|
Revendo: UM ESTRANHO NO NINHO |
|
|
A década de 1970 é considerada por muitos como uma das melhores – e a última grande época – que o cinema em língua inglesa já viveu. Nela foram produzidos diversos marcos da Sétima Arte, filmes como Patton: Rebelde ou Herói?, M*A*S*H, Cada Um Vive Como Quer e Uma História de Amor (1970); Laranja Mecânica, Operação França, A Última Sessão de Cinema, Um Violinista no Telhado e Onde os Homens são Homens (1971); O Poderoso Chefão I e II (1972 e 1974), Amargo Pesadelo e Cabaret (72); Loucuras de Verão – ou American Graffiti –, O Exorcista, Golpe de Mestre, O Último Tango em Paris, Terra de Ninguém e Caminhos Perigosos (73); Chinatown, A Conversação e, mais famoso do que clássico, Inferno na Torre (74); Taxi Driver, Rede de Intrigas, Todos os Homens do Presidente, Maratona da Morte, Rocky – sim, aquele mesmo com o Stallone, e os já refilmados de terror A Profecia e Carrie (76); Guerra nas Estrelas, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Os Embalos de Sábado à Noite e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (77); O Expresso da Meia-Noite, O Franco-Atirador, Interiores, Amargo Regresso, Cinzas no Paraíso, Superman (com Christopher Reeve) e Halloween (78); Apocalypse Now, Manhattan, Alien: O 8º Passageiro, Muito Além do Jardim, Mulher Nota 10, Kramer vs. Kramer e All That Jazz (79); e, no especial ano de 1975, Tubarão, o blockbuster que lançou Steven Spielberg ao estrelato, Barry Lyndon, épico histórico de Stanley Kubrick, Um Dia de Cão, fita realista de Sidney Lumet sobre um assanto a banco, Nashville, musical clássico de Robert Altman, O Dia do Gafanhoto, sátira hollywoodiana visceral de John Schlesinger; um dos ícones do cinema cult – The Rocky Horror Picture Show, de Jim Sharman, a comédia hilária Monthy Python e o Cálice Sagrado (que inaugurou a trilogia do grupo inglês), de Terry Gilliam e Terry Jones; e este Um Estranho no Ninho.
Dirigido pelo tcheco Milos Forman (pronuncia-se “Mílosh”) – de O Povo Contra Larry Flynt, Hair, O Mundo de Andy, Na Época do Ragtime e outro clássico, Amadeus (1984) –, Um Estranho no Ninho (One Flew Over the Cuckoo’s Nest, EUA, 1975) traz a história de Randle Patrick McMurphy, um condenado que se fez de louco para conseguir ser transferido da prisão para um hospital psiquiátrico. Mal sabia que, ao chegar lá, encontraria algo totalmente diferente do que poderia imaginar. A seção onde Randle ficara era designada para quase todos os tipos de pacientes, e cerca de metade deles fazia terapia com a enfermeira-chefe Mildred Ratched, uma mulher extremamente calma e discreta, que fazia o máximo para ter sempre o controle sobre tudo. Randle – interpretado por Jack Nicholson – começa a perceber que as terapias e o modo com que a instituição tratava os pacientes não geravam resultados muito positivos, e tenta revolucionar todo o procedimento, ainda que sob a vigilância calculista e reprovadora da enfermeira Ratched, interpretada no filme pela atriz Louise Fletcher. Há um momento em que Randle não consegue aceitar que terá de ficar sem assistir a um jogo de futebol, e ao olhar para o desânimo habitual de seus companheiros tem uma idéia inusitada. Em frente à TV desligada começa a simular um jogo, como se fosse o narrador, chamando a atenção dos pacientes, que ficam fascinados, e indo de encontro com a autoridade da enfermeira. Sem nunca ficar parado, em outro dia organiza em segredo uma breve fuga do hospital para realizar um passeio de barco – hilariante –, um gesto simples, mas que dá a seus companheiros uma grande oportunidade para redescobrir o prazer de viver. E é só o começo. As conseqüências do inconveniente espírito de liberdade de Randle são funestas, mas ele consegue realizar aquilo que acabou se tornando seu objetivo: levar esperança e alegria a representantes de uma parcela excluída da sociedade – pessoas que, mesmo sendo limitadas pela deficiência mental, ainda tinham capacidade para, do seu modo, viver intensamente a vida.
