Os Donos da Rua (Boyz N the Hood, EUA, 1991)
Gênero: Drama
Duração: 107 min.
Estúdio: Columbia
Elenco: Hudhail Al-Amir, Lloyd Avery II, Angela Bassett, Mia Bell, Lexie Bigham, Kenneth A. Brown, Nicole Brown, Ceal
Compositor: Stanley Clarke
Roteirista: John Singleton
Diretor: John Singleton

Amargo Aprendizado 

Obra irretocável e dolorosa, Boyz N The Hood, de John Singleton, é autêntico grande cinema das ruas 

Um tema central e marcante dentro da produção americana de cinema na década de 90 foi sem dúvida o da tensão racial. Item delicado, componente-mácula da história sócio-cultural dos E.U.A, foi elevado a um alto patamar pela plástica e pela discussão presentes nas películas de Spike Lee e de John Singleton. Singleton realiza em seu filme de 1991 uma costura entre questões e dilemas inerentes à juventude, constatações sobre o que há de interessante para o modelo de vida branco norte-americano na manutenção de uma sociedade negra à parte desse próprio modelo e, sobretudo, a desgraça de uma realidade escrita, destino escrito, em que os jovens negros (com uma eficiente abordagem a respeito do "gangsta" e do conjunto de valores das gangues) encontram-se em estado de guerra & ódio consigo mesmos.

A história começa da seguinte forma: ainda criança, Tre (Cuba Gooding Jr), é mandado para a casa do pai, Furious (Laurence Fishburne), pela mãe, mulher negra independente que queria ver o menino se transformar em um verdadeiro homem, capaz de enfrentar de fato o mundo e sua realidade por vezes severa. O menino torna-se, talhado pela mão firme e sábia do personagem de Laurence Fishburne (catedrático dos males do mundo bandido e das questões da rua), um jovem homem imune aos turbilhões, manadas e tiros daquela selva plana e árida. Será que totalmente imune?

Já crescidos, os amigos de infância de Tre, moradores da rua de seu pai, tornam-se criminosos; apenas o próprio Tre e Ricky (Morris Chestnut), um promissor jogador de futebol americano prestes a ser chamado por uma importante universidade, não conhecem o mesmo destino. O irmão de Ricky, Doughboy (Ice Cube), é a figura mais emblemática da rua na qual há o desenrolar da história; o garoto gordinho indomável e cheio de raiva e de peso sobre as costas, o líder da gangue da vizinhança. Havia um laço entre os meninos daquela rua que os fazia irmãos, um laço puro, sem que fossem necessárias afirmações e reafirmações de amor e devoção entre aqueles personagens, amigos de infância. Doughboy, o moleque doente por tanta carência, todavia dono de uma bem sustentada pose de durão insensível e vulgar, era o elemento essencial desse elo.

Tudo caminhava perto do normal, Doughboy retornara da cadeia pela enésima vez, até que uma estúpida briga em uma "balada" acaba sentenciando injustamente alguém que nem estava lá. E tudo passa a ser o caos naquele faroeste negro, de asfalto. Cada rua uma vila, carros são como cavalos, o sentimento de vingança, o ódio proliferado e o olho-por-olho são os mesmos dos westerns.

O filme debate, sentado em uma cadeira, sem pânico, contudo estampando na face e em cada diálogo um pessimismo cortante, a tragédia da segregação entre os próprios negros. Um verdadeiro colapso, sem muitas perspectivas de reversão. O ódio agora é algo totalmente disseminado; mata-se por pouco, mata-se por nada, negros matam negros com e quase que por prazer na vida da L.A-subúrbio. Vale o domínio das ruas, vale a pequenina glória. Inglória. Aniquilamos os caras da outra rua. E o pior, feita por Singleton, a sugestão de que esta tragédia crônica conta com um silencioso e passivo (como um sentimento que já estaria lá profunda e discretamente arraigado) patrocínio da estrutura social vigente, branca, em nome da pureza e da proteção de um modelo. Ou seja, a existência de um não intitulado e apenas um pouco mais moderado Apartheid e a conclusão de que jovens negros matando outros jovens negros não seria exatamente um malefício para aquela estrutura, muito pelo contrário.

Voltando ao penúltimo parágrafo, pois a palavra continua a ser a mais apropriada, tudo é o caos; a menina pequena a toda hora deixada no meio da rua pela mãe drogada, denuncia. Singleton filma esse caos-poesia com o coração disparado. O coração ironicamente dispara, literalmente, na cena crucial do filme. Correr, correr.

O inspirado diretor-escritor conta sobre a realidade e o perfil das pessoas daquela determinada rua com uma naturalidade brutal e que chega a espantar. Seria o autêntico naturalismo das ruas? Com fluência impecável e planos honestos, destrincha cada centímetro de calçada, cada parte daqueles quadrados assustadores de subúrbio, estranhamente iluminados pelas tardes ensolaradas californianas. Singleton mapeia os espaços do subúrbio de L.A com amor, generosidade e, ao mesmo tempo, com pranto calado. Paixão na expressão crua da violência, na verdade, a concretização daquela tragédia, lavada com sangue e lágrimas.

A fita também não deixa de se assumir como a mais pura narrativa a respeito do crescimento e das descobertas do garoto Tre ao longo daquele trecho de sua juventude, em uma constante confusão, típica da idade, entre o sentir, romper, questionar e outros verbos; todos esses caminham juntos, no próprio ritmo do roteiro, até colidirem com o ponto de resolução do filme, exatamente onde vai habitar o dilema-mor do menino-homem. Do que valera até então toda a doutrina de vivência no mundo-caos e ensinamentos de seu pai, se sua ira agora tinha plena razão de existir e seu grito apenas era insuficiente, muito pouco, para tanta dor? E este talvez seja o auge da fita.

Na parte musical, coisas realmente interessantes, entre raps, Stanley Clarke, aqui atuando como compositor principal e escrevendo bons temas, e clássicos da Motown (um deles pontuando a seqüência de transição do filme, do passado para 10 anos depois, em uma cena que começa linda, com o pai mostrando a Tre no carro a riqueza daquele tipo de som. Deve ser referência auto-biográfica, eu aposto).

Importante para a consolidação do cinema negro norte-americano da década de 90, Boyz N The Hood não só é uma obra lapidar, perfeita e irretocável mesmo se não fosse artigo cultural ativo dentro da discussão racial recente, como também marca a revelação de uma grande inteligência para o cinema, John Singleton. O diretor, ao lado de Spike Lee, firmou-se a partir daqui como um grande realizador, ícone verdadeiro para as próximas gerações.

Cotação: *****

Claudio Szynkier
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