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GOBLIN:
Musica Dalla Tenebre
Depois da febre e da exaustiva produção pop dos anos 60, o mercado de rock
italiano viu o florescimento do gênero progressivo que no início dos anos 70
mostrava-se como uma renovação (ou evolução natural) ao rock internacional. Somando
o apelo rítmico da chamada segunda geração do rock (Beatles, Rolling Stones, Kinks) e as experiências lisérgicas
do psicodelismo (Pink Floyd, Jefferson Airplane) a uma proposta musical mais
ampla, o rock progressivo encontrou rápida
receptividade de público apesar de sua postura mais experimental e
“erudita”. Grandes nomes do progressivo inglês como Yes, King Crimson e
Genesis, marcaram época com sua música rebuscada e ambiciosa. O mercado
italiano, que raramente tendeu ao punk
ou ao heavy metal (será uma benção?),
encontrou no gênero progressivo a chance de renovação e um caminho
alternativo ao do pop, consolidado e
consagrado junto ao público desde o final dos anos 50, na carreira de uma
constelação de grandes nomes como Gianni Morandi, Gino Paoli, Pepino Di Capri,
Nico Fidenco e Lucio Dalla.
Nesse momento de mudança (comecinho dos anos 70)
grupos como o Premiata Forneria Marconi, Acqua Fragile, Area, Era Di Acquario e
Museo Rosenbach entre tantos outros que partiram dos modelos ingleses para um
idioma próprio, encontrariam seu lugarzinho ao sol e o gênero progressivo se
tornou tão popular na terra das pizzas
que praticamente caracterizou uma etapa da música popular italiana. Também é
notório que o gênero progressivo foi o que mais esteticamente se aproximou das
trilhas sonoras de cinema, por sua ambição sugestiva e climática, às vezes
até com narrativas ficcionais com início, meio e fim.
Formado em 1974 por ex-integrantes de diversos
grupos progressivos (1), o Goblin teve um caminho bastante incomum, afinal foram
poucos os grupos que tiveram a chance de alcançar reconhecimento junto ao público
partindo de trabalhos instrumentais e trilhas sonoras. O fato naturalmente os
destacou como um dos principais nomes tanto no rock
italiano quanto no mercado de trilhas sonoras. Formado pelo guitarrista Massimo
Morante, o baixista Fabio Pignatelli, o baterista Walter Martino e o tecladista
Cláudio Simonetti (nascido em São Paulo!) o Goblin teve a sorte de pertencer
ao catálogo da gravadora Cinevox, firma que teve notável presença e importância
no mercado de trilhas sonoras desde os anos 60.
O maior e mais feliz acaso na carreira do Goblin,
aconteceu em 1975 quando a Cinevox apresentou o grupo ao diretor Dario Argento,
que então já era conhecido como o Hitchcock italiano por sua inventiva revolução
nos filmes de suspense (giallos, na Itália).
Argento trabalhava com o compositor de jazz Giorgio Gaslini (2) na música do thriller Profondo Rosso,
mas
sentia a necessidade de uma trilha sonora com mais rock e menos tradição. Coube então ao Goblin a gravação de
algumas peças compostas por Gaslini e a criação de novos temas. O tema
principal, Profondo Rosso, com seu
baixo em pulsação cardíaca e órgão gótico viriam a caracterizar (e quase
estigmatizar) o som do grupo como uma marca registrada sonora. Argento vinha da
bem sucedida trilogia composta por O Pássaro
das Plumas de Cristal (1970), O Gato
de Nove Caudas (1971) e Quatro Moscas
no Veludo Cinza (1972)(3) e Profondo
Rosso (Deep Red em inglês, Prelúdio
Para Matar, no Brasil) foi sua coroação como mestre do horror contemporâneo.
O sucesso do filme em toda a Europa deu a merecida projeção à música do
Goblin, fazendo do LP com a trilha sonora um sucesso de vendas e lhes dando
assim segurança para trabalhos próprios.
Em 1976 o baterista Walter Martino passou a
integrar o grupo Libra (4) que também teve uma interessante passagem pelo
cinema compondo a trilha para o filme Shock
(1977), de Mario Bava. Com a entrada de Agostino Marangolo no posto de Walter, o
Goblin gravaria o célebre álbum Roller
(algumas faixas seriam aproveitadas como trilha sonora do suspense australiano Patrick,
quando de seu lançamento na Itália) e em 1977 fariam nova parceria com Dario
Argento no filme Suspiria. A
abordagem sensorial de Suspiria, de
estética delirante, com cores intensas e desorientação narrativa, associada
à trilha do Goblin (com os diabólicos sussurros do tema de abertura e os
ensurdecedores efeitos de percussão) viria a caracterizar todo o cinema de
Argento e a criar uma nova escola nos filmes de horror europeus. Depois de Suspiria o grupo tentaria um trabalho paralelo às trilhas: Il
Fantástico Viaggio Del Bagarozzo Mark, um álbum clássico no referente ao
formato progressivo e um de seus melhores momentos com passagens que ficariam
perfeitas em um pesadelo audiovisual de Argento (a associação é inevitável).
Foi o único álbum do grupo a incluir vocais (em italiano, chiaro)
em notável performance de Massimo Morante.
