CRASH: NO LIMITE (Crash, EUA, Alemanha, 2004)
Gênero: Suspense
Duração: 113 min.
Elenco: Sandra Bullock, Don Cheadle, Matt Dillon, Jennifer Esposito, William Fichtner, Brendan Fraser, Terrence Howard, Ludacris
Compositor: Mark Isham
Roteiristas: Paul Haggis
Diretor: Paul Haggis

Contradições em L.A.

Filme do roteirista de MENINA DE OURO provoca discussões (e acusações) sobre racismo, mas acima de tudo tem dificuldades em desenvolver melhor os personagens

Nada como se preparar da maneira mais adequada para ver um filme. Como CRASH - NO LIMITE (2004) era um filme sobre batida de carro (entre outras coisas), eu fiz o favor de bater a porta do meu carro no portão lá de casa, quando saí para ir ao cinema. O que acabou rendendo uns arranhõezinhos que vão me custar um dinheirão na oficina, além de um portão amassado. De todo modo, esse pequeno acidente serviu para eu tomar um pouco o gostinho de uma batida. Esse filme de Paul Higgis pode não ter tanta batida de carro quanto o CRASH (1996) do Cronenberg, mas até que tem bastante. A colisão do título, na verdade, teria um sentido mais amplo.

Sobre o que eu achei do filme, fico no meio termo. Nem o encaro como uma obra puramente preconceituosa cujo tiro saiu pela culatra, nem como um dos melhores do ano, como parte da crítica deixou a entender. Trata-se de um filme bastante agradável de se ver, cheio de pequenas histórias que se cruzam e com uma música que remete à trilha de Aimee Mann para MAGNÓLIA. A comparação com P. T. Anderson é inevitável. Assim como com o Robert Altman de SHORT CUTS.

Talvez o problema do filme seja a dificuldade que ele tem em aprofundar e desenvolver melhor os personagens. Acredito que quem mais se beneficiou no filme foi Matt Dillon, como o tira que adora humilhar os negros, mas que também pode ser um exemplo de humanidade e profissionalismo (na melhor seqüência do filme, envolvendo Thandie Newton). O filme trabalha com as contradições o tempo todo. Há, por exemplo, o tira bem intencionado (Ryan Phillippe) que acaba comentendo um ato bárbaro. Numa das primeiras seqüências, vemos dois amigos negros comentando sobre o preconceito que eles sofrem, que são maltratados quando vão a restaurantes e que são confundidos com bandidos quando andam nas ruas. Mas, logo em seguida, eles ironicamente executam um assalto à mão armada. A cena funcionaria bem numa comédia politicamente incorreta.

Paul Haggis, roteirista de MENINA DE OURO (2004), mostra uma Los Angeles em ebulição, prestes a explodir por conta das diferenças entre brancos, negros, latinos e pessoas vindas do Oriente Médio (no caso, os persas, que são confundidos com árabes). Em alguns momentos o filme parece que vai naufragar geral, como na cena do persa dando um tiro na garotinha latina, mas por sorte os resultados acabam sendo surpreendentemente bons. O fato de a maior estrela do filme, Sandra Bullock, ter um papel pequeno e pouco importante dá um ar chique à obra.

As acusações de racismo por parte da crítica não deixam de ser uma ironia, já que um dos produtores de CRASH é o ator Don Cheadle. Há várias seqüências que me deixaram sem entender direito o que o diretor quis dizer, mas não deixa de ser algo bastante interessante para refletir. O que dizer do rapaz negro que declara gostar de música country? E porque alguns dos personagens negros precisam ser tão humilhados, tão vítimas - o próprio Don Cheadle ou o produtor de televisão, vivido por Terrence Howard? Dá impressão que Spike Lee teria feito algo bem diferente, bem mais bombástico. Mas esse não é um filme do Spike Lee. E é bom aceitá-lo como ele é.

Cotação:
Ailton Monteiro
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