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Tarso rege

16 de julho de 2008

O Regente e os Falsos Gestos
por Tarso Ramos

Peço licença para comentar aqui uma experiência que tive há menos de um mês e que me motivou a escrever este texto. Fui ao ensaio da Orquestra Sinfônica de Heliópolis (do Instituto Baccarelli) e recebi uma aula de regência gratuita. O Sr. Roberto Tibiriçá assistia ao ensaio ao lado do regente daquele dia e não se continha, dando “pitadas” na interpretação da orquestra. Enquanto o ensaio acontecia, ele reparava em toda a orquestra, em todos os naipes. E gritava incomodado. No segundo tempo do ensaio, ele assumiu a orquestra. Foi um choque! Palavras dele: “Brahms”! E a orquestra em silêncio se preparou. O maestro Tibiriçá dispensou a partitura que lhe foi oferecida assim como a batuta, e com tudo na cabeça, extraiu um som da orquestra só com gestos que mudaram todo o seu colorido e sua interpretação. Ouso dizer que até a afinação melhorou! Depois disso falou: “Carlos Gomes”! E foi outra aula sem partitura de “O Guarani”. Citei este exemplo porque a todo instante ele foi discreto mas seguro, e isso mudou o som de todos os naipes.

A importância de um regente está em conduzir a orquestra de maneira segura. Passando essa segurança aos músicos. Desta forma ele mantém a orquestra nas mãos e consegue dar sua interpretação à música. Tenho visto ao longo dos anos uma enormidade de maestros exibicionistas. Gestos bruscos, jogadas de cabelo, e espera de aplausos ao final. Será que a orquestra precisa mesmo de tudo isto para soar bem?  Os músicos precisam sim de incentivo a todo momento, pois do contrário, a música perde o “brilho”, a vitalidade. O maestro à frente, mantendo a atenção dos músicos nele, relembrando a todo instante como deve ser a interpretação de cada frase musical, de cada trecho, indicando a entrada de cada instrumentista e o momento certo de silenciar é essencial para uma boa apresentação. Mas não devemos colocá-lo à frente dos músicos em importância. Pois, cabe a eles a parte mais difícil: tocar! Os aplausos ao final são primeiramente para eles, que se dedicam oito, dez horas por dia em busca da perfeição. Ao maestro cabe o reconhecimento de ensaios bem feitos, que permitiram que a orquestra chegasse àquele nível. Cabem também aplausos, por ter conduzido a orquestra de maneira segura. Mas não cabe a ele o papel principal.

Quero destacar aqui que o maestro é sim importante, pois sem ele, seria difícil cento e cinqüenta músicos tocarem no mesmo andamento, interpretarem de maneira uniforme, lembrarem onde são suas entradas (em música erudita pode-se chegar a centenas de compassos de pausa). Por isso, centralizar a atenção em um é de extrema necessidade. Mas não é preciso exibicionismos, que enganam os leigos e arrancam risos dos músicos. Estes têm suas opiniões sobre os maestros. Eles têm suas preferências e gostam daquele que consegue expressar com firmeza o que quer e tirar do músico seu máximo no que se refere à dinâmica, expressão. Mas têm conhecimento suficiente para tocar à sua maneira. Se o maestro parar, a orquestra pode continuar sozinha. Embora insegura.

A regência orquestral é uma arte para o grande público, de difícil compreensão e cativante pelo fato de que o maestro é o líder. É quase um mito. É um mito! E as salas de concerto ficam cheias porque mitos atraem o interesse das pessoas. Quanto mais gestos incompreensíveis; quanto mais sacudir de braços; quanto mais “cara de artista” o regente fizer, mais emotiva fica a platéia, que ao final, se rende e o aplaude fervorosamente. Os músicos de orquestra sabem disso e são obrigados a escalar maestros para suas temporadas que chamam público e imprensa, pois, do contrário, os teatros ficariam vazios. Creio que são poucos os que sairiam de casa para ouvir uma orquestra. A maioria vai para ver o maestro.

É claro que falo aqui sobre maestros intérpretes. Quando se trata de compositores a coisa muda de figura. Neste caso, a estrela maior é realmente o maestro, pois é dele a obra interpretada. É por causa de sua música, seu estudo profundo e exaustivo para construir algo interessante que todos estão ali. John Williams, Ennio Morricone, Nicola Piovani, Alan Silvestri, Howard Shore, Stefano Mainetti e tantos outros compositores regentes, sobem ao palco na condição de mestres. E dão a interpretação exata para suas obras. Sem interferência de terceiros. Então, os aplausos são sim para eles. E é interessante reparar e comparar como eles são discretos em relação aos renomados maestros que temos por aí. Com exceção de alguns como John Neschling, Roberto Minczuk, Julio Medaglia e outros poucos, que colocam a música em primeiro lugar, a maioria se utiliza da música para a satisfação de seu ego. Eles querem ser campeões! Deveriam estar nas Olimpíadas e não em uma sala de concerto à frente de uma orquestra sinfônica. Afinal, palco não é lugar de competição, mas de união. Todos têm que torcer por todos.

É verdade que alguns compositores não têm a mesma técnica apurada em regência como os grandes maestros que se dedicam exclusivamente a isto. Porém, conseguem passar suas idéias aos músicos nos ensaios e dão a sua interpretação à obra de sua autoria. Ganham o respeito da orquestra pelo conhecimento musical que têm e a conduzem de maneira séria e discreta. Sem precisar de falsos gestos.

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