 |
HULK (Hulk,
EUA, 2003)
Gênero: Aventura, Ficção Científica
Duração: 137 min.
Estúdio: Universal
Elenco: Eric Bana, Jennifer Connelly, Sam Elliott, Josh Lucas, Nick
Nolte, Paul Kersey, Cara Buono, Todd Tesen
Compositor: Danny
Elfman
Roteiristas: Michael France, John Turman, James Schamus
Diretor: Ang Lee
|
O Incrível Shrek
Anabolizado
Hulk de Ang Lee, com sua esquizofrenia
cinematográfica, não convence nem como aventura e nem como drama psicológico
Depois de uma série de bem (umas mais, outras
menos) sucedidas adaptações de personagens da Marvel para o cinema, chegou a vez
do gigante esmeralda HULK. E, de todos os filmes baseados nos quadrinhos de Stan
Lee feitos a partir de 1998 (ano de BLADE), considero HULK o único totalmente
mal sucedido. É até covardia compará-lo com, por exemplo,
X-MEN 2,
HOMEM-ARANHA e até mesmo
ao menos pretensioso
DEMOLIDOR.
Indícios do desastre já podiam ser percebidos desde o início da produção, a
partir da escolha de Ang Lee para comandar a aventura. Depois do sucesso de O
TIGRE E O DRAGÃO, que tinha lá alguma aventura e MUITA fantasia, algum sábio
executivo da Universal achou que ele seria o diretor ideal para comandar o longa
do gigante esmeralda. Mas esqueceu-se de que Lee, na maior parte de sua
carreira, notabilizara-se por dramas tipo TEMPESTADE DE GELO, ou seja, filmes de
temática e estilo totalmente distintos deste. Mesmo assim o rumo a ser adotado
por Lee, dando toques de A BELA E A FERA ao filme, até que prometia. E algo
disso até permaneceu na película, em momentos nos quais Hulk segura
carinhosamente Betty, como se fosse um KING KONG (a variação cinematográfica
mais famosa do tema) verde.
A polêmica realmente começou quando foram revelados alguns detalhes do roteiro,
que introduzia, entre outros elementos estranhos aos quadrinhos originais, o pai
do cientista Bruce Banner e um “poodle-hulk”! Por fim, ficou-se sabendo que o
Hulk seria uma criatura 100% digital da ILM de George Lucas, e aí os católicos
mais fervorosos começaram a rezar. Mas foi inútil: com a produção nas telas,
pôde-se constatar que HULK é um filme que, a exemplo do personagem título, é
destituído de qualquer humor (voluntário, pelo menos) e possui mais de uma
personalidade. E isso, no caso, é ruim.
Em sua longa (põe longa nisso) primeira parte, o filme é quase que, tão-somente,
um drama psicológico, onde ficamos conhecendo a história do traumatizado Bruce
Banner (Eric Bana, fruto de um casting ruim). O infeliz é filho do
cientista David Banner (Nick Nolte, desgrenhado e péssimo), que experimentou em
si mesmo uma droga para combinar genes de animais ao seu próprio DNA, tudo com a
intenção de aumentar o poder de regeneração do corpo humano. Quando o filho
Bruce nasce, David logo descobre – surpresa! - que suas alterações genéticas
foram transmitidas ao garoto. Uma tragédia separa Bruce de seus pais biológicos,
e vemos como ele, já adulto e mesmo sem se lembrar de praticamente nada de sua
infância e de seus pais, trabalha em um projeto que visa obter os mesmos
resultados perseguidos por David. Ao lado de Bruce trabalha a cientista Betty
Ross (Jennifer Connelly, linda), sua ex-namorada e filha de um general linha
dura (Sam Elliot, competente). Após sofrer um acidente com raios gama no
laboratório, Bruce descobre que, ao ficar raivoso por algum motivo, ele se
transforma em um gigante verde de 4 metros – o Hulk (Pixels Verdes, literalmente
incrível). Não tarda para que Bruce seja contatado por seu pai, que lhe revela a
causa de sua espantosa transformação - as mutações genéticas dele herdadas. Vem
a segunda parte, e então...