Em 1978 o grupo expandiria as fronteiras (musicais
e geográficas) compondo a trilha de Dawn
of Dead (O Despertar dos Mortos) de George Romero, que não por acaso
contava com a colaboração de Dario Argento na produção. Foi o momento de
maior variedade musical para o grupo. Grande parte da ação da fita ocorre no
interior de um shopping center e o
grupo providenciou uma série de temas light
e jazzísticos incluindo até um inesperado tema sexy com saxofone e um ragtime satírico para a seqüência de
“pastelão” e confronto com os motoqueiros de Tom Savini (5). Mas o que
naturalmente se destacou no trabalho foram as pesadas marchas e rocks
de clima sufocante como L’Alba Dei Morti
Viventi, Zaratozom e Zombi. Em Dawn of Dead o
grupo já empregava (de forma equilibrada) os efeitos rítmico/eletrônicos que
dominariam a música popular na virada dos anos 80 (technopop). Muito do que fizeram pioneiramente nas trilhas para os
filmes de horror, com o uso de rock
instrumental adequado climaticamente à dramaticidade da película, seria
bastante influente no mercado popular europeu.
Popularizados por suas trilhas sonoras o Goblin
também foi um notório chamariz de público nas produções de terror (outro
fato notável em sua carreira). Dessa forma o grupo também se tornou um dos
preferidos dos produtores piratas que no maior descaramento se apropriaram de
muitas de suas músicas para trilhas sonoras bastardas. O “notável” Hell of the Living Dead (podreira trash de Bruno Mattei de 1983, lançado em vídeo como Predadores
da Noite) não satisfeito em pilhar idéias de Dawn
of Dead de Romero e cenas de documentários, raptou músicas do Goblin para
sua trilha, sem direito a resgate. O nome do grupo nos créditos de Hell of the Living Dead aparece em destaque incomum. Merece uma
conferida urgente pelos incansáveis cine-masoquistas.
 Nos anos seguintes o Goblin tentaria uma saudável
variação compondo trilhas sonoras para filmes de ação policial como La Via Della Droga (1978) e Squadra
Antigangster (1979) e até uma comédia romântica Amo Non Amo (1979). Encerrariam atividades em 1980 com pelo menos
duas grandes trilhas de horror: Buio
Omega (1979) entre a tradicional linha gótica, mesclada a momentos de jazz-rock
e Contamination (1980), de maior evidência eletrônica e com as
pulsantes linhas de baixo já características de seu som.
Durante a década de 80 os integrantes voltariam a
se reunir ocasionalmente em duos ou trios, para novas trilhas sonoras, mas sem
usar o nome Goblin por razões contratuais. A trilha de Tenebre (1983, novamente Dario Argento), por exemplo seria creditada
simplesmente a Simonetti, Pignatelli, Morante. Já longe da tradição
progressiva, a trilha para Tenebre é
um exercício em eletrônica com texturas sintéticas e sobreposição de
ritmos. Dos integrantes do grupo foi Cláudio Simonetti o que mais se manteve
ativo em diversas trilha sonoras no gênero horror e fantasia além de projetos
próprios nos quais regravou material do Goblin e temas do cinema fantástico em
geral, como em Simonetti Horror Project
(1992) ou em Dario Argento’s Horror
Movies (1993).
Com NonHoSonno
(2002) estabeleceu-se a volta oficial de Dario Argento com o Goblin
(reagrupado e como nome oficialmente de volta ao uso), um fato aguardado por
mais de duas década por uma legião de fãs e foi com NonHoSonno
que o Goblin voltou às raízes em sua eficiente mistura de guitarras heavy,
baixos pulsantes e teclados góticos, aliados a um magnífico tratamento
espacial via eletrônica. Mais do que a óbvia oportunidade “comercial” na
volta da lendária parceria o fato que realmente conta é que grupo e diretor,
comprovaram um fôlego criativo ainda longe do esgotamento. Para ambos, NonHoSonno
é um trabalho de síntese e sincera reciclagem: como cinema é quase um catálogo
de guimmicks darioargentianos
e como trilha, as inclusões de vocalizações líricas, linhas impressionistas
de piano, momentos de rock pesado e
pitadas de jazz (em solos de sax),
fazem dela uma das melhores trilhas sonoras do Goblin em toda sua carreira. De
forma bastante positiva, aponta para uma continuidade de carreira que não
precisará viver de glórias do passado.
(1) Cláudio Simonetti e Walter Martino foram
integrantes “fantasmas” (sem o devido crédito) no grupo Cherry Five.
(2) Gaslini é citado como um dos principais nomes
do jazz italiano. Seu maior crédito no cinema foi a trilha de La Notte (A Noite, 1961) de Michelangelo Antonioni. A parceria entre
Argento e Gaslini vinha de Le Cinque
Giornate (1974), pouco conhecido neo-western,
exibido no Brasil como Cinco Dias em Milão.
(3) Os três com música de Ennio Morricone.
(4) O tecladista do Libra, Maurizio Guarini também
tocou em Roller.
(5) Tom Savini foi o Sex Machine de Um Drinque No Inferno e responsável pelos efeitos especiais para os
filmes de Romero e inúmeros filmes de horror. Estreou na direção em 1990, na
refilmagem do clássico de Romero A Noite dos Mortos Vivos.
Guilherme De Martino |