Após muitos anos de planejamento, Um Estranho no Ninho foi filmado em um hospital de verdade e produzido pelo então estreante Saul Zaentz – um dos maiores produtores independentes que já trabalharam no cinema até hoje – e pelo ator Michael Douglas, que curiosamente ficou sem fazer parte do elenco. Baseados no romance de Ken Kesey, os roteiristas Bo Goldman e Laurence Hauben encontraram a sintonia perfeita ao passar a obra para a linguagem cinematográfica, entregando ao diretor Milos Forman um roteiro que mesclava o drama e a comédia de forma ideal, sem cair em sentimentalismos baratos, ao mesmo tempo em que fazia uma crítica severa às instituições psiquiátricas americanas da época e, indiretamente, ao conservadorismo do Partido Republicano dos EUA. No hospício, Forman dirige o filme como se aquele fosse sua própria casa. Conhece o roteiro e cada personagem dele, e sabe exatamente o que está fazendo. Valendo-se da simplicidade e da honestidade, aqui não há lugar para truques na fotografia, trilha sonora ou ângulos de câmera muito inusitados, nem quaisquer dos demais recursos comumente utilizados por cineastas que querem impressionar. Mais carne e menos gordura – em sintonia com o roteiro, a direção de Um Estranho no Ninho é simples, objetiva e desprovida de floreios, sem pretender chamar atenção para si mesma, realizando apenas o objetivo de transpassar com clareza e sinceridade para a tela a história que tem nas mãos.
Um Estranho no Ninho é também um triunfo na arte da interpretação. Ao fim, Forman conseguiu também se tornar o diretor que todo ator gostaria de ter. Ao formar o elenco, sua intenção era colocar apenas um ator famoso – no papel de McMurphy –, com quem o público poderia se identificar e ter as mesmas impressões a partir do momento em que ele entrasse no hospital, onde os personagens seriam interpretados por atores relativamente desconhecidos. Daí o nome do filme, “Um Estranho no Ninho”, tradução brasileira que, embora não siga o título original em inglês ao pé da letra (seria “Alguém Voou Sobre o Ninho do Cuco”), aplicou-se perfeitamente a todo o contexto. Ao longo da história, todos os personagens, com maior ou menor grau de importância, são apresentados e desenvolvidos com dignidade e naturalidade, fazendo com que o espectador realmente se envolva e crie os mais variados tipos de sentimentos com relação a eles. No hospital, destaque-se as presenças de Danny DeVito (que depois viria a se tornar muito famoso) como o ingênuo e infantil Martini, William Redfield como o excêntrico e individualista Harding, Will Sampson como o corajoso e surpreendente indígena Chief Bromden, Sydney Lassick no papel do sensível e extremamente emotivo Cheswick, e os então iniciantes no cinema Christopher Lloyd, como o agitadíssimo Taber, e Brad Dourif, que interpreta um jovem chamado Billy. Numa atuação sublime, ele converte um simples garoto gago e maluco em um sonhador, paradoxalmente corajoso e amedrontado, e seu destino é responsável por grande parte do estado de indignação que atinge o espectador durante o curso final do filme. Recentemente, Dourif interpretou o vilão Grima Wormtongue em O Senhor dos Anéis: As Duas Torres.
No segundo maior papel do filme está a também iniciante Louise Fletcher, como a inflexível, quase militarística, enfermeira Ratched. Curiosamente, embora Um Estranho no Ninho seja um daqueles poucos filmes tidos como “tão inteligentes” ao mesmo tempo em que são acessíveis a praticamente todo tipo de público, o caráter excepcional da performance de Fletcher nunca foi devidamente apreciado por todos os espectadores. A aversão, como nossa resposta natural à personagem, é tão imperativa que chega a ofuscar a qualidade do trabalho da atriz – o qual, além de tudo, não é uma atuação do tipo “exibicionista”, sem oferecer um modo convencional de espetáculo. Ao contrário de McMurphy, este é um papel tão arriscado e comedido que certamente uma grande parte das atrizes teria se perdido na hora de construí-lo. O que Fletcher concebeu, no entanto, vai além de elogios. Deixou transparecer com perfeição os impulsos dessa mulher que se sente violada quando sua autoridade é questionada, e que encarcerou no rigor todas as características que são capazes de formar uma pessoa – do senso de humanidade à sexualidade. A gradual evolução da sua personagem – de profissional determinada à uma encarnação sádica do mal – se consome em uma terminante e definitiva seqüência de closes no rosto da atriz, no qual a expressão em seus olhos, uma fusão quase transcendental de frieza e reprovação, inunda a tela com toda a perversidade que um ser humano é capaz de possuir. Através do tempo, a personagem se consolidou como um dos maiores vilões do cinema em todos os tempos, embora infelizmente tenha sido o único grande sucesso na carreira de Louise.
