Cloverfield: "ROAR!"
Por Renan Fersy

Poucos filmes despertaram tanto meu interesse em ir ao cinema quanto Cloverfield - Monstro. Quando li a sinopse do filme eu já sabia que seria uma obra-prima, e apesar de algumas críticas negativas eu não mudei de opinião. O tema “Monstro Gigante Ataca Grande Metróple” não é nenhuma novidade, mas há sim uma certa originalidade em Cloverfield. Os filmes japoneses de Godzilla conquistaram platéias do mundo todo ao longo de algumas décadas. O sucesso foi tanto que, nos EUA, resolveram fazer em 1998 um remake ao melhor estilo blockbuster americano. E, obviamente, o cenário principal foi Nova York. Dez anos depois temos uma produção similar, mas com notáveis diferenças em relação ao filme dirigido por Roland Emmerich - para começar, temos um novo monstro. O que o diretor Matt Reeves quis fazer em Cloverfield foi valorizar a identidade americana. Ele diz que o Godzilla é uma criação japonesa, e então pensou que seria legal se os EUA tivessem seu próprio monstro, com um conceito visual todo diferente. Outro aspecto é que o filme seria ao melhor estilo Bruxa de Blair, gravado por um dos personagens do filme com uma câmera de mão, que estaria filmando em tempo real os acontecimentos. Esse tipo de filmagem é chamado POV, abreviatura de “Point of View”, que significa “ponto de vista” do indivíduo, no sentido literal, um tipo de visão em primeira pessoa.

Essa foi a grande jogada, pois ela mostrou a visão de um simples cidadão que está apavorado com um ataque misterioso e, inicialmente, sem explicação. Na verdade não apenas um, mas sim um pequeno grupo de amigos que tem de sair de uma festa de despedida para averiguar um estranho apagão e descobrem que N.Y. está sendo atacada por um monstro. Nada de teorias militares, nada de muitas informações sobre a origem do animal ou possíveis razões do ataque. No filme o espectador sabe tanto quando o personagem -  você vai ficar sabendo apenas o que o personagem descobrir. O contato com o exército é mínimo, e acontece justamente quando algumas poucas informações são passadas. Muitas dúvidas ficam ao final do filme, o que nesse caso é positivo pois abre grandes possibilidades para uma continuação futura. Existem casos em que gerar uma dúvida ao final da história prejudica o contexto geral, como em um suspense de serial killer onde após um filme inteiro de investigação não é revelada a identidade do assassino. Isso gera uma angústia. O público vai ao cinema para relaxar e não para ficar mais ansioso - tirando raros casos onde o diretor sabe deixar a dúvida.

Mas além das dúvidas, ao seu final Cloverfield deixa um item valioso para o espectador. Não foi lançado para venda nenhum release de sua trilha sonora, até porque o desenrolar da história não é acompanhado por uma trilha incidental, apenas ouvimos música diegética que toca durante a festa de despedida e provavelmente mais uma ou outra durante o filme. Matt Reeves, no entanto, não podia deixar um filme como esse sem um tema principal, então contratou o compositor Michael Giacchino (colaborador habitual do diretor J. J. Abrams, aqui apenas produtor), que compôs um tema inspirado no monstro e que serviu como trilha para os créditos finais.

Giacchino escreveu uma partitura de treze minutos, que é na minha opinião a melhor já escrita pelo compositor. O tema se chama "Roar! Cloverfield Overture", e na versão dos créditos finais do filme ele aparece um pouco reduzido com nove minutos e 50 segundos, é esta versão que vou comentar a seguir. A faixa começa como um início de ataque do monstro, através de percussão que vai se aproximando, dando a idéia de que ameaça está chegando. Staccatos de metais em um ritmo que parece simular os passos do monstro são adicionados. As cordas entram em seguida expondo o motivo principal, que vai se repetir por toda a peça em outros instrumentos. Madeiras tocam uma passagem de duas notas que serve como base para a entrada da melodia tensa de trompas, trombone e tuba, em uma clara homenagem aos filmes de monstros. Similaridades em relação ao tema original de Godzilla, do compositor japonês Akira Ifukube, podem ser percebidas, e segundo o que se comenta essa semelhança foi intencional da parte de Giacchino, como forma de tributo ao maestro nipônico que marcou a história do cinema. Após essa passagem de metais, entra uma voz feminina em uma melodia mais lírica e bela, apesar de densa. O motivo principal volta agora com cordas e metais, e vai crescendo até uma parada onde a trompa toca mais uma passagem ao estilo dos filmes de monstros. Mais ou menos aos 2:50 temos uma melodia de cordas e metais, que cresce para um clímax denso em tutti, com a voz feminina em vibrato ao fundo. Pronto, a esta altura quase todo o material temático da faixa já foi apresentado. A não ser por um momento inédito lá pelos 5:40, calmo e sombrio, onde a harpa inicia uma passagem com arpeggios, cellos e baixos ao fundo. Entram as trompas na harmonia e cordas na melodia, com algumas linhas de clarineta complementando eventualmente. Daqui para a frente variações dessas idéias vão se alternando e construindo os 9:50 minutos de música presente nos créditos do filme.

Dentro da proposta, Giacchino ganha nota 10. Criou um tema que ao mesmo tempo possui melodias belas e líricas, como também propôs um motivo marcante e assombroso que situa Cloverfield como um clássico filme de monstros. Se houver uma seqüência, e segundo J. J Abrams vai haver, espero que Giacchino seja chamado para desenvolver esse tema e talvez criar toda a trilha. A faixa "Roar! Cloverfield Overture" foi lançada em sua versão integral de 13 minutos em alta qualidade pelo site americano iTunes para venda por apenas U$ 1.99, no entanto parece ter permanecido no catalogo por tempo limitado. Alguns usuários reportaram em fóruns que após apenas alguns dias a faixa foi retirado do catálogo. No entanto, presumo que se você se aventurar pela web, vai acabar se deparando com a versão integral do tema "Roar" (Rugido).

Cloverfield é um filme excelente, com uma proposta bem diferente do que tem se visto por ai. Não usa essa linguagem dramática forçada que a maioria dos diretores de hoje em dia está tentando utilizar para mostrar a profundidade de seus personagens. Até o Batman de Chris Nolan virou um personagem melancólico. Aqui o drama é real, não forçado. É simplesmente medo de morrer, medo do desconhecido. Você vê coisas acontecendo de uma forma tão natural que realmente imagina como seria se um ataque acontecesse de fato.

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