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28 de fevereiro de 2009
Música a
Mano Armata
Assim como houve o Spaguetti-Western na década
de 1960, o Poliziotto (cinema policial à italiana) foi um dos gêneros
mais populares na década seguinte, junto aos thrillers (giallos).
Foram decorrentes do sucesso dos filmes policiais americanos como Operação
França ou Dirty Harry. O cinema italiano já tinha seus filmes
policiais antes dos modelos de sucesso americanos, mas foram as fórmulas bem
sucedidas nos sucessos americanos que orientaram o poliziotto em sua
franca intenção a um cinema de apelo popular: geralmente era o policial
duro-na-queda em conflito com o crime organizado em filmes de narrativas
apimentadas por uma abusada dose de violência e perseguições automobilísticas
insanas. Mas também é interessante notar que, mesmo orientados ao mercado e ao
consumo popular, os filmes do gênero sempre se mantiveram acima da média em
diversos aspectos técnicos e narrativos.
Seria inevitável que o natural apelo sensacionalista
do gênero fosse explorado como grande chamariz pelos diretores italianos em uma
época em que ainda não haviam sido inventadas restritivas posturas politicamente
corretas. Assim, o gênero se consolidou com sua violência desmedida, o realismo
“cafajeste” de suas tramas e o dinamismo das narrativas tecnicamente bem
cuidadas. Assim como os faroestes, o poliziotto estabilizou uma indústria
paralela que projetou a carreira de muitos atores como Maurizio Merli, Luc
Merenda, Fabio Testi, Mario Adorf e Henry Silva, além de ter contado com nomes
já conhecidos como Franco Nero, Enrico Maria Salerno e Tomas Milian. Também foi
o momento de destaque de diretores como Umberto Lenzi, Fernando Di Leo, Enzo
Castellari e Mario Caiano e compositores como Stelvio Cipriani, Franco Micalizzi,
e os irmãos Guido & Maurizio de Angelis.
Da mesma forma que houve a revalorização das trilhas
sonoras dos spaguetti-western e giallos, chegou a vez dos
poliziotto serem editados incansavelmente no mercado de CDs atual em um
processo consequente (talvez paralelo) ao reconhecimento dos filmes no mercado
de DVDs. Muitas dessas trilhas eram relíquias inéditas desde os tempos do vinil.
La
Polizia Incrimina La Legge Assolve (1973), um dos melhores do gênero e
praticamente o filme que serviu de modelo às produções posteriores. Estrelado
por Franco Nero no papel do Comissário Belli e o veterano ator americano (outra
regra nas produções italianas do período) James Whitmore (da série de TV
Hospitaloco), o filme estabeleceu padrões como o naturalismo das filmagens
nas ruas (herança neo-realista) e a acentuada violência: a explosão do carro e
dos corpos na abertura é impressionante. Musicalmente também estabeleceu padrões
como o uso das repetições temáticas para concentração dramática e acentuação da
obstinação do protagonista. O filme abre com pontuações de baixo elétrico e a
flauta de Guido de Angelis em clima de expectativa e construção progressiva (a
faixa La Storia Comincia). A implacável perseguição que segue à abertura
fez do energético rock Gangster Story quase que um hit do
gênero tendo sido aproveitado em outras produções e sempre em momentos de
perseguição automobilística (como em Roma Violenta e Milano Spara,
a seguir). A trilha ganha variedade musical nas belas versões do tema principal
em La Figlia di Belli e To the Sea, um momento de leveza á beira
mar, mas com um acompanhamento musical estranhamente distante e melancólico (é o
último momento em que o comissário e a filha estão juntos).
Roma
Violenta (1976) foi um dos grandes momentos do ator Maurizio Merli, herdando
o personagem Comissário Belli de Franco Nero em Polizia Incrimina La Legge
Assolve. Por isso a trilha, novamente dos irmãos De Angelis, é quase um
remake musical de Polizia Incrimina cuja semelhança entre os temas
principais (dedilhados na guitarra de Maurizio De Angelis) é natural e
justificável. Roma Violenta também oscila entre as referências
rock/pop/jazz nos instrumentais introspectivos de The Reason of a Just
War e suas diversas versões. Abre com o clima soul de The Other
Face (que também conta com o grande trabalho jazzístico da flauta de Guido)
e repete em versão estendida (6 minutos) o tema Gangster Story para a
seqüência de perseguição automobilística pelas ruas e viadutos. Uma das mais
longas e bem feitas do cinema e com o próprio Maurizio Merli participando
ativamente da ação. Destacam-se em outros bons momentos, a ação de Sliding
Crime e temas para source music como o blues
eletrificado de Chicca e o romantismo bossa nova de Casa di Moda.
Il
Grande Racket (The Big Racket, 1975) foi uma das mais ousadas e radicais
trilhas dos irmãos De Angelis e tem um forte paralelo com as experiências do
rock progressivo e jazz rock do período. Muito da claustrofobia
barra-pesada do filme se deve à trilha rítmica e distorções sonoras da guitarra.
É uma das melhores dos irmãos de Angelis e do gênero, assim como o filme, que é
um dos mais notáveis e violentos poliziottos da história. Protagonizado
por Fabio Testi, que como Jean Paul Belmondo, Burt Lancaster ou Steve McQueen,
fez diversas cenas de perigo sem dublê em sua carreira. Il Grande Racket
tem uma seqüência realmente impressionante com Testi, dentro de seu carro,
rolando morro abaixo. A seqüência foi filmada dentro do veículo em close no
ator! Diferenciando-se de outras trilhas que deram espaço a introspecção e a
emotividade, Il Grande Racket se entrega à ação física como sustento às
ações da gangue de marginais que extorquem comerciantes em troca de “proteção”.
