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ACREDITE, UM ESPÍRITO BAIXOU EM MIM (Brasil, 2006)
Gênero: Comédia
Duração: 94 min.
Elenco: Ilvio Amaral,
Maurício Canguçu, Marília Pêra, Arlete Salles, Cláudia Mauro, Nélson
Freitas, Cássio Scapin, Nany People, Suely Franco, Bemvindo Siqueira,
Ronaldo Ciambroni
Compositor: Vandder Lima
Roteiristas: Ronaldo Ciambroni, Rodrigo Campos
Diretor: Jorge Moreno |
Inacreditável!
Mais uma
adaptação de peça teatral bem sucedida vira um filme ruim - pior que isso,
lastimável
Nos últimos anos, têm-se observado uma feliz
tendência do cinema brasileiro em flertar com o teatro, adaptando peças
bem-sucedidas nos palcos e levando-as à tela grande. Infelizmente, porém, o
resultado dessas adaptações, em sua esmagadora maioria, vêm deixando - e muito -
a desejar, e não são poucas as adaptações que fracassam em sua empreitada - vide
os recentes casos de A Dona da História,
Irma Vap - o RETORNO
e outros exemplos.
Acredite, um espírito baixou em mim
é mais um exemplo de adaptação de uma peça que igualmente fracassa em sua
chegada aos cinemas. É, provavelmente, a pior adaptação de todas da safra
recente e aquela cujo motivo de seu mau resultado sejam o mais imperdoável de
todos: afinal, se, em A Dona da História
e Irma Vap - o RETORNO
seus diretores, ao menos, compreenderam que cinema e teatro são linguagens
diferentes, aqui o total desconhecimento dessa realidade soa gritante, e o que
se observa nas telas é a impressão de que, aparentemente, seus realizadores
limitaram-se a filmar o texto como se fazer um filme fosse meramente realizar um
vídeo amador da peça para apresentar a grupos fechados. Para tal, recorreram,
para citar apenas os problemas mais graves, a interpretações em sua maioria
calamitosas e a cenários de um mau-gosto atroz.
É constrangedor ver Marília Pera resvalando para a caricatura na versão cômica
da mãe que está enterrando seu filho, e triste ver uma boa atriz como Cláudia
Mauro escorregar feio na tentativa de fazer um tipo característico na figura da
noiva chata de um dos protagonistas. Pior ainda é o estereótipo vergonhoso do
homossexual oferecido por Ílvio Amaral - um ator desconhecido que bem merece
permanecer nessa condição por mais algum tempo. Poucos são os atores do elenco a
acertarem o tom de seus personagens, e os raros que conseguem são exatamente
aqueles que buscam os tons mais discretos e introspectivos - um surpreendente
Nelson Freitas, Arlete Salles (sem papel), Bemvindo Sequeira e Suely Franco,
inteiramente desperdiçados como os pais dos personagens de Freitas e Mauro.
Quanto aos cenários, são tão ruins que chegam a ser constrangedores: o
apartamento do co-protagonista Vicente (Maurício Canguçu, que comete erros em
sua interpretação mas não está tão ruim quanto outros do elenco) é provavelmente
o pior cenário já visto nas telas sabe-se lá desde quando! De 28 de dezembro de
1895 para cá, talvez... Que cor é aquela das paredes, que além de horríveis não
condizem em nada com o clima (supostamente leve) do filme, nem com o perfil do
personagem que lá habita e que, de tão ruim, ainda acaba por desviar o foco da
atenção do público da situação dos personagens? E o céu por onde transita o Lolô
de Ílvio Amaral? Será mesmo que seus idealizadores acreditarem que aquelas
nuvens sob o fundo azul e o grande centro urbano ao fundo poderiam ser
entendidas como o céu? E o que dizer dos cartazinhos de mudança de cena, que
parecem ser pôsteres de colégio infantil informando onde se situa cada sala de
aula? Tudo isso sob a luz de uma fotografia bisonha, vergonhosa, hedionda de
ruim!
Não assistimos à versão teatral de
Acredite, um espírito baixou em mim. Mas, seja a peça de boa qualidade ou
não, não há muito o que falar dessa versão cinematográfica a não ser lamentarmos
a confusão que seus realizadores fizeram a respeito dessas duas linguagens tão
específicas como a do cinema e a do teatro, desrespeitando a ambas - ao teatro,
por não haver tido interesse em perpetuar cinematograficamente uma peça de
sucesso através de uma obra de qualidade; e ao cinema, por nitidamente suporem
que, para se fazer um filme, bastaria reunir atores ruins em um cenário medonho
sob uma iluminação indigente, com pouco dinheiro e uma preparação menor ainda e,
depois, levar tal resultado ao público. Simplesmente lastimável!
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