Philip Glass
homenageia Bela Lugosi em Drácula
Concertos internacionais de música de cinema são uma raridade no Brasil, ainda mais se apresentados simultaneamente à projeção do filme e com regência do próprio compositor. Deste modo, a passagem do músico minimalista Philip Glass pelo Brasil em setembro de 2001, apresentando sua trilha para o filme Drácula – o clássico em preto e branco de 1931, com Bela Lugosi e dirigido por Tod Browning – pode ser considerada histórica. Glass estreou o concerto no Brasil no Rio de Janeiro, em 11/09, fez duas apresentações em São Paulo, dias 16 e 17/09, e encerrou sua turnê em Porto Alegre, dia 19/09, no Teatro do SESI, sempre acompanhado pelo Philip Glass Ensemble.
Drácula, o filme, é puro horror gótico, traduzido pela expressão sinuosa de Lugosi. A luz sobre os olhos ansiosos do ator, com um sorriso cínico no canto da boca, que jamais mostra os dentes, é uma marca insuperável do cinema. Glass entendeu isso e traduziu esse entendimento em música. Tanto que, entre os filmes clássicos de horror que a Universal lhe apresentou, com intenção de encomendar uma trilha para seu relançamento em DVD - entre eles, Frankenstein, estrelado por Boris Karloff, outro mito do gênero -, o músico norte-americano optou por Drácula. "Basicamente, foram as expressões de Lugosi que me inspiraram. Elas tomam conta de todo filme", disse na entrevista coletiva que concedeu, uma semana antes de sua primeira apresentação em São Paulo. "Não houve dúvida. Drácula tinha o elemento dramático mais importante, que é Bela Lugosi".
Drácula foi concebido para o ator Lon Chaney, mas sua morte pouco antes das filmagens abriu espaço para um ator estranho, meticuloso e calado, dotado de grande presença física (como era exigido nos filmes mudos), apesar de sua voz ser posteriormente utilizada como "instrumento do terror". Lugosi tinha um sotaque que, sabiamente exagerado por ele, seria a marca do Conde Drácula, já que o ator nasceu e cresceu na mesma região do Leste Europeu de onde saiu o mito do vampiro; mais especificamente na cidade gótica de Lugos, que acabou originando o nome artístico do ator nascido como Bela Blask. Lugosi tentou até o fim de sua carreira, sem sucesso, experimentar outros papéis. Quando morreu, em 1956, foi enterrado com sua capa de Conde Drácula.
Inicialmente
composta para um quarteto de cordas - o Kronos Quartet, que a interpreta no CD
-, a trilha foi adaptada para o Philip Glass Ensemble, o sexteto que tem
acompanhado o músico em suas apresentações pelo mundo, devido aos
compromissos do outro grupo, sem tempo para agendar turnês. "As notas são
as mesmas, mas a música soa diferente num sexteto. A diferença é a
possibilidade de expressão. Algumas coisas que a corda toca não são possíveis
com os sopros", explicou Glass. "Drácula marca o advento do
filme sonoro. Mas não tinha trilha. O filme esperou 70 anos para ter um score.
Os primeiros cinco minutos de Drácula parecem engraçados. As pessoas
riem. A palavra 'louco', em português, define bem essa primeira seqüência.
Depois de dez minutos, o público começa a entrar na história. É maravilhoso
que o filme possa nos dar a idéia de como se interpretava há 75 anos. Hoje não
existe mais essa forma de atuação. Temos uma tendência de achar que a arte
contemporânea é melhor, mas a arte não é como a ciência. O conceito do
contemporâneo é relativo. Muita coisa dos anos 60 ainda hoje parece novo,
melhor do que quando surgiu”, pondera Glass. E continua: “Li o livro
original e vi outros filmes de vampiros, como Nosferatu, de Murnau, e Drácula,
de Coppola. Fiz muita pesquisa, li a biografia de Bela Lugosi. Descobri que o
filme foi feito como uma peça teatral. Não era como compor uma trilha para
Scorsese. A forma de interpretação em Drácula segue o modelo teatral.
Isso fez com que eu pensasse a música de forma diferente, levando em conta a
atuação dos atores. Mas a minha maior inspiração foi Bela Lugosi, que não
fala tanto durante o filme".
Qualquer um que conheça o trabalho de Glass não achará Drácula muito diferente, harmonias familiares e as características de estilo do compositor estão presentes. As peças, quando interpretadas em conjunto às cenas mais emocionais, intensificam a interpretação dos atores. O ponto alto do score talvez seja a música que acompanha a cena onde Drácula tenta controlar o Professor Van Helsing, que corajosamente luta contra o poder do vampiro. De um modo geral o único senão é o de que, em Drácula, talvez Glass tenha se alongado demais. Nos 80 minutos de projeção a música não pára, e em alguns momentos até interfere nos diálogos do filme - o que pode ter sido um problema da mixagem, feita ao vivo no momento do concerto. Para um artista do minimalismo, esse exagero parece estranho, mas é compensado pela experiência hoje incomum de apreciarmos cinema com música ao vivo. Jorge Saldanha |
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