O GÂNGSTER (American Gangster, EUA, 2007)
Gênero: Drama
Duração: 157 min.
Elenco: Denzel Washington, Russell Crowe, Chiwetel Ejiofor, Josh Brolin, Lymari Nadal, Ted Levine, Roger Guenveur Smith, John Hawkes, RZA, Yul Vazquez, Malcolm Goodwin, Ruby Dee, Carla Gugino
Compositor: Marc Streitenfeld
Roteirista: Steven Zaillian
Diretor: Ridley Scott

De boa safra

Novo filme do diretor Ridley Scott, baseado na história verídica do traficante negro Frank Lucas, é um dos melhores trabalhos de sua carreira

Se Ridley Scott é um autor de verdade ou apenas um bom diretor, ainda não sei ao certo, o que sei é que ele tem a incrível capacidade de me fazer odiar alguns de seus trabalhos. Os melhores - ou piores - exemplos disso são ATÉ O LIMITE DA HONRA (1997), FALCÃO NEGRO EM PERIGO (2001) e CRUZADA (2005). Eu odeio esses filmes. E fui criando aos poucos certa antipatia por GLADIADOR (2000) também. Por outro lado, Scott possui filmes impressionantes em sua filmografia, o que acaba por me deixar sempre com um pé atrás antes de ver um filme seu, por mais elogiado que seja. Por isso, fico feliz quando um filme dele me satisfaz. Eu diria que este O GÂNGSTER (2007) é um dos melhores trabalhos de sua irregular carreira. Além de trazer um duelo entre dois dos melhores atores da atualidade, o filme faz um belo retrato dos Estados Unidos nos anos 1970, época da Guerra do Vietnã e dos escândalos no Governo. Naquela época John Lennon já havia dito "The Dream is Over" e a realidade se mostrava mais presente e mais dolorosa nas ruas. Assim, ao mesmo tempo que o filme mostra a ascensão meteórica de um traficante sem pintá-lo como um monstro, vemos em pequenas cenas os terríveis estragos que a droga faz a quem se arrisca a lidar com ela.

Denzel Washington interpreta Frank Lucas, um dos maiores traficantes de heroína do Harlem, que teve a "feliz" idéia de importar heroína diretamente do Vietnã e receber os pacotes através dos aviões militares (isso acabou surpreendendo muita gente, já que possivelmente a CIA também estaria envolvida). Lucas também "molhava a mão" de alguns policiais para que pudesse gerenciar o seu trabalho com tranqüilidade. Lucas era um sujeito discreto, preferindo não vestir roupas típicas dos gângsteres negros da época para não chamar a atenção, e gostava de ajudar a sua família e aqueles que trabalhavam com ele. Assim que fica rico, trata logo de trazer a família que morava no sul dos Estados Unidos para uma enorme mansão, onde todos se instalam. Enquanto Frank Lucas vai se tornando o primeiro grande chefão negro americano, um certo detetive de polícia com ânsia de se tornar advogado, interpretado por Russell Crowe, mostra-se um exemplo de honestidade em sua corporação e, por isso mesmo, acaba se tornando um desafeto tanto para a bandidagem quanto para os seus próprios colegas corruptos. Encontrar o responsável pela heroína pura que anda circulando por Nova York é a sua obsessão, tornando-se, assim, inevitável o futuro encontro do detetive com Lucas. Sua obsessão pelo trabalho também o leva ao divórcio, mas parece que isso é coisa comum na vida de muitos policiais, pelo menos os retratados no cinema.

O GÂNGSTER tem quase três horas de duração, mas é tão bem narrado - o roteiro é de Steven Zaillian, de GANGUES DE NOVA YORK - e bem editado que parece um filme de menos de duas horas. Não há excesso de cenas violentas, os gângsteres do filme não procuram imitar os trejeitos dos similares de Scorsese ou de Coppola, e as duas estórias que correm em paralelo - a do policial e a do mafioso -, são boas da mesma maneira, embora nem todo mundo concorde com isso e prefira a estória do mafioso. Para mim, as vidas dos dois protagonistas se mostram interessantes na mesma proporção e ambos os personagens ganham a simpatia do público, tanto que chega a ser até agradável ver os dois trabalhando juntos lá pelo final do filme. E apesar de ter cooperado com a polícia depois de ter sido preso, li numa entrevista na Folha de São Paulo que o verdadeiro Frank Lucas, hoje vivendo numa cadeira de rodas por problemas de artrite, quando perguntado se teria se arrependido de alguma coisa em sua vida e ele disse que não, que até sentia falta dos tempos de glória e poder e que tinha gostado muito de como havia sido retratado no filme.

O GÂNGSTER não foi muito bem cotado pela Academia e concorre ao Oscar apenas nas categorias de atriz coadjuvante (Ruby Dee, a senhora idosa que faz a mãe do traficante) e direção de arte.

Cotação:
Ailton Monteiro
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