A atmosfera gráfica e sonora do filme impressiona logo na abertura com a
seqüência de vandalismo nos estabelecimentos, na qual quase não há sonoplastia,
apenas a violência das destruições, a fotografia em alto contraste e a
intensidade musical. Praticamente monotemática, mas rica de variações, a trilha
está repleta de momentos que exploram a abstração e a dissonância, tendo como
base, material sonoro do tema principal. O conjunto resulta em um “beco sem
saída musical”. Sufocante e destacável como um dos mais notáveis acompanhamentos
sonoros do gênero. A trilha faz parte de um excelente CD triplo da gravadora
Digitmovies (comemorativo como o centésimo de seu catálogo), especializada em
históricas trilhas cult do cinema italiano. Integram o pacote, as músicas
de La Mano Spietata Della Legge (1973), de Stelvio Cipriani, e L´Uomo
Della Strada Fa Giustizia (1975), de Bruno Nicolai. A primeira é riquíssima
em arranjos para grupos e solos. Per Amore, por exemplo, é executada em
versões solo para flauta, violão e piano acústico enquanto que Attesa
Dramatica alterna passagens de violoncelo, baixo elétrico e cravo. Outros
destaques são Relax in the Swimming Pool (balanço com cravo e órgão
hammond em eco) e a aceleração rítmica de Violenza (exemplar no gênero
crime-jazz). L´Uomo Della Strada Fa Giustizia destaca o jazz
como linguagem. As pesadas linhas de piano do tema principal deixam evidente a
inspiração e vigor da trilha. Inspiração que se estende a elaborações técnicas
como a percussão que oscila no estéreo em Pedinamento Ostinato ou ao
contraste do romantismo em clima de “caixinha de música” de Um Uomo
Innamorato.
Napoli
Spara (Weapons of Death,1977), é um poliziotto menor no gênero, mas
um honroso exemplar classe B. Além da trilha, o CD traz uma simpática entrevista
como o diretor Mario Caiano que revela a assumida simplicidade e despretensão da
produção. Como conta o diretor, muitos filmes do gênero foram feitos para o
mercado interno (italiano) e hoje acabaram reverenciados internacionalmente como
cult, seja por seu elenco, pela carreira do diretor ou (o que é muito
freqüente) por sua música. A trilha de Francesco De Masi em Napoli Spara
segue tradição jazzística quase big band como já se ouve na abertura,
Violent Life (marcação rítmica em pratos e melodia em trombone). Na
sequência, acrescenta elementos modernos (guitarras, baixo elétrico, órgão). A
trama aproveita personagens conhecidos (o garoto Gennarino, de Napoli
Violenta e o comissário Belli) e a trilha repete a ótima Gangster Story
novamente em um momento de perseguição.
Também
merecedor de destaque na revalorização do cinema policial italiano é a coletânea
La Polizia Chiede Aiuto do selo alemão Chris´ Soundtrack Corner, contendo
música de três filmes: La Polizia Sta a Guardare (1973), La Polizia
Chiede Aiuto (1974) e La Polizia Ha Le Mani Legate (1975). Todas de
Stelvio Cipriani, compositor bastante ligado ao cinema popular italiano. Seu
maior sucesso foi a trilha de Anonimo Veneziano (1970). Por suas
semelhanças, as obras aqui selecionadas formam quase que uma trilogia temática
(em termos musicais) na obra do compositor. Os temas utilizam material em efeito
circular e repetitivo para acentuar as tramas investigativas que beiravam
pesadelos insolúveis. La Polizia Sta a Guardadre se aproxima do cinema
político italiano (muito forte no período) por sua postura “séria” (menos
tiroteio e pancadaria que a média dos outros filmes policiais) e pelo
questionamento das ações de um implacável comissário (Enrico Maria Salerno). A
repetição sonora (conduzida em cravo) é quase “rabugenta” de tão insistente.
Reflete a obstinação do comissário que não mede esforços (lícitos ou ilícitos)
para combater o crime. O conteúdo musical é muito próximo ao de La Polizia Ha
Le Mani Legate, que também segue a mesma estrutura (base de cravo e
variações temáticas). La Polizia Chiede Aiuto,
também conhecido como What Have They Done to Our Daughters?
(título derivado de suspense What Have They Done to Solange?, do mesmo
diretor, Massimo Dallamano), tentou uma aproximação sonora com o giallo
(violinos góticos, corais femininos em staccato e morbidez melancólica ao
piano). A variedade sonora do CD é garantida pela inclusão de alguns belíssimos
temas source (que no filme provinham de fonte natural – rádio ou música
ambiente) como Papaya, Pandora e Turning Point, temas
easy listening exemplares (pop românticos e bossa nova) que dão um atraente
sabor de época à coletânea.
Fica claro a cada filme revisto e a cada trilha
relançada que poucos mercados oferecem o que o cinema italiano tem a oferecer.
De Michelangelo Antonioni a Gloria Guida o cinema italiano precisa ser conhecido
e saboreado sem reservas.
La
Polizia Incrimina, La Legge Assolve
Beat Records CDCR 65
Roma Violenta
Beat Records CDCR 69
Il Grande Racket
La Mano
Spietata Della Legge
L´Uomo
Della Strada Fa Giustizia
Digitmovies CDDM 100
Napoli Spara
Beat Records CDCR 83
La
Polizia Sta a Guardare
La
Polizia Chiede Aiuto
La
Polizia Ha Le Mani Legate
Chris´ Soundtrack
Corner CSC 002
Guilherme De Martino |