HANNIBAL (Hannibal, EUA, 2001)
Gênero: Suspense, Terror
Estúdio: Universal/MGM
Duração: 131 min 
Compositor: Hans Zimmer
Elenco: Anthony Hopkins, Julianne Moore, Gary Oldman, Ray Liotta, Frankie Faison, Giancarlo Giannini
Roteirista: David Mamet
Diretor: Ridley Scott

Jodie Foster tomou uma decisão sábia ao pular fora da continuação do excepcional SILÊNCIO DOS INOCENTES, de Jonathan Demme. Realmente é difícil entender como é possível alguém realizar um filme tão canhestro, ridículo e, mais grave, desinteressante como HANNIBAL. Palmas para o diretor Ridley Scott, que herdou a produção depois que Demme (também sabiamente) tirou seu time de campo e cometeu mais uma afronta à sétima arte (mas não à sua conta bancária, com certeza). Nem tem mais sentido perguntar "como é que o diretor de gemas como ALIEN e BLADE RUNNER foi capaz de produzir esse lixo abominável?". Agora é mais fácil simplesmente lembrar que trata-se do mesmo cineasta que enlameou as telas nos últimos anos com o fascista ATÉ O LIMITE DA HONRA e com o pseudo-épico grudento GLADIADOR.

Não li o livro de Thomas Harris, mas o roteiro que foi levado às telas é simplesmente pavoroso. Só para se ter uma idéia, Hannibal Lecter está na lista dos dez criminosos mais procurados do mundo (tem até uma foto do Osama Bin Laden perto da dele) mas anda tranqüilamente pelas ruas de Florença, na Itália, e, pior, é candidato a curador de um importante museu de lá! Isso de cara destrói qualquer credibilidade que o filme poderia querer passar. 

A trama é mais ou menos a seguinte: Clarice Starling (agora interpretada por Juliane Moore, perdida ao tentar imitar a voz e o sotaque usados por Jodie Foster) cai em desgraça por causa de fracasso de uma operação que causa a morte de cinco traficantes e é contactada pela única vítima que sobreviveu ao Dr. Lecter: um milionário depravado que, sob sua influência, desfigurou o próprio rosto e agora quer vingança (Gary Oldman, que obrigou a retirada de seu nome dos créditos e atua sob uma grotesca maquiagem que o deixa com cara de alienígena gosmento). 

Nesse meio tempo, um policial italiano decadente (Giancarlo Gianini) esbarra em Lecter e, graças a uma série de coincidências absurdas descoladas pelos roteiristas, descobre sua verdadeira identidade e fica tentado a entregar o doutor para receber a gorda recompensa oferecida pelo milionário vingativo. Há também uma subtrama que envolve um membro corrupto da procuradoria da Filadélfia (o péssimo Ray Liota) manipulando a agente Starling para atrair Hannibal Lecter, que eventualmente "foge" da Itália (tranqüilamente de avião, é claro) para os EUA, não sem antes estripar e enforcar um dos personagens em plena praça pública de Florença! Essas idas e vindas do doutor vilão, diga-se de passagem, são tão ridículas que transformam o filme quase em uma comédia do tipo pastelão. 

Para piorar tudo, a fita é extremante violenta e desagradável - a cena que mostra homens sendo devorados por porcos selvagens com riqueza de detalhes é simplesmente abominável. O que dizer então da seqüência na qual um dos personagens tem o crânio aberto e, ainda vivo, é obrigado a comer pedaços do seu próprio cérebro? Nem nos filmes do Freddy Krueger chegaram a tanto! Ridley Scott também faz uso de seus cacoetes "artísticos" preferidos: fotografia esfumaçada, música clássica constante (a trilha original do péssimo Hans Zimmer é inexistente), citação de autores imortais, alta costura, vinhos de primeira, ventiladores no teto - tudo isso para tentar deixar o filme com aquele ar de "refinado" e "erudito", mas que nada acrescentam à trama e entorpecem ainda mais os sentidos do espectador. 

Mas nada supera o maior pecado que implode de vez o filme: simplesmente não há suspense, mistério ou mesmo terror durante suas mais de duas horas de duração. As únicas emoções que HANNIBAL consegue provocar, além da incredulidade com o tamanho dos furos no roteiro, são repulsa e tédio (não necessariamente nessa ordem). Pouca gente sabe, mas o dr. Hannibal Lecter já havia sido interpretado por Brian Cox no filme MANHUNTER, dirigido por Michael Mann em 1986 (quem viu disse que é bom), antes de ser imortalizado por Anthony Hopkins em O SILÊNCIO DOS INOCENTES. Melhor ver (e rever) esses dois e esquecer mais esse caça-níqueis fracassado que por pouco não mancha a boa reputação de alguns dos envolvidos na sua produção. 

Cotação: *

André Lux

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