último choque musical havia ocorrido quando ouvi pela primeira vez o som de Gilberto Mendes, tardiamente em 2006.

Muhly consegue percorrer um caminho híbrido; sua música é a consequência de experimentos e transformações iniciadas com Debussy e seguidas por Stravinsky, Schoenberg e a Escola de Viena, Charles Ives, Erik Satie, John Cage, Stockhausen e o próprio Gilberto Mendes. Muhly realiza um belo trabalho com a voz, sobrepondo-as ora de maneira organizada, ora aleatoriamente. Sua instrumentação é uma mistura de instrumentos tradicionais como cordas, oboé, trombone-baixo e elementos modernos como samplers. Sons gravados ao melhor estilo da música concreta são adicionados à composição criando uma espécie de colagem e trazendo à tona uma atmosfera única. Nico Muhly é a cara da música de hoje, sem rótulos.

E por que ele está fazendo tanto sucesso no meio pop, já que música “erudita” é para poucos, para iniciados. Simplesmente porque ele é o que o músico de hoje deve ser: multimídia. Quando uso essa expressão é para dizer que o compositor contemporâneo deve estar conectado à internet, à TV a cabo, aos acontecimentos do século XXI. Não cabe mais aos músicos de nosso tempo aquela cara fechada, séria e esnobe, dentro de uma sala de concertos extremamente silenciosa com pessoas vestidas “à caráter” e se auto-intitulando “nata da sociedade”. Em 2009, quando quero saber de algo que me interessa basta eu entrar no Google, na Wikipedia, enviar um e-mail para alguém que conheça sobre o assunto, fazer downloads de artigos em PDF ou de músicas em MP3. Pronto! Agora também sou profundo conhecedor do assunto! Ninguém mais detém o poder da informação.

Nico Muhly, embora alguns (ou muitos) discordem dessa afirmação, já revolucionou a história da música. Explico. Quando ouvimos sua música, ela nos arrebata de imediato ou por nos agradar ou por nos surpreender com tamanha inventividade e originalidade. A música nova do século XX foi revolucionária, mas não agradou ao grande público. Não agradou, em alguns casos, nem aos próprios músicos. Era uma música que para ouvir se fazia necessária a compreensão dos motivos que levaram o compositor a compor tal “estranheza”. Quem não conhecesse a história da música a fundo, não se identificaria com aquela música jamais! Mas com a música de Muhly é diferente. O ouvinte não precisa conhecer Bach, Beethoven e Mozart para entendê-la. Ela se comunica de imediato, embora seja o resultado das experiências de todos esses grandes mestres. Não bastasse tudo que foi dito, ele ainda empresta seu enorme talento ao cinema compondo trilhas igualmente inventivas. Eu gostaria de ler uma crítica dos tradicionalistas, que consideram a música de cinema uma arte menor, tendo que engolir um compositor reconhecidamente “erudito” - como tantos outros que já houveram – fazendo grandes trilhas.

Outro fator importantíssimo na figura de Nico Muhly é que ele se comunica com o público jovem, pois se veste como tal, se apresenta como tal. Isto faz com que ocorra um fenômeno de mão dupla: abre novamente à música intelectualizada um espaço na mídia e também abre as portas das salas de concerto a um público renovado. Bravo, Muhly!

Tarso Ramos
www.myspace.com/ramostarso

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