O DESPERTAR DE UMA PAIXÃO (The Painted Veil, EUA, China, 2006)
Gênero: Drama
Duração: 125 min.
Elenco:
Edward Norton, Naomi Watts, Liev Schreiber, Toby Jones, Diana Rigg, Juliet Howland, Anthony Wong Chau-Sang, Maggie Steed, Lorraine Laurence
Compositor: Alexandre Desplat
Roteirista: Ron Nyswaner
Diretor:
John Curran

Escrito para brilhar

Filme do diretor John Curran é duplamente bem sucedido, pois é uma adaptação à altura da obra de W. Somerset Maugham e não faz feio frente à versão cinematográfica anterior, de 1934

W. Somerset Maugham, por tradição, sempre foi um dos escritores cujos textos melhor foram adaptados para o cinema - e um dos motivos é o fato de que suas narrativas, voluntariamente ou não, são cinematográficas por natureza, com personagens interiorizados, repletos de conflitos internos, mas cujos sentimentos se traduzem maravilhosamente bem em close-ups de grandes intérpretes tendo como pano de fundo a beleza, vazia e sedutora ou - e aí muda-se completamente o sentido - sedutora e vazia - de seu núcleo favorito: a classe média alta anglo-saxã da primeira metade do Século XX.

Apesar de seus livros possuírem essa habilidade inata de se converterem tão habilmente em filmes, ou até por isso mesmo, é verdade que poucas adaptações de livros seus ganharam refilmagens - o que a princípio é ótimo, acrescente-se. O FIO DA NAVALHA ganhou uma versão cinematográfica belíssima em 1946, com Tyrone Power, Gene Tierney e Anne Baxter, e outra lastimável em 1984, protagonizada por Bill Murray de forma, no mínimo, vergonhosa.

Já O VÉU PINTADO ganhou adaptação em 1934, com a divina sueca Greta Garbo como a esposa rejeitada pelo marido (com quem casara por conveniência) que se envolve em uma fútil aventura extra-conjugal. Apesar de o filme não se situar entre os mais famosos da sueca nem entre as "versões definitivas" de romances clássicos, apenas agora, mais de 70 anos depois, outro cineasta - o valente John Curran - decidiu refilmá-lo.

Apesar das ressalvas que, a princípio, refilmagens sempre trazem (anacronismo, desrespeito à versão anterior ou à obra original, inevitáveis comparações), é inegável que, aqui, a nova adaptação foi extremamente bem sucedida. Dois dos melhores atores da nova geração - Edward Norton e Naomi Watts (que, por sinal, está se tornando uma especialista em remakes, após O CHAMADO e KING KONG) - decidiram encarar a tarefa de dar novas luzes - e cores - ao livro de Maugham, e encarnar as desavenças conjugais do precocemente amargurado casal Kane - que, apenas após seu casamento por conveniência (ele, um médico que precisava urgentemente de uma esposa, e ela, necessitando escapar da alcunha de solteirona imposta pela própria mãe) descobre a traição, o rancor, o castigo e, finalmente, o amor. Sim, a ordem das descobertas é exatamente essa.

Maugham sempre possui habilidade inata para traduzir sentimentos como o acima através de palavras, ações e posturas que sempre se casaram bem com imagens cinematográficas muito específicas, como planos pequenos e fotografias amareladas - como dito no início. John Curran percebeu isso, fugiu por completo às armadilhas do brilho, do encantamento e, ao colocar Norton e Watts de cara amarrada e olhar contraído, tanto em uma Inglaterra intencionalmente rotineira quanto em uma China vitimada pelo cólera, revelou seu total entendimento e integração com a proposta da obra que escolhera adaptar. E, como prova de sua capacidade artística, premiou o público com um filme absolutamente encantador. O DESPERTAR DE UMA PAIXÃO é um filme cujo título não diz respeito apenas aos personagens: diz respeito ao sentimento que irá acarretar em seus espectadores, enquanto se deliciarem e se envolverem com essa realização maravilhosa.

Cotação:
Carlos Dunham
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