OS SONHADORES (The Dreamers, Itália, França, Inglaterra, EUA, 2003)
Gênero: Drama
Duração: 115 min.
Elenco: Michael Pitt, Eva Green, Louis Garrel, Anna Chancellor, Robin Renucci, Jean-Pierre Kalfon, Jean-Pierre Léaud, Florian Cadiou
Compositor: Christophe Beck
Roteirista: Gilbert Adair
Diretor: Bernardo Bertolucci

A poesia do cinema

Bertolucci homenageia o cinema, revisita um período importante dos anos 60 e mostra o relacionamento de três jovens em um grande filme

OS SONHADORES (2003), de Bernardo Bertolucci, tem um sabor especial para os cinéfilos - esses seres estranhos que adoram uma salinha escura e parecem participar de uma espécie de religião pagã, onde os deuses são os grandes diretores e astros das telas.

Desde que vi o trailer desse filme, com a primeira imagem de Michael Pitt, a nudez de Eva Green e o som de "Hey Joe", fiquei entusiasmado para vê-lo. Sabia que se tratava de um filme especial. Gostei do fato de Bertolucci ter preferido não se ater muito à política e tratar mais do relacionamento dos três jovens e do fascínio que o cinema exerce sobre eles, quase sempre com rock and roll ao fundo. Fazendo dessa maneira, o diretor criou um filme poético, sem pressa de chegar a algum lugar, sem a preocupação de contar uma história redonda, apenas extraindo imagens de uma beleza hipnótica.

A história acontece na Paris de 1968. Naquela época Henry Langlois, diretor da Cinemateca Francesa, tinha sido demitido pelo Ministro da Cultura do presidente Charles De Gaulle, o que ocasionou protesto entre cinéfilos e cineastas. Inclusive, o célebre ator Jean-Pierre Léaud, que incorporou o mais importante dos personagens da Nouvelle Vague, o Antoine Doinel dos filmes de Truffaut, faz uma ponta no filme, refazendo o discurso de protesto contra a demissão de Langlois. Esse evento marcou o início de uma série de manifestações que culminaram no maio de 68, com muitos estudantes indo às ruas e enfrentando a polícia.

São várias as homenagens a grandes filmes. Ao longo da projeção, vemos cenas de PAIXÕES QUE ALUCINAM, SCARFACE, BAND À PARTE, FREAKS, ACOSSADO, LUZES DA CIDADE, A VÊNUS PLATINADA, A RAINHA CHRISTINA, entre outros. Além disso, há a velha discussão sobre quem é melhor: Charles Chaplin ou Buster Keaton?; a famosa esnobada que os americanos davam a Jerry Lewis; e a entusiasmada frase de Godard, que dizia que "o cinema é Nicholas Ray". Ray, aliás, é o primeiro assunto discutido assim que os personagens de Michael Pitt e Louis Garrel se encontram.

Mas chega um momento em que as citações aos filmes são deixadas um pouco de lado (ou pelo menos deixam de ser explícitas), para que o filme possa se concentrar mais no relacionamento entre os jovens irmãos gêmeos Isabelle (Eva Green, em sua estréia no cinema) e Theo (Louis Garrel) com o jovem americano Mathew (Michael Pitt, de A VILA). Desde que se conhecem, Mathew acha estranha a relação entre os dois irmãos, que parece ser incestuosa. Uma das cenas mais memoráveis do filme é aquela que mostra a primeira transa de Isabelle com Mathew, no chão da cozinha, enquanto o irmão frita uns ovos.

A trilha sonora do filme é um espetáculo à parte: Jimmy Hendrix, Janis Joplin, The Doors, Grateful Dead e no final tem a maravilhosa "Je ne regrette rien", na voz de Edith Piaf, deixando na boca um gostinho de saudade - até mesmo em quem não viveu naqueles anos.

OS SONHADORES é um dos grandes filmes de Bertolucci. Tem um ritmo que até pode incomodar a alguns, o final é meio atabalhoado, e às vezes dá a impressão que Bertolucci não sabe o que fazer com tanta coisa junta no mesmo filme, mas dou graças aos deuses do cinema por esse filme existir.

Cotação:
Ailton Monteiro
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