FEMME FATALE (Femme Fatale, EUA, 2002)
Gênero: Suspense
Duração: 110 min.
Elenco: Rebecca Romijn-Stamos, Antonio Banderas, Peter Coyote, Eriq Ebouaney, Edouard Montoute, Rie Rasmussen, Thierry Frémont, Olivier Albou
Compositor: Ryuichi Sakamoto
Roteirista: Brian De Palma
Diretor: Brian De Palma

A Volta (por cima) de De Palma 

Depois de vários fracassos, Brian De Palma volta ao gênero que o consagrou com uma obra-prima  

Se ainda existem diretores peculiares e anti-comerciais em Hollywood, Brian De Palma é um deles. Fazendo a maioria de seus filmes longe da terra onde se consagrou, vive dando declarações polêmicas e bombásticas na mídia - já chegou a criticar até mesmo Sam Raimi e seu HOMEM-ARANHA 2, dizendo ser um projeto absolutamente sem razão de existência.

Após uma longa crise, fazendo filmes catastróficos seguidamente, entre eles o ridículo MISSÃO: MARTE, De Palma voltou ao gênero que o consagrou - os thrillers eróticos e de espionagem. Filmando com grande elegância e diversas referências ao cinema de Alfred Hitchcock, assumidamente seu mestre, ele consegue criar, provavelmente, a maior obra-prima do ano.

FEMME FATALE é mais elegante que os filmes do diretor na década de 80 - tem até mesmo uma passagem de quase 20 minutos orquestrada e sem diálogos (eles existem, mas são poucos). A câmera de De Palma desliza em detalhes, pára em horas importantes e acompanha várias cenas com seus cortes rápidos. Não é um experimento cinematográfico, já que muitas dessas "peripécias" já são comuns em filmes de gente como Darren Aronofsky.

Mas o que interessa de verdade é a qualidade do roteiro, escrito pelo próprio De Palma. Na contramão dos típicos suspenses hollywoodianos, não se importa em criar uma reviravolta inacreditável ao final do filme, que joga fora toda a coerência antes pensada pelo espectador. Pode-se dizer, sem medo, que FEMME FATALE é irmão gêmeo de CIDADE DOS SONHOS, de David Lynch.

A diferença é que o filme de De Palma é um suspense ao estilo de Hitchcock, porém um pouco mais "hardcore". Enquanto Lynch se preocupava em criar uma trama surreal e non-sense, a reviravolta final de FEMME FATALE ainda é facilmente entendível e explicável. Acompanhamos a personagem de Rebecca Romijn-Stamos (do ainda inédito no Brasil SIMONE), uma verdadeira Femme Fatale. Durante um assalto no Festival de Cannes, ela trai os parceiros e sai com os diamantes pretendidos pelo grupo. A partir daí, qualquer coisa que seja contada irá estragar a percepção do leitor ao assistir o filme.

A impressão que temos é que, assim como David Lynch, Brian de Palma não se importa em não cair nas graças do público e da crítica moralista estadunidense (vale lembrar que mesmo assim o filme não foi fracasso de crítica, como alguns dizem). Seria espantoso se o público adorador de filmes como CASAMENTO GREGO e UMA MENTE BRILHANTE fosse ao cinema para ver reviravoltas inacreditáveis e cenas de sexo quase explícito.

Por falar nisso, Rebecca Romijn-Stamos merece um parágrafo em especial. Após esse ano, no qual atingiu o estrelato, parecerá impossível negar que é a atriz mais bonita da atualidade. Já disse isso de muitas outras personalidades, mas é só assistir a FEMME FATALE e conferir. Além disso, sua performance é surpreendente, levando o filme como o esperado por De Palma.

Inegável também é a qualidade da trilha sonora de Ryuichi Sakamoto, psicodélica ao extremo, lembrando a apresentada em filmes como RÉQUIEM PARA UM SONHO. Seu aspecto técnico é brilhante, embora também não seja agradável para o público típico, amante de bandas pops da MTV.

Para encerrar, gostaria de dizer que FEMME FATALE é um filme recomendado para quem gosta do bom cinema em geral - Não só de filmes parecidos, como CIDADE DOS SONHOS, mas filmes de qualquer aspecto que não subestimem a inteligência do espectador. Filmes de diretores que tenham coragem suficiente para negar o sucesso comercial em nome da qualidade das obras.

De qualquer forma, a presença de Romijn-Stamos já valeria o ingresso.

Cotação:
Carlos Massari
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