E então, há Jack Nicholson. Assim como muitos papéis que definem o ápice de uma carreira, o de Randle McMurphy quase acabou ficando sem ir para Nicholson. A intenção original era contratar James Caan, que havia se tornado um astro após ser indicado ao Oscar por sua participação como um dos filhos de Marlon Brando em O Poderoso Chefão, mas que na época não estava disponível para o papel de Randle. Depois, com Nicholson em seu lugar, o diretor Forman pôde tirar proveito de todo o talento do ator, que se valeu de cada nuance do roteiro para criar um personagem único e imediatamente cativante, perfeito tanto no drama quanto na comédia. Há um momento em que McMurphy reflete por um bom tempo antes de tomar aquela que deve ser a decisão mais importante de toda a sua vida, e sem um único diálogo ou movimento de câmera, a cena se constrói inteiramente sobre a expressão profunda e contemplativa do ator, em seu diálogo interior. Ao fim, o incomparável trabalho de Nicholson aqui foi reconhecido como uma das maiores interpretações na história do cinema, e merecidamente. O efeito cumulativo do que ele realizou neste filme resultou numa interpretação sensacional. É um tanto difícil achar qual seria “o” maior papel na carreira de um intérprete do calibre de Jack Nicholson, mas o de Randle McMurphy é certamente um dos mais importantes, ao lado de suas atuações em filmes como Sem Destino, Cada Um Vive Como Quer, A Última Missão, Chinatown, Profissão: Repórter, Reds, O Iluminado, A Honra do Poderoso Prizzi, Ironweed, As Bruxas de Eastwick, Batman, Questão de Honra, As Confissões de Schmidt, Alguém Tem Que Ceder, Laços de Ternura e Melhor é Impossível, estes dois últimos do diretor James L. Brooks, e pelos quais Nicholson ganhou seus segundo e terceiro Oscar, de Melhor Ator Coadjuvante em 1984 e Melhor Ator em 1998, respectivamente.
E quanto à produção, por fim, há também o primor pela naturalidade. Os cenários são reais, a edição permite que os acontecimentos se desenrolem da maneira mais simples e inteligente, a fotografia realista dos grandes Haskell Wexler e Bill Butler é a ideal, e a pitoresca – mas belíssima – música de Jack Nitzsche pontua o filme de maneira sutil e sensível, sem roubar cenas. Após ser formidavelmente aclamado por crítica e público e fazer muito sucesso na maioria das premiações – dentre elas o Globo de Ouro (EUA) e o BAFTA (Inglaterra), Um Estranho no Ninho teve seu momento definitivo de consagração na noite de 29 de março de 1976, quando venceu em cinco das nove categorias a que concorreu no Oscar. Ganhou por Melhor Roteiro Adaptado, para Bo Goldman e Laurence Hauben, Melhor Ator, para Jack Nicholson, Melhor Atriz, para Louise Fletcher, Melhor Diretor, para Milos Forman, e é claro, Melhor Filme, para os produtores Saul Zaentz e Michael Douglas. As indicações restantes foram Melhor Ator Coadjuvante, para Brad Dourif, Melhor Trilha Sonora, para Jack Nitzsche, Melhor Fotografia e Melhor Edição. A vitória nas cinco categorias principais – Filme, Diretor, Ator, Atriz e Roteiro – foi memorável, já que apenas dois outros filmes conseguiram realizar tal façanha: a bela comédia romântica Aconteceu Naquela Noite (1934), de Frank Capra, com Clark Gable e Claudette Colbert no elenco; e o inesquecível suspense policial O Silêncio dos Inocentes (1991), de Jonathan Demme, com Jodie Foster e Anthony Hopkins. Felizmente, todos os três filmes mereceram o distinto reconhecimento, que não conseguiu ser ofuscado pelos constantes erros e injustiças cometidos pela Academia ano após ano.
Nove anos depois, Milos Forman recebeu mais um Oscar de Melhor Direção, pelo soberbo Amadeus, também vencedor como Melhor Filme, no qual ilustrou com maestria a história de Wolfgang Amadeus Mozart, o grande compositor, e seu arqui-rival Antonio Salieri. Forman é um cineasta excepcional, e responsável por pelo menos duas obras-primas que agraciaram e enriqueceram a sétima arte. Um Estranho no Ninho, de longe a mais aclamada delas, trata da natureza humana com sinceridade e irreverência ímpares. É um filme indispensável para ser visto, revisto e ficar na memória de qualquer cinéfilo ou apenas apreciador de bons filmes, e se você assistiu e gostou de Garota, Interrompida, Patch Adams, Tempo de Despertar ou do brasileiro Bicho de Sete Cabeças, não perca este aqui.
Guilherme Zeffirelli |
|