O DIA DEPOIS DE AMANHÃ (The Day After Tomorrow, EUA, 2004)
Gênero: Aventura, Drama
Duração: 124 min.
Elenco: Dennis Quaid, Jake Gyllenhaal, Emmy Rossum, Dash Mihok, Jay O. Sanders, Sela Ward, Austin Nichols, Arjay Smith
Compositor: Harald Kloser 
Roteiristas: Roland Emmerich, Jeffrey Nachmanoff
Diretor: Roland Emmerich

A coisa pode se tornar irritante depois da enésima repetição

Novo filme-catástrofe de Roland Emmerich usa o marketing da denúncia, e torna-se monótono após as impressionantes tragédias vistas no seu início

No mínimo é engraçado e estranho ver um filme desses, no momento em que Catarinas e ciclones extratropicais em geral vêm atingindo o sul do Brasil, fazendo minha cidade ser hoje considerada a segunda mais fria do estado de São Paulo. Ninguém sabe afirmar se a causa desses fenômenos, estranhos ao nosso canto do globo, é o aquecimento global. Apesar de alguns cientistas alardearem que o aumento da emissão de poluentes pode levar ao aumento da temperatura do planeta e, conseqüentemente, ao degelo das calotas polares (algo capaz de causar umas tragédias bem cinematográficas), nenhum deles tem certeza disso. Baseado nessa incerteza, o governo norte-americano provocou toda aquela polêmica ao se recusar a participar do Protocolo de Kyoto, que procura a diminuição da emissão de poluentes, alegando que os estudos não comprovam nada e que, golpe final, o impacto sobre a economia seria muito maior do que o impacto ambiental .

Em O Dia Depois de Amanhã o governo dos EUA é apontado como um dos vilões da tragédia, que toma forma em alguns poucos dias (esse discursinho do impacto na economia é citado, inclusive). Indo além, Rolland Emmerich coloca o povo norte-americano fazendo o caminho contrário ao da atual imigração ilegal mexicana: fugindo do frio, as pessoas agora querem se refugiar no clima ameno do México. 

Há quem goste ou gostará de O Dia Depois de Amanhã por causa disso. Há até quem vibre com o pedido de desculpas do presidente americano ao "povo do terceiro mundo que nos acolheu tão bem". Há quem ache "extremamente interessante" o fato do filme mostrar os americanos do norte adentrando a América Latina apenas quando a dívida externa dos países subdesenvolvidos é perdoada (um toma-lá-dá-cá muito, mas muito discutível). Mas eu achei impossível dar qualquer crédito a essas observações: afinal, o filme é do mesmo diretor de Independence Day e, Deus do céu, de O Patriota

Tudo isso parece mais uma carta que os marqueteiros do filme tiraram da manga do que qualquer preocupação com o clima do planeta, ou com as ações inconseqüentes da política externa norte-americana - leia aí qualquer crítica ou reportagem sobre o filme e veja se ela não dá grande destaque à essas "polêmicas". Nove entre dez entrevistas do diretor só falam disso. Eu mesmo escrevi uns 2 mil caracteres até agora e só falei disso!

Além do mais, parece ser cool, hoje em dia, trazer alguma crítica ao papel dos EUA no mundo em um filme como esse. Todo mundo gosta, todo mundo comenta. Eu não tenho nada contra, desde que: a) isso não venha de um sujeito que fez dois dos filmes mais ridiculamente americanófilos da década passada e; b) o filme não banalize essa discussão tão séria transformando-a numa arma de marketing. Se Michael Moore, o provocador fanfarrão, já é alguém extremamente desconfiável, o que dizer do sujeito que pôs Mel Gibson para caçar ingleses com uma machadinha? Lembremos ainda que dizer que os EUA são os principais responsáveis pelo aquecimento global via emissão de poluentes - se é que esse aquecimento realmente existe - é constatar o óbvio, nada além. O país mais industrializado e com o maior PIB do mundo será sempre o principal emissor. Duh

Deixando todo esse blá-blá-blá de lado, o que sobra de O Dia Depois de Amanhã? Bem, como a maioria dos filmes-catástrofe, o clímax da ação ocorre ainda no início. A tragédia (tornados em Los Angeles, espetacular inundação de Nova Iorque e congelamento de todo o hemisfério Norte) logo dá lugar às suas conseqüências. E aí, então, o filme perde boa parte de sua graça, pelo menos pra mim, que sempre me interesso mais pela destruição, pelos prédios explodindo, pelas cidades em frangalhos, não exatamente pelo que vem depois delas. Aqui as coisas começam a ficar meio repetitivas depois que Nova Iorque é inundada. 

Num sinal claro de que as opções de destruição de Emmerich estavam se esgotando, ele chega às raspas do tacho ao colocar uns lobos digitais atrás dos personagens. A cena (popularmente conhecida como "encheção de lingüiça") nem de longe é tão divertida e hipnótica como a destruição de Los Angeles por tornados, por exemplo. Emmerich parece ter prazer em destruir cidades inteiras (NY, em especial). E ele se sai muito melhor cuidando dessas tomadas que utilizam efeitos especiais em larga escala do que filmando outras cenas de ação. 

Outras coisas bastante comuns nos filmes dele, além das cidades destruídas, são as cenas em que os personagens são filmados olhando estáticos para algo/alguém e, logo depois, saindo correndo desse algo/alguém. Em Independence Day a personagem (e o cachorro!) corria das chamas da mega-explosão e se escondia num túnel. Em Godzilla, os novaiorquinos correm das patas do monstro. E em O Dia Depois de Amanhã os personagens correm de uma onda que inundará Manhattan e, pasmem, de um sopro de vento congelante (ou algo que o valha). São cenas divertidas e que causam certa tensão mas, para qualquer um que já tenha visto algum filme do diretor, a coisa pode se tornar mesmo irritante depois da enésima repetição.

A coisa pode se tornar mesmo irritante depois da enésima repetição. A coisa pode se tornar mesmo irritante depois da enésima repetição. A coisa pode se tornar mesmo irritante depois da enésima repetição. A coisa pode se tornar mesmo irritante depois da enésima repetição. Zzzzzz...

Cotação:
Diego Sapia Maia
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