Primeira Impressão
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Título Original: THE X-FILES - I WANT TO BELIEVE

Gênero: SUSPENSE, FICÇÃO CIENTÍFICA

Tempo de Duração: 99 MIN.

Ano de Lançamento (EUA): 2008

Distribuição: FOX filmes

Diretor: Chris Carter

Roteiristas: Frank Spotnitz, Chris Carter

Produtor: Chris Carter

Compositor: MARK SNOW

Elenco: David Duchovny, Gillian Anderson, Amanda Peet, Billy Connolly, Callum Keith Rennie, Mitch Pileggi, Adam Godley

21 de julho de 2008

ARQUIVO X - EU QUERO ACREDITAR

Suspense correto e de viés preconceituoso

Produzida de 1993 a 2002, ARQUIVO X foi uma das séries para a TV mais populares dos anos 1990 - talvez, até, a mais popular de todas. A popularidade era tamanha que, em 1998, no auge do seu sucesso, chegou a render um longa-metragem - ARQUIVO X - O FILME - cuja repercussão foi apenas mediana. Curiosamente, seis anos após o encerramento do seriado e exatos dez anos após o primeiro filme, a 20th Century-Fox (produtora e distribuidora do seriado e do longa-metragem original) surpreende fãs e não-fãs ao lançar, nos cinemas, mais um filme da franquia.

Para os admiradores da obra original tudo indica que ARQUIVO X - EU QUERO ACREDITAR, dirigido pelo criador da série, Chris Carter, será um grande sucesso. Entretanto, por mais numerosos que sejam estes, também há muitos que não nutrem fascinação maior pelo seriado - e estes certamente conseguirão analisar o filme com um distanciamento que, sem dúvida, será altamente benéfico, e que provavelmente levará a uma conclusão predominante: este longa-metragem aqui não é de todo ruim (pelo menos não do ponto de vista técnico), mas não passa de um suspense correto que, se comete poucos erros, incorre, em contrapartida, em um equívoco ainda maior que vários eventuais errinhos pequenos - o medo de arriscar. Devido a essa característica, ARQUIVO X - EU QUERO ACREDITAR patina no banal e raras são as vezes em que o filme demonstra ser capaz de ir além do que apresenta. Há exceções, sim, como no passado em comum dos protagonistas, os ex-agentes do FBI Dana Scully (Gillian Anderson) e Fox Mulder (David Duchovny): eles tiveram um filho e o perderam; e, no caso de Fox, o ex-investigador tem, igualmente, uma irmã desaparecida. Isso dá uma dimensão extra aos personagens, e valoriza seus protagonistas. Mas é um caso isolado. Fora pequenos detalhes como esse, o filme patina no óbvio de forma atroz.

A obviedade, porém, está longe de ser o grande problema de ARQUIVO X: pior que todos os equívocos técnicos é a incômoda visão preconceituosa que permeia boa parte do roteiro do filme, e a naturalidade com que a realização normaliza tais preconceitos: primeiramente, o filme apresenta dois personagens que são padres católicos - um deles é pedófilo e fumante; o outro, em determinado momento, chega ao cúmulo de fazer uma inacreditável defesa da eutanásia - conceitos que, diga-se de passagem, vão contra os fundamentos da Igreja que os personagens representam. Tal postura, principalmente no caso da pedofilia, acaba por fomentar a teoria preconceituosa de que todo padre estaria envolvido em sexo com crianças, o que é não apenas falso como absurdo. E, como se não bastasse, a personagem de Gillian Anderson (que, além de ex-agente do FBI, é também médica), no filme, luta para salvar uma criança de uma doença terminal. Para tal, recorre a uma tema polêmico, o uso de células tronco, em ARQUIVO X apresentado como a única esperança para se salvar a criança - sem que o filme em momento algum esclareça se tal pesquisa, em sua trama, está custando a vida de embriões ou não.

E as pinceladas preconceituosas do filme não param por aí: à medida que a trama vai sendo revelada, descobre-se que a dupla de assassinos que Mulder e Scully tentam capturar nada mais é que um casal de homossexuais. A descoberta dessa condição nos remete ao momento, logo no início da trama, em que Scully tentava com justiça conquistar garantias para desenvolver o tratamento médico da criança que cuidava - e aonde a personagem que dificulta sua luta, perante a bancada que analisa o caso, é uma mulher negra. Finalizando, o filme aborda de forma até certo ponto gratuita uma questão delicadíssima: o tráfico de órgãos, uma triste realidade contemporânea que precisa, sim, ser enfocada pelo cinema. Mas de uma forma mais consistente do que a apresentada pelo filme, e que não faça com que os espectadores fiquem mais assustados com as cirurgias de transplantes de órgãos que com o tráfico em si. Por tudo isso ARQUIVO X - EU QUERO ACREDITAR, que estréia nos EUA e aqui no próximo 25 de julho, se compromete muito enquanto cinema, e, por mais óbvio que seja enquanto realização, tem seu maior defeito na forma preconceituosa e leviana com que enfoca os temas que aborda.

Carlos Dunham

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