INDIANA JONES E O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, EUA, 2008)
Gênero: Aventura
Duração: 115 min.
Elenco: Harrison Ford, Cate Blanchett, John Hurt, Shia LaBeouf, Jim Broadbent, Ray Winstone, Karen Allen, Joel Stoffer, Andrew Divoff, Pavel Lychnikoff, Igor Jijikine
Compositor: John Williams
Roteiristas: Philip Kaufman, David Koepp
Diretor: Steven Spielberg

Sai o chicote, entra a bengala

Indiana Jones volta num filme decepcionante, onde um roteiro fraco e a abundância de criações digitais decretam a aposentadoria do herói

Que decepção. Tantos anos de espera. Tantos roteiros descartados. Tanta gente boa envolvida. No caso de INDIANA JONES E O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL (2008), até o título soou ruim, quanto mais o roteiro de David Koepp, que é um roteirista que já tem os seus detratores e que depois desse filme o número só tende a aumentar. Mas não culpemos apenas Koepp pelo fracasso do filme, afinal, ele partiu de uma idéia de George Lucas. Culpemos também Steven Spielberg, que desde AMISTAD (1997) não entregava um filme tão preguiçoso e sem graça. E culpemos a pressa para realizar logo o filme a todo o custo, devido à idade avançada de Harrison Ford. Afinal, o tempo é impiedoso. Vendo "Indy 4", nem dá pra imaginar que quem está atrás das câmeras é o mesmo diretor das obras-primas recentes GUERRA DOS MUNDOS (2005) e MUNIQUE (2005). Parece até um filme de George Lucas. Inclusive, o início do filme parece uma citação a LOUCURAS DE VERÃO (1973), um dos primeiros e mais simpáticos trabalhos de Lucas e uma das primeiras aparições de Harrison Ford no cinema. Talvez esse seja o problema. O filme é de Lucas. Inclusive, o personagem Indiana Jones, por mais que tenha ganhado fama com a assinatura de Spielberg, sempre foi um projeto de Lucas. E a primeira coisa que aparece no novo filme é mesmo o símbolo da hoje milionária LucasFilm, o que nem dá pra reclamar, afinal foi quem produziu mesmo o trabalho. O novo Indy pega carona nos retornos de três outros heróis da década de 80: Rocky Balboa e Rambo, ambos de Sylvester Stallone, e o John McLane de DURO DE MATAR. Por incrível que pareça, dos quatro filmes, o de Spielberg é o mais fraco, até podendo denegrir um pouco a magia que os três filmes originais ainda mantêm.

Bom, agora que eu já adiantei que não gostei de INDIANA JONES E O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL, vamos aos aspectos positivos do filme, afinal, por mais preguiçosa que seja a direção de Spielberg e por mais que os cenários sejam tão artificiais quanto os da segunda trilogia de STAR WARS de Lucas, ainda estamos falando de Spielberg na direção. E ele ainda impõe um pouco a sua marca de autor no filme. O que mais salta à vista é o tema da família disfuncional, do pai ausente, no caso o próprio Indiana Jones, que descobre com surpresa ter um filho crescido, nascido de Marion Ravenwood, a personagem da bela, simpática e sumida Karen Allen, o par romântico de Indy em OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA (1981). Aliás, uma das melhores coisas do filme é a parceria de Indy com o jovem Mutt, interpretado por Shia LaBeouf. O filme conta com uma química razoável entre os dois personagens bem como a mais engraçada cena, a da areia movediça, que resgata parte da mitologia do herói. Também podemos destacar nesse novo filme a beleza de Cate Blanchett, como uma soviética sexy de cabelos negros que usa Indy no começo do filme como meio para ter acesso a uma caixa que o governo americano guarda a sete chaves.

Como o filme se passa 18 anos depois dos eventos da última aventura (INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA, 1989), o mundo vive em plena Guerra Fria (com direito a uma cena envolvendo uma bomba atômica), o que me fez lembrar de uma das falas mais constrangedoras saídas da boca do próprio Indy: "russians!", dita com ar de rivalidade e forçando um esclarecimento que talvez fosse desnecessário para o espectador. Há outra envolvendo um excesso de respeito ao então presidente americano da época (Eisenhower). No entanto, apesar de Blanchett estar bela, com um roteiro desses seria pedir demais que ela levasse o filme nas costas, até porque ela não é a protagonista. Resultado: a pior interpretação de Cate que eu já vi no cinema. Claro que o filme nunca se leva a sério, mas acredito que é necessário ao menos uma coisa para tornar a aventura empolgante: envolvimento. E não há como se envolver com tanto cenário digital, com tantos bichos digitais (macacos, formigas, E.T.s etc). E é com essa aventura fria graças ao mau uso da tecnologia e com essa estória sem graça que parece não levar a lugar algum, que o filme fecha, ao final, de modo coerente, encerrando com um epílogo à altura.

Cotação:
Ailton Monteiro
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