IDENTIDADE (Identity, EUA, 2003)
Gênero: Suspense
Duração: 90 min.
Estúdio: Columbia
Elenco: John Cusack, Ray Liotta, Amanda Peet, John Hawkes, Alfred Molina, Clea DuVall, John C. McGinley, William Lee Scott
Compositor: Ary Sperling
Roteirista: Michael Cooney
Diretor: James Mangold

Para assustar e pensar

Primeira incursão de James Mangold no suspense/terror é mais uma prova de seu talento para entreter e levar o espectador à reflexão

Pouca gente conhece o cinema de James Mangold, um dos mais talentosos cineastas surgidos nos últimos anos. Após ter passado por diversos gêneros em sua curta filmografia, como o policial (COP LAND), o drama (O magistral GAROTA INTERROMPIDA) e a comédia romântica (KATE E LEOPOLD), é a vez de dar vida a um filme de terror.

IDENTIDADE poderia parecer com muitas outras produções do gênero lançadas ultimamente, como OS OUTROS e O CHAMADO, por motivos óbvios - reviravoltas finais inesperadas, clima extremamente claustrofóbico, distorções técnicas e fotográficas para a ambientação. Porém, Mangold consegue, mesmo seguindo esses três requisitos básicos, fazer um filme ainda mais assustador e envolvente (sem desmerecer o ótimo longa de Alejandro Amenábar; já o filme de Gore Verbinski é realmente uma porcaria).

Isso porque Mangold usa todo o seu talento para entreter o espectador como nunca. Toda a primeira meia hora, na qual basicamente são apresentados os personagens, é um primor em questão de direção e movimentação de câmera. A própria seqüência dos acidentes de trânsito que levam as futuras vítimas ao motel é excelente.

IDENTIDADE fala sobre dez pessoas que acabam sendo ilhadas por uma tempestade, sendo obrigadas a passar a noite em um motel, onde começam a ser assassinadas uma a uma. A cada morte, é deixada a chave do quarto respectivo ao número que ainda falta para todos morrerem. Como suspense investigativo e claustrofóbico em sua segunda meia hora, IDENTIDADE fica cada vez mais tenso, chegando a uma cena com cerca de cinco minutos de duração tão histérica quanto o final de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA. O espectador fica cada vez mais preso à história, até que o roteiro prepara sua grande surpresa, que pode decepcionar alguns, mas certamente deixará muita gente satisfeita.

Com a primeira reviravolta armada, o filme se torna bastante confuso, aparentemente é dado um nó na trama. Outro diretor poderia fazer com que IDENTIDADE perdesse o fio da meada e se tornasse incompreensível ou com uma série de furos de coerência, mas Mangold consegue desfazer o nó aos poucos. Assim, cada nova reviravolta que ocorre no terceiro ato da produção esclarece um pouco do que foi visto, até que tudo se torna fácil e o caminho fique aberto para... Mais uma reviravolta, esta absolutamente genial.

INÍCIO DOS SPOILERS: PARE AQUI SE NÃO QUISER PERDER A SURPRESA DO FINAL

Além de ser como obra cinematográfica de entretenimento algo primoroso, IDENTIDADE também abre espaço para todas as questões mentais em volta de seu personagem principal, o psicopata vivido por Pruitt Taylor Vince. Dentro de sua cabeça, há um mundo tão complexo quanto fora dela, onde diversas outras personalidades lutam pela sobrevivência e mantêm sonhos diversificados. Nesse ponto, o roteiro do desconhecido Michael Cooney abre possibilidades inesperadas, como a presença de um sub-mundo bastante complexo dentro de cada um de nós. Ou então, algo como a "nova carne" de VIDEODROME, de David Cronemberg.

Em outra possibilidade, talvez mais lógica, o filme poderia significar a luta dos sonhos e dos medos dentro de cada pessoa. Havia lá dentro de um ser humano comum alguém que lutava para ganhar a vida, um psicopata insano, um homem de meia idade que levava uma vida absolutamente medíocre. Quando todos são confrontados, sobraria apenas um meio de se resistir, e assim acabava toda a magia e a personalidade do ser.

FIM DOS SPOILERS

Ou seja, IDENTIDADE é um filme não só para ser degustado como diversão rápida, como também para ser refletido. O melhor terror do ano.

Cotação:
Carlos Massari
FILME EM DESTAQUE