CONFISSÕES DE UMA MENTE PERIGOSA (Confessions of a Dangerous Mind, EUA, 2002)
Gênero: Drama
Duração: 113 min.
Elenco: Sam Rockwell, George Clooney, Drew Barrymore, Julia Roberts, Rutger Hauer, Maggie Gyllenhaal, David Hirsch, Jerry Weintraub
Compositor: Alex Wurman
Roteiristas: Charlie Kaufman, Chuck Barris
Diretor: George Clooney

O Pai de Todos era da CIA

Em sua estréia na direção, George Clooney adapta com brilho a polêmica biografia de Chuck Barris, o protótipo dos apresentadores de TV

Em certo momento do trailer desse CONFISSÕES DE UMA MENTE PERIGOSA, é mostrada uma conjunção de cenas do filme sob o som da clássica "Who Are You?", da magistral banda de rock progressivo The Who. E nada poderia ser mais adequado a essa produção que tal música - o "Quem é Você?" parece ser dirigido diretamente a ela, que vai se revelando aos poucos e respondendo ao espectador.

CONFISSÕES representa a estréia na direção de um dos atores mais famosos da atualidade, o "queridinho da mulherada" George Clooney. Porém, como seu amigo Steven Soderbergh (produtor executivo do filme), Clooney não tenta ser mirabolante e se preocupa com uma direção estilosa e um modo seguro de transformar o roteiro do gênio Charlie Kauffman em imagens. Talvez por isso, CONFISSÕES acaba se diferenciando de demais produções unidimensionais da atualidade, e se mostra algo feito com extremo empenho e carinho - uma história difícil e complexa contada até com tranqüilidade.

O maior mérito do roteiro de Kauffman aqui é a mescla de gêneros - CONFISSÕES consegue ser melancólico e sarcástico ao mesmo tempo, por mais improvável que isso pareça. A questão de acompanhar uma longa vida de um personagem conhecido do público não seria fácil sem um talento tão grande, ainda mais com as revelações extras. A tal "mente perigosa" é a de Chuck Barris, uma espécie de Sílvio Santos americano. A diferença é que Barris é o responsável pela existência de Sílvio e todos os outros na mesma linha, já que é o criador do "Namoro na TV" e "The Gong Show", entre outros. Mesmo assim, CONFISSÕES procura se centralizar muito mais na vida pessoal de Barris, seus difíceis relacionamentos e - pasmem - em uma bombástica revelação (que fique registrado, Kauffman se baseou em uma auto-biografia de Barris): ao mesmo tempo que apresentava seus programas, ele era espião da CIA, responsável por diversos assassinatos.

Com uma personalidade forte e difícil, brilhantemente encarnada por Sam Rockwell, Barris sabia que seus programas eram um "lixo", mas dizia que era aquilo que o público queria e gostava, e era a diversão que ele gostava de oferecer. Relacionando-se com uma hippie maluca (Drew Barrymore), tem uma vida que poderia caber em diversos filmes. Por isso, não há nenhuma cena deslocada na projeção; enquanto é melancólico, CONFISSÕES provoca reações de apoio a Barris, provavelmente como o próprio pensava - sabia que era desprezível, mas continuava vivendo e se gostando. O painel daquele ser humano supostamente demente é traçado de uma maneira que faz o espectador repensar suas atitudes sem deixar de ver todo o lado humano existente.

Contando com uma belíssima trilha sonora, que aposta também no rock progressivo, CONFISSÕES DE UMA MENTE PERIGOSA causa diversas reações de riso e de dor no público, além de exigir exercícios mentais para vermos as diversas expressões e frustrações de alguém tão nojento e, ao mesmo tempo, amável.

Ao final, com o "Jogo do Velho", que Barris criou ano passado, o estiloso Clooney, que faz um bom trabalho por toda a projeção, nos brinda com um plano final de encher os olhos, novamente com a mescla que durou nos 113 minutos: sarcasmo e melancolia, que conseguiram fazer CONFISSÕES se tornar um dos melhores filmes do ano.

Cotação:
Carlos Massari
FILME EM DESTAQUE