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Jonathan Harris
"Nada tema... com Smith não há problema"

Por Jorge Saldanha

 

Jonathan Harris como o Dr. Smith, 1965

PERDIDO NA TELINHA
Se você está lendo esta matéria, então é um pouco como eu. Há filmes, músicas, atores e atrizes que são inesquecíveis, e lhe trarão agradáveis memórias até o final da sua vida. Mas eu também cresci assistindo televisão nos anos 60, então certas séries de TV, bem como seus personagens, possuem um significado especial para mim. Fui um espectador assíduo de Viagem ao Fundo do Mar, Thunderbirds, Além da Imaginação e Quinta Dimensão, séries que para qualquer fã de ficção-científica dispensam comentários. Mas foi no primeiro semestre de 1967 que, na antiga TV Gaúcha de Porto Alegre (Canal 12), fiquei eletrizado ao assistir à chamada de um novo seriado de FC que iria ser exibido nos domingos, às 19 horas (após Batman). No trailer, uma nave espacial em forma de disco era lançada ao espaço, saindo da rota e dando início a uma série de aventuras espetaculares. Durante 30 segundos pude ver a nave enfrentar uma chuva de meteoros, a luta com um robô descontrolado e o  comandante ficar à deriva no espaço. A pequena "amostra" terminava com o disco decolando, no exato momento em que um dos seus tripulantes dava um grito de pavor. Como o leitor já deve ter adivinhado, a série era Perdidos no Espaço (Lost in Space), fruto da criatividade de Irwin Allen, que produziu 83 episódios para a FOX de 1965 a 1968. O primeiro episódio da série, "O Clandestino Teimoso", escrito por Shimon Wincelberg e dirigido por Tony Leader, inicia-se em 16 de outubro de 1997, quando o Controle Alfa lança o Júpiter 2 na primeira missão de colonização terrestre, rumo ao sistema Alfa Centaury. A tripulação, composta pelo Prof. John Robinson (Guy Williams, que já conhecia do Zorro), sua esposa Maureen (June Lockhart) e seus filhos Judy (Martha Kristen), Penny (Angela Cartwright) e Will (Billy Mumy), além do piloto Donald West (Mark Goddard), permaneceria em animação suspensa durante a viagem de 5 anos. Os problemas iniciam quando o sabotador de uma potência inimiga, o Dr. Zachary Smith (Jonathan Harris), esconde-se na nave antes do lançamento, programando o Robô (Bob May, voz de Dick Tufeld) para destruir os controles de navegação e de suporte de vida 8 horas após o lançamento do Júpiter 2. Infelizmente para Smith ele não consegue sair da nave a tempo, partindo com os Robinsons na viagem condenada. Após a tempestade de meteoros e de seus controles direcionais serem avariados pelo robô, a nave entra em hiper-velocidade e ruma para os confins da galáxia. Ao longo de suas três temporadas, a aventura em Perdidos no Espaço foi cedendo lugar gradativamente ao humor, centrado nas figuras do garoto Will, do Robô e, principalmente, do Dr. Smith. Sendo esta uma das minhas séries de TV preferidas, não é de espantar que Jonathan Harris seja um dos meus ídolos, e esta página é um justo tributo a este excepcional ator que, retirando do papel um personagem unidimensional, o transformou no mais memorável e divertido vilão do cinema e da televisão.

Jonathan Harris e o fã brasileiro
Elias de Lucena, 2001

O VERDADEIRO DR. SMITH
Filho de imigrantes russos, Jonathan Harris nasceu na cidade de Nova York em 1914. Sua família era pobre, e na adolescência arranjou emprego em uma farmácia, decidido a tornar-se farmacêutico. Mas logo em seguida ele passou a se interessar pelo teatro, sabendo que haveriam muitos obstáculos a superar para seguir a carreira de ator. Com muita apreensão, o jovem Harris juntou-se à companhia teatral Millpond, em Long Island. Sua estréia na Broadway foi em 1942, e durante a Segunda Guerra Mundial ele viajou pelo Pacífico Sul, atuando em peças exibidas para as tropas. Ao voltar para Nova York iniciou uma bem sucedida carreira na televisão, à época ainda feita ao vivo. Seu primeiro grande sucesso veio na série The Third Man (1957-1960), estrelada por Michael Rennie (o Klaatu de O Dia em Que a Terra Parou, 1951). Harris interpretava o assistente de Rennie, o mal-humorado e detalhista doutor Bradford Webster. Várias participações especiais se seguiram, como a de um ladrão de banco em The Outlaws e no papel de Charles Dickens em Bonanza. Ele também foi o exasperado Mr. Phillips em The Bill Dana Show (1963-1965). Perdidos no Espaço, contudo, proporcionou-lhe seu personagem favorito. Ele assumiu um vilão tradicional e o transformou em um sujeito ganancioso, egoísta, afetado, covarde e divertido. Harris passava noites em claro criando os sarcásticos insultos ao robô ("Sua lata de sardinha enferrujada!"). Harris recebeu a merecida consagração por seu papel, e Cleveland Amory, critico da TV Guide, considerou Harris como "o melhor ator coadjuvante de 1966." Contudo, após o inesperado cancelamento da série, ele teve de enfrentar o estigma de ser para sempre marcado como o Dr. Smith. Algumas boas aparições como ator convidado se seguiram, no western Lancer, em Terra de Gigantes (a série de Irwin Allen que sucedeu Perdidos no Espaço, onde em um episódio Harris foi um alienígena arrogante) e Galeria do Terror. Porém, muitos outros papéis seguiram a linha "Dr Smith". Outras participações na TV, durante os anos 70, incluíram A Feiticeira, Nós e o Fantasma, Sanford and Son e Agente 86. Ele também dublou muitos personagens de desenhos animados e foi o comandante de 300 anos de idade Gampu na série infantil Academia Espacial (1977-1978), bem como o maligno cilônio Lúcifer de Galactica - Batalha nas Estrelas (1978). A partir de 1982 ele passou a dedicar-se somente às dublagens (comerciais e desenhos) e a aparições em convenções e especiais como The Fantasy Worlds of Irwin Allen (1995) e Lost in Space Forever (1998). Quando da realização da versão cinematográfica de Perdidos no Espaço, Harris não aceitou uma participação especial como o chefe do Dr. Smith (no filme, interpretado por Gary Oldman). Simplesmente ele não admitiu participar de um filme que incluísse o personagem de sua vida, sem que ele mesmo o interpretasse. Deveras... No final de sua carreira, Harris foi dublador de desenhos animados, e seu último trabalho foi na animação da Disney-Pixar, Vida de Inseto. Com 87 anos de idade, Jonathan Harris faleceu no dia 03 de novembro de 2002 em um hospital de Los Angeles, tendo ao seu lado sua esposa Gertrude.

O DIA EM QUE O DR. SMITH ESTEVE NO BRASIL
Jonathan Harris esteve algumas vezes no Brasil, mas a sua primeira e mais memorável visita ocorreu em março de 1969. O ator foi ao Programa da Hebe Camargo, à época transmitido pela extinta TV Tupi, e lá conheceu o seu dublador, Borges de Barros (o mendigo de A Praca é Nossa). Juntamente com algumas fotos do programa, reproduzimos parte da matéria que a revista INTERVALO publicou na época.

Jonathan Harris e Hebe Camargo, 1969

Harris e Borges de Barros, 1969


 

SEGUE: JONATHAN HARRIS, EM SUAS PRÓPRIAS PALAVRAS

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