ALTA FREQüÊNCIA (Frequency, EUA, 2000)
Gênero: Ficção Científica
Duração: 118 min.
Estúdio: New Line
Elenco: Dennis Quaid, Shawn Doyle, Elizabeth Mitchell, Andre Braugher, James Caviezel, Noah Emmerich, Melissa Errico, Daniel Henson
Compositor: Michael Kamen
Roteirista: Toby Emmerich
Diretor: Gregory Hoblit

Nas ondas do rádio 

Bem dirigida mistura de gêneros rende filme acima da média que, injustamente, passou despercebido por aqui

O bom cinema americano de entretenimento sempre utilizou-se da perspectiva daquilo que está além do real. Podemos dizer mais: grandes diretores e inquietos criadores de histórias sempre brincaram com o complexo, todavia amplo, conceito de "tempo". Alta Freqüência, dirigido por Gregory Hoblit e escrito por Toby Emmerich, é mais um bom exercício tendo esse conceito como ponto fundamental.

Possuindo como objeto de ligação um velho rádio, pai - na década de sessenta, e filho - na década de noventa, passam a se comunicar, sem saber inicialmente que o estavam fazendo na mesma casa, na mesma mesa e por meio do mesmo rádio. Com a descoberta, John, o filho, faz com que o pai, Frank, bombeiro, salve-se do acidente que ocorreria dias depois e que determinaria sua morte. Assim, a história e a vida de ambos é modificada (em um insight à la De Volta Para o Futuro), determinando variações e conseqüências perigosas para o destino que se seguiria.

A cada noite de contato com o pai, John se descobre acordando em um dia seguinte cujas lembranças e acontecimentos do passado (e, por conseguinte, do presente) são diferentes. A partir daí, um assassino acaba não tendo seu fim, que, por um sutil arranjo do roteiro, seria determinado pela própria morte de Frank, e pai e filho têm que consertar o que foi feito auxiliando-se mutuamente, cada um em uma época. Muito do entrelaçamento da história é definido pelo elemento baseball, algo conceitual, como também é o fogo dentro do filme. A paixão pelo jogo é presente nas entranhas da trama; partidas, bem como a própria história do esporte, servem como ágeis fatores de esclarecimento e andamento do roteiro.

O diretor Gregory Hoblit (Possuídos e A Guerra de Hart) é um convicto construtor de histórias sobre o homem simples americano e seus valores; é também um construtor de eventos que, dentro de um mundo real, fogem da própria realidade. Flertando com a fantasia, seria ele um autêntico discípulo do cinema clássico americano e também da geração Amazing Stories - Phil Joanou, Steven Spielberg, Bob Zemeckis (poderia haver melhor diretor para um episódio de Amazing Stories do que Hoblit?).

Em Alta Freqüência, Hoblit filma em ritmo intenso, inteligente, propondo idéias bem interessantes para as passagens em que o personagem de James Caviezel se depara com as confusões e mudanças da história e do tempo causadas por sua comunicação com o pai. O diretor também filma com intensidade, concebendo com ímpeto dramático, com fortes teores de aventura grandiosa, os momentos de tensão (como o final, espetacular, e o incêndio onde originalmente ocorre a morte do personagem de Dennis Quaid) e com razoável sutileza, principalmente nos momentos de gancho da história, onde o espectador irá entender exatamente os pontos chave de reviravolta no roteiro; ele expõe tais momentos com certo silêncio, sem apelos.

Nota-se a utilização de quadros abertos, que respiram confortavelmente, levando o espectador para a atmosfera do filme com facilidade. Fora isso, a maneira de interligar a história do baseball (item primordial e romântico da cultura popular americana) com a trama principal do filme - a mudança de um único ponto na história que gerará a possibilidade de um assassino não morrer e continuar sua seqüência de crimes, e com os outros componentes, é algo primoroso. Muito bem amarrado e desenvolvido pela filmagem de Hoblit.

Outro ponto a ser percebido é a emoção com que certos momentos são narrados pela câmera, como quando se dá a descoberta por parte daquelas pessoas de que na verdade, a amizade via rádio que ali se estabelecia era entre passado e presente (ou entre presente e futuro), entre filho e pai. Um exemplo do que foi colocado acima, é a cena da queimadura na mesa; as chamas queimam acidentalmente a mesa de Frank, e trinta anos depois, porém no mesmo momento, a queimadura nela aparece para John como se já estivesse ali há gerações. Diga-se de passagem, o fogo é um elemento conceitual forte do filme, explorado por Hoblit como caracterização e ligação entre as situações. Simples, todavia criativo. Algumas situações quase rumam para um certo pieguismo, mas isso é facilmente perdoável quando se encara e real procedência do filme e a linhagem tipicamente americana (clássica) à qual o mesmo pertence.

Um dos pontos fortes do filme é seu elenco. James Caviezel já trabalhara com Terence Malick em Além da Linha Vermelha, tornando-se famoso por tal trabalho. Em Alta Freqüência, o ator parece estar em fina sintonia com seu personagem (na verdade, um personagem que é acompanhado pelo espectador na infância e também na fase adulta). Dennis Quaid interpreta um homem simples americano, o bombeiro Frank Sullivan, de valores também simples e muito sólidos, o ideal do bom pai, da honestidade. E é ótimo, pois o ator (que possui grandes atuações em Morto Ao Chegar e Um Domingo Qualquer, entre outros) encarna exatamente esse tipo de coisa; é um cara que parece evocar naturalmente tais valores. Eu diria que é um herói americano à moda antiga.

A atriz Elizabeth Mitchell interpreta a esposa de Frank e mãe de John. A personagem também aparece em idades diferentes, o que torna o trabalho mais interessante, e a atriz o faz corretamente. Uma atuação realmente muito boa é a de Satch, chefe de polícia, ícone de infância de John e amigo da família, interpretado por Andre Braugher (ator negro que participou, entre outros filmes, de Todos a Bordo, do genial
Spike Lee, e de Cidade dos Anjos).

A partitura musical ficou a cargo do maestro Michael Kamen (Duro de Matar, Mr. Holland´s Opus, X-Men, Máquina Mortífera). Suas composições ficaram adequadas para o filme de Hoblit. São orquestrações à moda do cinema americano típico, algumas de caráter tenso e incidental, e outras, as mais destacadas, captam o ouvinte pelo aspecto da emoção. Essas últimas, em especial a peça que realiza-se no momento em que o incêndio que matara Frank se repete e, desta feita, o bombeiro se safa, podem ser consideradas de fato grandes composições. A da cena citada acaba por marcar de forma muito sólida o momento no filme e ajuda Hoblit sobremaneira em seu objetivo como diretor naquela parte da história.

Altamente recomendado, Alta Freqüência é uma boa mostra de que o cinema americano mais saudoso (da fantasia, da emoção, do herói... e até dos clichês) ainda vive muito bem, com consistentes raízes nas mãos e nas idéias de bons roteiristas e diretores criativos.

Cotação:
Claudio Szynkier
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