Primeira Impressão
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Gênero: DRAMA
Ano de Lançamento (Brasil): 2009
Distribuição: SONY PICTURES
Diretor: JEREMIAS MOREIRA
Roteiristas: CARLOS NASCIMBENI, JEREMIAS MOREIRA
Produtor: MORACY DO VAL
Compositor: NELSON AYRES
Fotografia: PEDRO FARKAS
Elenco: DANIEL, VANESSA GIÁCOMO, JOSÉ DE ABREU, JOÃO PEDRO CARVALHO

02 de março de 2009

O MENINO DA PORTEIRA

Abrindo a porteira do coração

Em 1976, ainda na extinta época em que ninguém dava valor ao universo sertanejo, um jovem e desconhecido diretor, Jeremias Moreira Filho, estreava no cinema com um projeto tão inédito quanto arrojado - arrojado por levar para a tela grande o cotidiano simples do homem do campo, em plena época da pornochanchada e do rock and roll. E inédito porque o seu filme era adaptado não de um livro, ou de uma peça, ou de outro filme, mas sim de uma canção - homônima, aliás: "O Menino da Porteira", tão linda que rapidamente se tornou um clássico do cancioneiro rural.

O projeto era simples porém paradoxalmente difícil, mas o sucesso do filme foi tão grande que O MENINO DA PORTEIRA se converteu instantaneamente em um clássico. Assim, é extremamente merecido que, 33 anos depois, quando o universo rural e a música sertaneja já conquistaram na mídia brasileira - e até mesmo mundial - o espaço que sempre mereceram, O MENINO DA PORTEIRA ganhe um remake, que estréia no próximo dia 6 de março, com toda a evolução técnica que essas três décadas de distância permitiram que o cinema brasileiro conquistasse.

Bem, esse remake foi feito, e já se candidata, talvez, a um dos melhores filmes brasileiros do ano - e muito bem realizado, aliás - em todos os sentidos: assim como no primeiro filme, o personagem-título coube a um estreante - João Pedro Carvalho interpreta aqui o papel que, na versão anterior, coube ao já desencarnado Márcio Costa. Já para o papel do principal protagonista adulto, nada mais justo que a escolha de um cantor - se, em 1976, foi Sérgio Reis o responsável por interpretar o cantador Diogo, agora é Daniel quem se incumbe do papel. E, como detalhe (e curiosidade) extra, o diretor dessa nova versão é o mesmo Jeremias Moreira Filho do filme anterior.

A escolha de Daniel e do menino estreante confirmam que esse novo O MENINO DA PORTEIRA teve sabedoria suficiente para selecionar os fatores que fizeram com que a versão original se convertesse em um clássico instantâneo - e, mais que os critérios de escalação do elenco, dois outros aspectos de destacam: um deles é a pureza com que o cineasta conduz a narrativa, provando que seu filme - adaptado, afinal, de uma letra de música - é, acima de qualquer outra coisa, um verdadeiro poema sertanejo, com toda a pureza e simplicidade das coisas do campo que (o filme e o público) tem direito.

O outro aspecto, intimamente ligado a este primeiro, é a completa integração entre o cinema e a música. Embora, como em outros filmes do cinema rural (microgênero que bem merecia ser mais explorado pelos cineastas brasileiros), muitos aspectos de O MENINO DA PORTEIRA nos remetam ao imaginário do western, ou qualquer que seja o termo equivalente para uma obra situada no interior do Brasil, o filme em questão é um musical por excelência - mas não um musical ao estilo de tantos (maravilhosos) exemplos, onde os personagens param as cenas para cantar, dançar e encantar. O MENINO DA PORTEIRA é um musical ao estilo das cinebiografias, onde a música, o canto, o encanto e a dança estão tão integrados ao cotidiano dos personagens que nada é mais natural do que a existência destes itens.

E, demonstrando sabedoria e conhecimento desta qualidade de seu filme, o diretor Jeremias Moreira Filho parece ter escolhido a trilha sonora a dedo - as canções de O MENINO DA PORTEIRA estão entre as mais lindas dos últimos tempos, quiçá de toda a história do cinema feito no país. E ouvir Daniel cantando a música que originou ambos os filmes é um privilégio maior até que o de ouvir Sinatra cantando "All the Way" em CHOREI POR VOCÊ. Talvez o maior cantor solo do país, Daniel é a verdadeira alma do filme, e o repertório que ele, Jeremias Moreira Filho e o compositor Nelson Ayres (estreando no universo sertanejo) criaram para O MENINO DA PORTEIRA, são dignos de disputar o título de mais bela trilha sonora de toda a história do cinema brasileiro. A propósito, o produtor do CD da trilha é o experiente Moracy do Val, que além de ter produzido o próprio filme O Menino da Porteira (tanto a versão antiga como a atual), foi também o responsável pela criação e "descobrimento" do grupo Secos & Molhados, nos anos 1970.

Carlos Dunham

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