Primeira Impressão
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Título Original: Okuribito
Gênero: DRAMA
Tempo de Duração: 130 MIN.
Ano de Lançamento (JAPÃO): 2008
Distribuição: PARIS FILMES
Diretor: Yojiro Takita
Roteirista: Kundo Koyama
Produtores:Toshiaki Nakazawa, Toshihisa Watai e Ichirô Nobukuni
Compositor: JOE HISAISHI
Fotografia: Takeshi Hamada
Elenco: Masahiro Motoki, Tsutomu Yamazaki, Ryoko Hirosue, Kazuko Yoshiyuki, Kimiko Yo, Takashi Sasano

02 de junho de 2009

A PARTIDA

Uma sinfonia à vida e a tudo o que vem e que passa

Ao contrário do que ocorre na maioria dos países ocidentais, no Japão não há dúvida alguma que a morte do corpo é apenas um rito de passagem entre dois planos da existência. Até por isso, não deixa de ser ligeiramente paradoxal que os japoneses sejam um povo tão preocupado em estar com uma boa aparência física no momento do desencarne - e a profissão de maquiadores de recém-falecidos não é rara por lá.

Não é rara, mas também não é vista com muitos bons olhos - e por um motivo muito simples: preconceito. Em A PARTIDA, que estréia no próximo dia 5 de junho, quando o jovem Daigo Kobayashi consegue um emprego na área, sua primeira preocupação é o de esconder isso de todos, principalmente da jovem esposa, Mika. Esconder coisas do cônjuge pode parecer algo vão e até mesmo desleal, mas os fatos comprovam que Daigo não deixa de ter suas razões - quando Mika descobre, fica contra o marido e quer porque quer que ele abandone o emprego.

Lendo-se esse plot, pode-se ter a impressão que A PARTIDA seria um filme mórbido, ou até mesmo pesadão. Não, não é: é um dos filmes mais leves dos últimos anos, que situa sua trama no sinistro ambiente das casas funerárias para fazer uma bela elegia não necessariamente ao rito de passagem que representa a ida da vida para a morte, mas a todos os ritos de passagem que acumulamos em nossas existências - como, por exemplo, a necessidade de ter que abandonar algo que gostamos, meramente por questões econômicas (Daigo e Mika estão "grávidos" de seu primeiro nenê), para iniciarmos uma atividade profissional em uma área que, a princípio, pode nos incomodar - e muito.

Daigo é um músico que não consegue sobreviver da arte, e o diretor Yojiro Takita demonstra sagacidade ao utilizar a música de Joe Hisaishi como um dos ingredientes que acompanham os passos do protagonista em sua nova - e sigilosa - jornada - repleta de adágios belos, animadores, positivos. Outro ingrediente técnico de que o diretor se serve com absoluta precisão é a deslumbrante fotografia, a cargo de Takeshi Hamada, que não apresenta um único fotograma que seja "para baixo" ou assustador, ou que reforçasse a idéia de morte na interpretação ocidental do tema: ao contrário, o cineasta valoriza os tons leves, principalmente o azul, convertendo A PARTIDA em um filme que exalta e valoriza a idéia de doçura - uma doçura que combina perfeitamente com o temperamento da dupla de protagonistas e da forma como eles conduzem suas vidas.

Sendo um violoncelista, certamente Daigo preferiria passar toda a sua vida como músico - mas sua orquestra fecha, a esposa está grávida, e ele se vê forçado pelas circunstâncias a trabalhar em algo que não gosta. Rejeitado pelo pai na infância, certamente quer que seu filho se orgulhe dele - como alguém que tem condições de dar-lhe um sustento de qualidade mas também como alguém que não abandona suas convicções. É uma situação difícil, e tanto ele quanto sua Mika descobrem que terão que lidar com isso. A PARTIDA se sai brilhantemente de sua análise a tal questão, sobre como superar dificuldades que a vida nos impõe e que, com o tempo, revelam-se tão simples quão sugeriam-se complexas no momento em que estavam presentes. Nada melhor que ambientar o filme no ambiente do mais simbólico de todos os ritos de passagem para se compreender isso.

E uma curiosidade: quando o Oscar de melhor filme estrangeiro ainda não era uma categoria competitiva, o cinema japonês conquistou três vezes o prêmio da categoria - em 1951, 1954 e 1955. Agora, com A PARTIDA, no 81º Oscar, finalmente o Japão, país que já deu ao Cinema Akira Kurosawa e Yasujiro Ozu, levou um Oscar competitivo de melhor filme estrangeiro. E bastante merecido.

Carlos Dunham

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