Cults & Trash
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favor rebobinar a fita!
 por alex oliveira

Até hoje lembro a sensação. Depois de muita insistência meu pai finalmente cedera e lá estava eu perdido entre inúmeros títulos para escolher. Em Novo Horizonte (uma cidadezinha do interior que vale denunciar, não tem cinema até hoje) a videolocadora era o bilhete de entrada para o mundo da sétima arte. Falo vídeo no sentido literal da palavra: fitas VHS. E o que escolher? Confesso: Jason vai para o Inferno foi a primeira fita que meu finado videocassete (da também finada marca Sharp) rebobinou. Depois acabou virando um ritual. Todo fim de semana era obrigatória a visita na VideoCidade em busca de mais diversão.

Mas o tempo passa.

O ato de rebobinar uma cena deu lugar aos capítulos. Sai a fita magnética, entra o disco digital. Som, imagem e diversão fabricada. Não vou bancar o saudosista fazendo uma ode às fitas cassetes, mas convenhamos ajustar o tracking para uma melhor definição e juntar todo mundo na frente da tela (mesmo que para ver o "Danúbio Azul" de Strauss terrivelmente desafinado) era bem mais divertido. E é aí que chegamos em Be Kind Rewind, a última jóia de Michel Gondry.

A indústria cultural vive um impasse. E até mesmo as videolocadoras que se adaptaram ao mercado digital, sofre com a falta de demanda: a derrocada da rede Blockbuster (e sua política uniforme de títulos) foi o golpe de misericórdia. Sim baixam-se filmes e músicas, mas nunca produzimos tanto. Seja um videozinho amador no youtube. Uma canção tosca concebida pelo ProTools e os famigerados blogs. Em um determinado ponto do filme, uma personagem saca que a fórmula do sucesso é botar a cara do povo nos filmes suecados. Gondry alerta e pede: façam!

Após acidentalmente apagarem todo o acervo de fitas da única videolocadora analógica da cidade, Jerry (Jack Black no seu habitat) e Mike (Mos Def, íncrivelmente estranho) resolvem "suecar" as produções perdidas. Suecar? Sim, um termo encontrado pela dupla (depois um trio) para justificar a demora das "refilmagens". E temos versões de O Rei Leão, King Kong, MIB, Robocop, A Hora do Rush 2, Rocky... Um roteiro fácil e engenhoso onde visto o "histórico cabeça" do diretor, a metalinguagem consegue ficar mais interessante: a impressão é que Gondry está "suecando" a própria obra. Dono de um cinema criativo e inconfundível (o plano sequência que ilustra a produção dos "Estúdios" é coisa de gênio) o cineasta usa desta temática aparentemente simples para criticar e apontar o rumo óbvio desta revolução cultural. O lema punk do it yourself encontra a tecnologia geek.

Sem previsão de estréia aqui no Brasil (a distribuidora jura que é ainda para setembro) mas já sucesso nos programas de torrents. Be Kind Rewind é manifesto do novo reciclado, uma solução ingênua, uma utopia que vale a locação.

Be Kind Rewind (EUA,2008)
Um filme de Michel Gondry, com Jack Black, Mos Def, Danny Glover, Mia Farrow e Sigourney Weaver

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