Cults & Trash
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dois lados: de uma mesma moeda

Cult. Termo que se popularizou na década de 80 com a chegada dos home-videos. A novidade era que ao contrário de antes, você poderia imortalizar uma obra, torná-la  objeto de culto,: ora revendo milhares de vezes aquele seu filme predileto, ou descobrindo pérolas que não receberam seu devido brilho na telona. Ser cult não exige extremos de sofisticação, é um “gênero dos gêneros”, eclético, que abrange todos os estilos e gostos.

Um bom exemplo são os filmes conferidos neste mês na Cults: O encantador “A Rosa Púrpura do Cairo" de Woody Allen, e o despretensioso “Procura Susan Desesperadamente” de Susan Seidelman. Um faz clara homenagem ao cinema e o outro, escapista, um veículo para uma cantora em ascensão. Ambas produções capazes de causar reações extremas de amor e ódio  para os não-adeptos da “vertente” cult. E largamente abraçados pelos seus seguidores.

Allen é poético em sua trama. Durante a Depressão, uma garçonete (Mia Farrow) que sustenta o marido bêbado e desempregado, que só sabe ser violento e grosseiro, foge da sua triste realidade assistindo filmes. Mas ao ver pela quinta vez "A Rosa Púrpura do Cairo" acontece o impossível! Quando o herói da fita sai da tela para declarar seu amor por ela, isto provoca um tumulto nos outros atores do filme e logo o ator que encarna o herói viaja para lá, tentando contornar a situação. Assim, ela se divide entre o ator e o personagem.

Já em Susan... a trama é menos sofisticada. Roberta Glass (Rosana Arquete) é uma dona de casa entediada, e que desconfia que seu marido (um vendedor compulsivo de... banheiras!) está lhe traindo. Pra fugir do tédio começa a criar uma certa obsessão por um determinado anúncio de jornal que diz em letras garrafais: "Procura-se Susan  Desesperadamente!" Após ler o anúncio ela decide se fazer passar por Susan (Madonna), sem saber que com isso corre perigo de vida.

O interessante é notar que mesmo com tantas distinções (estéticas, narrativas) ambos apresentam uma característica marcante da década que foram lançados – 80. A Rosa... seguiu a cartilha que pregava o revival , o olhar para o passado, depois da ressaca do cinema político de 70. Já Susan... se caracteriza pela perda de identidade hollywoodiana. Roberta passa o filme todo querendo ser Susan, a garota moderna do futuro, mas ao mesmo tempo parece não querer perder sua ingenuidade. Os anos 80 foram taxados como "conformistas", os jovens de “hippies” engajados viraram “yuppies” apolíticos. O culto ao corpo foi totalmente celebrado. O cinema seguiu a onda e encontrou no passado uma (incerta) resposta para o futuro. O  novo era ser velho e ser moderno era ser Madonna.

Claro fracasso na sua temporada nos cinemas, o filme de Allen recebeu uma segunda chance na telinha, sendo hoje considerada uma obra-prima do diretor. É cult. O contrário ocorreu com Procura-se Susan... que rendeu milhões de dólares, mas hoje é lembrado apenas como veículo para uma popstar. É passado.   Não seria cult o passado? Ou será o passado cult? 

 alex oliveira 

em dvd & vhs

A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo, EUA 1985, Comédia) Cotação: Ótimo   

 Procura-se Susan Desesperadamente (Desperately Seeking Susan, EUA 1985, Comédia) Cotação: Regular


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