Primeira Impressão
www.scoretrack.net

Título original: Public Enemies
Ano de Lançamento (EUA): 2009
Distribuidora: Universal
Duração: 143 MIN.
Gênero: POLICIAL, DRAMA
Diretor: MICHAEL MANN
Roteiristas: Ronan Bennett, Michael Mann, Ann Biderman, Bryan Burrough
Produtores: G. Mac Brown, Bryan H. Carroll, Gusmano Cesaretti, Kevin De La Noy, Robert De Niro, Michael Mann
Fotografia: Dante Spinotti
Desenhista de Produção: Nathan Crowley
Editores: Jeffrey Ford, Paul Rubell
Compositor: Elliot Goldenthal
Figurinista: Colleen Atwood
Elenco: Christian Bale, Johnny Depp, Channing Tatum, Emilie de Ravin, Leelee Sobieski, Marion Cotillard, Billy Crudup, Giovanni Ribisi, David Wenham, Stephen Dorff, Rory Cochrane, Lili Taylor, Stephen Lang, Shawn Hatosy, Stephen Graham

22 de julho de 2009

INIMIGOS PÚBLICOS

Público inimigo

Michael Mann é um cineasta que começou no cinema de ação e que, hoje, já comprovou ser um dos melhores diretores no sentido de pegar um tema até certo ponto banal e inserir na realização uma grandeza muito maior do que qualquer outro cineasta contemporâneo faria - e o exemplo maior talvez seja o magnífico COLATERAL, que nas mãos da quase totalidade dos cineastas em atividade no mundo seria apenas mais um filmete de ação mas que, dirigido por Mann, adquiriu uma grandeza que elevou o filme à condição de registro sobre o cotidiano de uma grande cidade.

Fazer obras-primas baseando-se em estilos e temáticas já consagradas e material primoroso não chega a ser algo tão surpreendente assim - contudo, esse dom de converter o banal em grandioso é algo que praticamente não existe mais no cinema contemporâneo, mas foi exatamente o que, na primeira metade do Século XX, transformou o Cinema na arte que hoje é, graças ao trabalho de gênios absolutos que tinham exatamente esse dom, e que fizeram alguns dos maiores filmes da História baseados em material que, à primeira vista ou nas mãos de outros (os remakes que o digam), seria lixo sem quase nenhum valor - Michael Curtiz, William A. Wellman, Raoul Walsh, o Mestre dos Mestres, o Mestre John Ford... autores de algumas das maiores obras-primas já criadas pelo Planeta Cinema, e que frequentemente as realizaram tendo por base, às vezes, até mesmo o zero absoluto.

Bem, principalmente através de COLATERAL, Michael Mann deu mostras que poderia ser, talvez, o primeiro cineasta a enquadrar-se nessa categoria em muitos anos - como Stanley Kubrick conseguira em sua época, e Steven Spielberg e Joel Coen, mais recentemente. O problema é que, infelizmente, pela segunda vez consecutiva Mann tem demonstrado permitir-se dominar pela técnica - foi assim em MIAMI VICE, que começou grandioso em seus primeiros minutos mas acabou revelando-se um mero filme de ação com uma fotografia ampla e uma sonoplastia portentosa. E é assim agora, em INIMIGOS PÚBLICOS, que estréia dia 24 de julho no Brasil.

INIMIGOS PÚBLICOS retoma um gênero que há muito tempo já havia sido esquecido pelo cinema, mas que foi um dos favoritos justamente de gente como Michael Curtiz e outro grande cineasta que transformou o simples em fenomenal, Howard Hawks - o filme de gangster. E é em pequenos detalhes que fica comprovada a diferença entre Mann e os gênios de 70 anos atrás - nos filmes de Curtiz, o gangster era carismático e era comum que o público simpatizasse com ele, sim. Mas isso se dava de forma sutil, pelo carisma do ator e da interpretação, não por uma tentativa de "passar um recibo" da simpatia de alguém que matava pessoas e roubava bancos. Mann, por sua vez, comete um erro grave, tentando insistentemente glamourizar a figura de seu protagonista - o terrível John Dillinger, que aterrorizou Chicago no início da década de 30 - de forma que chega a causar incômodo à platéia, e não fascínio. E, como durante toda a metragem, Dillinger está lá, exercendo seus atos perversos, trama e direção começam a traçar um discreto (porém crucial) conflito entre si. Paradoxalmente, esse erro era o que menos Michael Mann precisaria ter cometido: afinal, o personagem foi confiado a Johnny Depp, um dos melhores atores do mundo e talvez o maior para atrair uma simpatia para personagens marginais - em todos os sentidos dessa palavra - sem que seja preciso glamourizar os atos ou a figura destes homens.

E, para se ter uma idéia de como Mann foi recorrente em sua tentativa de glamourização, é impossível não repudiar a cena em que um médico é impedido de atender um marginal que havia recebido um tiro na cabeça porque os policiais interessados na captura de Dillinger - ou seja, os heróis da trama - queriam primeiro extrair informações do criminoso, chegando a dar voz de prisão ao médico caso ele insistisse em atender ao doente. Ironicamente, momentos depois esses mesmos policiais impedem um colega de esbofetear a namorada de Dillinger, vivida por Marion Cotillard - o que é obviamente errado, mas que moral esses policiais teriam para agir assim? Nos filmes de gangster que os gênios do cinema fizeram, heróis e bandidos se confundiam e todos cometiam bondades e maldades. Mas era algo que vinha espontaneamente, sem que fosse preciso glamourizar o crime ou transformar em herói carismático um inimigo público. Michael Mann, realmente, não chega sequer aos pés dos gênios que transformaram os filmes de gangster em um gênero imponente e o Cinema na maior das Artes.

Carlos Dunham
 

PRIMEIRA IMPRESSÃO
VOLTAR PARA A PÁGINA INICIAL