Primeira Impressão
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Título original: ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO
Gênero: Terror
Duração: 85 MIN.
Estréia - Brasil: 08/08/2008
Distribuidora: Fox Filmes
Direção: José Mojica Marins
Roteiro: José Mojica Marins, Dennison Ramalho
Compositores: André Abujamra, Marcio Nigro
Produção: Paulo Sacramento, Debora Ivanov, Caio Gullane, Fabiano Gullane
Site oficial: http://www.encarnacaododemonio.com.br/
Elenco: José Mojica Marins, Milhem Cortaz, Jece Valadão, Giulio Lopes, Luís Melo, Débora Muniz, Rui Resende, José Celso Martinez Corrêa

05 de agosto de 2008

ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO

Sangue, suor e as tripas que sobraram no açougue

O cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão, não aprecia muito a expressão "trash" para definir seus filmes. Não deixa de ser curiosa essa antipatia pelo termo, porque a expressão traduz o que há de melhor nos filmes do cineasta e sua própria maneira de filmar: uma deliciosa narrativa feita propositalmente de forma "mal-ajambrada", com muitas cenas sanguinolentas tão escancaradamente mal-feitas que ampliam e muito a diversão (no caso do filme em questão, o sangue tem a mesma tonalidade de xarope de groselha), um festival de mulheres peladas exibindo seus corpos (nem sempre em forma) de um jeito tão over e demodé que se torna até mesmo engraçado, interpretações intencionalmente exageradas, um "passadinho" para os personagens que sugere que o roteirista pensava que, com isso, iria injetar história e justificativas para aqueles que criou e suas ações... esse coquetel fez a fama do estilo trash e, por menos que Zé do Caixão não aprecie tal termo, não há como não dizer que a razão do sucesso e da qualidade de seu mais recente filme - ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO, que estréia neste 8 de agosto - é o fato de ser um trash movie até a raiz da medula.

Mojica planejava realizar esse filme desde o final dos anos 60 - só conseguiu fazê-lo agora, quase 40 anos depois. O descaso que enfrentou no início de sua carreira, e a burocracia que sofreu durante décadas, provavelmente fizeram com que se sentisse aprisionado. Sendo hoje o cineasta merecidamente reconhecido e admirado que é, é impressionante observar como Mojica soube lidar com isso e trabalhar utilizando as próprias dificuldades e a sensação de aprisionamento a seu favor - o que sempre fez através de seu estilo e na forma como viabilizou todos os seus filmes, mas que agora, em sua nova realização, colocou até mesmo no roteiro e na estrutura narrativa: pois ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO começa exatamente com Zé do Caixão sendo libertado, após haver passado anos em nenhum outro lugar que não fosse... na cadeia, aprisionado. E, de volta às ruas, mas ainda perseguido pela polícia, Zé do Caixão comprova que continua a ser o mesmo ser terrível de antes: sádico, louco, malvado, perverso e pervertido. E, exatamente por isso, adorável.

Zé do Caixão, na verdade, não é nem um herói, nem um vilão - afinal, o internacionalmente conhecido Coffin Joe comete maldades e atrocidades, sim, algumas até bem bravas. Ao mesmo tempo, porém, é impossível não se identificar com ele, não torcer contra os homens da lei (Adriano Stuart e Jece Valadão, este em seu último trabalho) que querem capturá-lo - mesmo que Zé do Caixão seja, realmente, um torturador sádico. E são dois os motivos dessa empatia, que tornaram Zé do Caixão uma personalidade conhecida e adorada mundialmente. Um é o carisma de José Mojica Marins, homem simples no dia-a-dia, calmo, simpático, bem-educado, que, não fosse pelas unhas imensas, passaria tranquilamente como um ser humano normal (he he he). O outro é o próprio estilo de Mojica filmar, usando, abusando e usando de novo os ingredientes do cinema trash - que, por mais que ele odeie o termo, adora todo o restante no que diz respeito ao estilo. E, como boa cria do cinema trash, ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO não é um filme para justificativas racionais - é para ir ver, assistir, se divertir (muito) e depois ir ver de novo.

Carlos Dunham

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