DOGVILLE (Dogville, Dinamarca, Suécia, França, Noruega, Holanda, 2003)
Gênero: Drama
Duração: 177 min.
Elenco: Nicole Kidman, Harriet Andersson, Lauren Bacall, Jean-Marc Barr, Paul Bettany, Blair Brown, James Caan, Patricia Clarkson
Roteirista: Lars von Trier
Diretor: Lars von Trier

Esquisito e irônico

O polêmico cineasta Lars Von Trier, mesmo quando erra, consegue não estar completamente errado

Se a denominação de "esquisito" pode ser aplicada a algum filme, com certeza é para esse DOGVILLE, do dinamarquês Lars Von Trier. Quando pensávamos que já tinha chegado a quase todos os limites do experimentalismo com o movimento Dogma 95, ao lado de Thomas Vinterberg e outros, onde havia banido qualquer coisa artificial do cinema, aqui ele vai ainda mais longe - não há cenários.

Von Trier ainda alia estas limitações visuais a uma narração altamente irônica e a um tom de fábula para contar a história de uma pequena cidade, que na época da guerra acolhe uma mulher fugindo da máfia. Porém, nada é como parece... A questão é que DOGVILLE é um filme lotado de defeitos. Primeiro: suas três horas de duração parecem ser muito mais que isso; Segundo: a narração irônica atrapalha o andamento da produção, além de ser um tanto quanto didática. Ironicamente didática, entendem? Ok, não precisam entender.

Se a intenção era ridicularizar os EUA, o filme falhou. Mas o filme atira para todos os lados, e o painel que apresenta é universal. Cada pessoa, meticulosamente explorada, durante a projeção, poderia ser você, ou alguém que você conhece. Ponto para o filme. Cada morador de Dogville é hipócrita. Logo, a humanidade é hipócrita. Cada morador é vingativo, é incapaz de esconder suas fraquezas, seus desvios de personalidade. Nenhum deles é basicamente capaz de pensar com a própria cabeça. E talvez seja necessário mudar isso.

Como o grande diretor que é, Von Trier tenta apresentar soluções, e mais uma vez acaba falhando. O terceiro ato é bastante surpreendente, mas demonstra diversos tipos de incoerências - como já houve em outros filmes, parece que o próprio filme se torna hipócrita. A personagem de Nicole Kidman, principal em cena, muda sua personalidade completamente. Ou não.

O que faz com que DOGVILLE seja um bom filme não é nenhum dos experimentos feitos por ele, que não se encaixaram bem no que Von Trier imaginava. É a coragem de ser irônico contra um povo que é... Arrogante, acima de tudo. É a coragem de se abrir para múltiplas interpretações e para múltiplos gostos. É a coragem de Von Trier, que mesmo quando erra, consegue não estar completamente errado.

Cotação:
Carlos Massari
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