Não duvido que HULK agrade a fãs condescendentes, mas a triste verdade é que ele
oferece uma série de razões para desagradar a grande maioria. Para começar, o
roteiro escrito a seis mãos erra ao criar a figura do pai de Bruce, responsável
pelos pontos mais baixos do filme. Erra também ao introduzir desnecessariamente
a manipulação genética como fator de origem do Hulk (os raios gama, agora, são
um mero catalisador da transformação). E, o mais grave de tudo, erra ao retratar
de forma equivocada praticamente todos os personagens dos quadrinhos: Bruce
Banner virou um cara insosso e nada simpático, incapaz de estabelecer qualquer
empatia com o espectador; o Major Talbot virou um mero e ganancioso agente do
governo, que pouco tem a fazer no filme senão irritar Banner (e a nós); suaviza
o durão general Ross e, para arrematar, confere à sua filha Betty um
comportamento estranhamente dúbio em relação a Banner - ela nunca lhe diz que
ainda o ama, e o pior, volta e meia o entrega a seu pai. Uma verdadeira
injustiça com a belíssima Connelly, cujos closes de seu rosto são, de longe, o
melhor que o filme tem a oferecer.
Desde o início, Lee tenta dar maior dinâmica ao filme dividindo a tela como se
fosse a página de um gibi, nos dizendo que, “apesar de todo esse drama
psicológico raso e palavrório sem fim, este é um filme baseado em quadrinhos”.
Esse recurso, no entanto, torna-se repetitivo e mesmo desnecessário a partir da
segunda parte do longa, quando o Hulk CGI é completamente revelado. Esta, aliás,
tem sido uma das maiores polêmicas desde que foi revelado que Lee optara por
retratar o Hulk de forma 100% digital. Nas suas primeiras aparições, o Hulk
surge no escuro e aparenta ser realmente ameaçador, principalmente no confronto
noturno com os “cães-hulk” (poodle incluso!). No entanto, a partir do momento em
que o Hulk, em toda a sua glória de pixels verdes, surge sob o sol do deserto
vestindo aquele indestrutível calção roxo, toda a seriedade e drama psicológico
pretendidos até então vão por água a baixo. O Hulk da ILM parece uma versão
ultra-anabolizada daquele outro casca-grossa verde digital, Shrek: é mais
invulnerável, pesado, desproporcional e MUITO maior do que nos quadrinhos, e
ainda assim com a agilidade de um guepardo e capaz de dar saltos de quilômetros
de distância.
Com todo esse exagero (e até, em parte, por causa dele), o confronto do Hulk com
tanques e helicópteros, no deserto, é o único momento em que o filme lembra os
quadrinhos originais desenhados pelo mestre Jack Kirby. O problema é que esse
lado fantástico simplesmente detona com todo o realismo dramático que Lee
tentara (sem sucesso, diga-se de passagem) estabelecer. Depois, com uma nova
aparição do pai de Bruce, o filme resvala para um confuso e dispensável
confronto no escuro (praticamente não se distingue nada na tela), que culminará
no estranho gancho para uma continuação que, a estas alturas, é improvável.
Depois de faturar U$ 62 milhões na sua estréia nos EUA, a bilheteria de HULK
despencou graças à propaganda boca-a-boca negativa.
Como de hábito, HULK inclui uma ponta do criador Stan Lee (ao lado de Lou
Ferrigno, o Hulk da novelesca série de TV) e uma trilha eficiente de
Danny Elfman que, no
entanto, mais uma vez se esqueceu de compor um tema marcante para o personagem.
Registre-se que Elfman, ao eventualmente utilizar voz feminina e instrumentação
oriental (duduk), faz sua música soar suspeitamente parecida com a de
GLADIADOR...
Em resumo HULK, com sua esquizofrenia cinematográfica, não convence nem como
aventura e nem como drama psicológico. Realmente uma pena.
|