O Que Fazer em Caso de Incêndio? (Was tun, wenn's brennt?, Alemanha, 2002)
Gênero: Comédia
Estúdio: Columbia
Duração: 101 minutos
Elenco: il Schweiger, Martin Feifel, Sebastian Blomberg, Nadja Uhl, Matthias Matschke, Doris Schretzmayer, Klaus Löwitsch, Devid Striesow
Roteiristas: Stefan Dähnert, Anne Wild
Diretor: Gregor Schnitzler

O que faz o tempo

Filme alemão fala sobre a juventude da Berlim do final da década de 80

Não posso negar que este filme do alemão Gregor Schnitzler tenha sido uma decepção; esperava presenciar o vigor criativo e a sensibilidade de um Tom Tykwer - cineasta obrigatório da atual geração -, entretanto não foi bem o que aconteceu. Trata-se de uma história sobre jovens engajados que deixam uma bomba em mansão (espécie de patrimônio histórico) de Berlim e se reencontram após a bomba explodir - anos depois -, para resolver a "encrenca".

O embate entre espírito juvenil e a "fria" fase adulta, a descrença em relação àquilo que se foi um dia, a adequação ao mundo "real" e "maduro"; todos esses temas, a princípio determinantes para um ótimo mote, me pareceram tratados de forma ingênua demais. É possível uma automática comparação com Garotas de futuro, filme de Mike Leigh dividido livremente em dois eixos, o da juventude e o do reencontro entre pessoas, já envolvidas também pelas circunstâncias da vida "de fato". A questão da passagem do tempo, compreendendo estagnação, reflexão e disparidades entre o tempo que "foi" e o tempo que "está", essencial no filme de Leigh, também pode ser encontrada em O que fazer em caso de incêndio?.

Há no filme de Schnitzler um subtexto de confronto entre o que era e o que passou a ser a cidade de Berlim (e seus habitantes) após a queda do muro; vale ressaltar que, além de ser um artifício bastante oportuno, torna-se um dos pontos fortes da fita. Um dos personagens teve amputada a perna em uma manifestação. Foi atropelado por uma espécie de camburão policial. Ótima simbologia, aliás, além de posicionar algumas das relações humanas presentes na película. O que me incomodou, no entanto, foi o tom para o qual a história é dirigida. Talvez seja uma mera questão de preferência estilística, mas, como foi dito, a linguagem é ingênua. Na verdade parece não aprofundar, ou não pretender aprofundar, as questões cruciais de cada personagem - que fique claro, com exceção do citado personagem que perdeu a perna.

O melhor momento da fita é, sem qualquer sombra de dúvida, a passagem em que os personagens, após a confecção de uma bomba, abrem nostalgicamente um extintor de incêndio. Em câmera lenta, a espuma expelida é contemplada em uma espécie de dança da chuva por aquelas pessoas, já adultas. É o vínculo, construído pelo diretor, mais interessante e certeiro entre adultos e as reminiscências da juventude rebelde. A música não poderia ser melhor para a cena: "No Surprises", do Radiohead, presente no clássico álbum O.K Computer.

Cotação:
Claudio Szynkier
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