GANGUES DE NOVA YORK (Gangs of New York, EUA, Alemanha, Itália, Inglaterra, Holanda, 2002)
Gênero: Drama
Duração: 166 min.
Elenco: Leonardo DiCaprio, Daniel Day-Lewis, Cameron Diaz, Jim Broadbent, John C. Reilly, Henry Thomas, Liam Neeson, Brendan Gleeson
Compositor: Howard Shore
Roteiristas: Jay Cocks, Kenneth Lonergan, Steven Zaillian
Diretor: Martin Scorsese

Mais um obra-prima de Scorcese 

Valeu a pena esperar por este filme memorável, que era um projeto de sonho do mais genial diretor norte-americano em atividade  

Cerca de trinta anos atrás, surgia no mundo do cinema um jovem diretor chamado Martin Scorsese. Com obras pequenas, porém extremamente pessoais e violentas, capazes de tirar o sono de qualquer espectador (CAMINHOS PERIGOSOS, por exemplo). Com todo esse estilo, ele logo conseguiu juntar verba e apoio para lançar aquela que é até hoje uma das maiores obras-primas da história do cinema: TAXI DRIVER, um filme que acaba com a noite e o estilo de vida em geral dos americanos, em tom de puro psicodelismo.

Em seguida, vieram os filmes que o colocariam no patamar de "estrela" - TOURO INDOMÁVEL, filme excelente plasticamente, embora sem muita emoção; DEPOIS DE HORAS, comédia que faz qualquer ser normal rachar o bico sem esquecer do "estilo" de Scorsese; A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO, polêmico filme que deixou a igreja católica querendo matar o diretor; OS BONS COMPANHEIROS e CASSINO - duas gigantescas sagas mafiosas, marcos absolutos na sétima arte.

Mas o grande sonho da vida de Scorsese sempre foi GANGUES DE NOVA YORK, basicamente outra saga mafiosa, porém antes mesmo da "máfia" receber esse nome, em uma época calamitosa, onde a violência predominava sobre tudo. E por mais de vinte anos, o cineasta tentou formar essa obra, recolhendo parcerias para poder finalmente lançar no mercado seu citado sonho. Quando conseguiu iniciar a produção, Scorsese contou com uma interminável série de problemas: orçamento estourado, duração excessiva não permitida pela Miramax, atentados terroristas que, absurdamente, obrigaram o diretor a esperar mais um ano para lançar sua obra... E o público cada vez mais na espera... Até que GANGUES DE NOVA YORK foi lançado. Com mega-astros nos papéis principais, Scorsese mostrou seu sonho ao mundo - um sonho sangrento e desolador, mas ainda assim maravilhoso. Perfeito em todos os aspectos, o filme apenas comprova o porquê de Scorsese ser o maior gênio do cinema norte-americano. 

"O sangue fica na lâmina". O personagem de Liam Neeson pronuncia, e assim começa uma intensa saga de vingança e paixão. Com batalhas brilhantemente coordenadas, inserções históricas precisas, centenas de diálogos afiados e bem colocados, GANGUES DE NOVA YORK inicia a projeção em alto estilo. E melhora ainda mais. Quando os dois personagens principais, vividos por Daniel Day-Lewis (Oscar por MEU PÉ ESQUERDO) e Leonardo Di Caprio (ROMEU E JULIETA) finalmente se encontram, nasce uma relação peculiar, que Scorsese faz o favor de cozinhar e levar ao limite extremo. Tão extremo que, na metade da projeção, o suposto vilão de Day-Lewis já cativou o público com seu estilo de anti-herói - o mesmo do Travis de TAXI DRIVER, do Jimmy de OS BONS COMPANHEIROS ou do Sam de CASSINO: assassinos cruéis por um lado, pessoas comuns e cheias de sentimentos de outro.  Scorsese presta esta homenagem àqueles que realmente ergueram os Estados Unidos, não os políticos milionários que jogavam bilhar em suas mansões, mas sim aos imigrantes que montaram cada tijolo dos prédios gigantescos que vemos hoje.

Para o terceiro ato, é reservado o momento de reflexão - e também da explosão. Cada personagem, como de costume nos filmes do gênero, chega ao limite. Day-Lewis e Di Caprio lutam desesperadamente por seus ideais, diferentes, porém muito parecidos. A vingança é deixada em segundo plano por boa parte da projeção. E a fantástica cena final, filmada entre nuvens de fumaça, faz cada um olhar para sua vida de maneira precisa, e pensar o que faz cada atitude ser tomada.

Toda a projeção é extremamente caprichada - cada close (o inicial em Liam Neeson é um primor), cada parte da edição, cada peça do figurino, cada acorde da magistral trilha sonora de Howard Shore (O SENHOR DOS ANÉIS). O elenco soberbo apenas contribui para tamanho relacionamento entre o filme e o público. Daniel Day-Lewis é o nome que mais causa impacto, mexendo com todas as emoções do espectador.

E é dessa maneira que GANGUES DE NOVA YORK caminha e se iguala com as maiores obras-primas de Scorsese. Cada cena tem seu brilho, cada diálogo seu impacto. E tamanha genialidade não pára - vem aí THE AVIATOR, baseado na história do magnata Howard Hughes. A expectativa já é imensa.

Cotação:
Carlos Massari
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