Indiana Jones e o Templo da Coleção

Uma retrospectiva da fabulosa música que acompanha a trilogia do herói de aventuras mais famoso do mundo

Daniel Morguenstern

Diz a lenda que, estando de férias no Havaí, Steven Spielberg comentou com George Lucas seu desejo de fazer um filme sobre o agente secreto James Bond. Lucas respondeu-lhe que tinha em mente algo melhor que o famoso agente 007: um arqueólogo que se envolveria em aventuras ao redor do mundo. Então, ambos os cineastas - em colaboração com o diretor Philip Kaufman - criaram e deram forma a um personagem que, hoje, é um ícone do moderno cinema de aventuras: Indiana Jones (Harrison Ford).

O personagem deu origem a uma saga de três filmes que iniciou em 1981 com Os Caçadores da Arca Perdida, continuou em 1984 com Indiana Jones e o Templo da Perdição e que parou, até agora, com Indiana Jones e a Última Cruzada em 1989 (a quarta aventura está em desenvolvimento).

Em cada um dos filmes, a história era movida por uma complicada busca de Indiana por artefatos arqueológicos ou míticos. Na primeira película, ele tinha que resgatar a Arca da Aliança das mãos dos nazistas; na segunda, encontrar pedras sagradas pertencentes a uma aldeia remota da Índia; e no terceiro filme, o arqueólogo volta a enfrentar os nazistas, desta vez em busca do Santo Graal (o Cálice Sagrado de Cristo).

Assim como a saga do intrépido arqueólogo contou com uma acertada equipe de realizadores, tanto em Lucas como produtor e em Spielberg como diretor (e sem desmerecer o trabalho de toda a equipe técnica), era importante também contar com um bom suporte musical, para acompanhar as alucinantes correrias de Indiana Jones por selvas, desertos e templos.

E foi assim que John Williams colaborou com Spielberg pela quinta vez consecutiva, compondo a trilha sonora para
Os Caçadores da Arca Perdida, dando seguimento a uma parceria criativa que rendeu até agora mais de vinte filmes, em mais de 30 anos. Como já fizera na saga Star Wars, Williams recorreu à composição baseada na técnica wagneriana de leit motivs, ou seja, uma série de peças musicais que identificam um determinado personagem.

Em Os Caçadores da Arca Perdida, Indiana Jones e o Templo da Perdição e Indiana Jones e a Última Cruzada, Williams desenvolveu diferentes temas que caracterizam os personagens da trilogia.

O tema principal, "The Raiders March", que passou a identificar o personagem, é o que permaneceu ao longo da saga com algumas variações, da mesma forma como ocorrera com o tema principal de Star Wars. No primeiro filme, Os Caçadores da Arca Perdida, há três temas principais que servem de base para a partitura:


O tema de Indiana Jones, heróico e de espírito aventureiro baseado numa fanfarra de trompetes e onde logo vem todo o background orquestral ao qual Williams nos acostumou na década de 80; um tema de amor para Indiana e Marion, sua companheira de aventuras (Karen Allen), no melhor estilo clássico da Hollywood da Era de Ouro (não por acaso a história transcorre nos anos 30); e um tema místico para a Arca da Aliança, pleno de mistério e lirismo.

A trilha sonora de Indiana Jones e o Templo da Perdição também tem três temas principais:

O tema principal de Indiana; um tema para a personagem de Kate Capshaw (Willie Scott, uma cantora e bailarina); e um tema composto para os meninos escravos que Indiana descobre no templo maldito.
Observação:
estes trabalhos, além dos temas principais e suas variações, contém composições incidentais que não podem ser consideradas menos que memoráveis.

Também cabe ressaltar duas coisas: O CD de Indiana Jones e o Templo da Perdição abre com uma canção composta por Cole Porter, chamada "Anything Goes", cantada em cantonês por Kate Capshaw em um número no estilo dos antigos musicais da Broadway, onde Williams e Herbert Spencer deram um toque de grandiosidade musical na orquestração. Além disso, o compositor desenvolveu um tema em dialeto sânscrito acompanhado por corais masculinos e percussão, para a cena dos sacrificios no templo maldito, e cuja audição no CD nos remete imaginariamente ao horror que ali dentro se vive.

O terceiro filme, Indiana Jones e a Última Cruzada, voltou a contar com um tema religioso e místico semelhante ao do primeiro (o tema do Graal serve de base para narrar musicalmente a conflituada relação entre Indiana e seu pai, um genial Sean Connery, e também é ouvido na aparição do cavaleiro medieval guardião do Graal, na parte final do filme). Como tema dos nazistas, Williams compôs um genial scherzo. Como de hábito, Williams encerra a partitura com uma vibrante suíte que relembra os temas e principais momentops do score.

É precisamente em relação à música desta terceira parte da saga, que Steven Spielberg escreveu: "O tom de Indiana Jones e a Última Cruzada se situa numa efervescente excursão de pai e filho pelo mundo, mais que na linha divertida e surpreendente de Os Caçadores da Arca Perdida, ou mais que na viagem subterrânea e sombria que fiz em Indiana Jones e o Templo da Perdição... a música de John tem fortes intervalos que estabelecem uma relação emocional entre pai e filho, de uma maneira lírica sem  sentimentalismo... O que acredito ser diferente, de diversas modos, a respeito desta partitura, é que foram utilizados apenas fragmentos do conhecido tema de Indiana Jones. Sentimos que os filmes cresceram até um ponto em que não tivemos que apelar emocionalmente a ele cada vez que ocorre algo heróico, como o fizemos nos dois anteriores..."

Por fim e como informação aos colecionadores, podemos mencionar que existe uma versão “promocional” de um disco chamado Indiana Jones and the Fate of Atlantis, mas que na sua essência é uma verdadeira cópia do trabalho genuíno de John Williams. Este disco pirata é baseado num video game, para o qual o compositor nunca escreveu ou gravou uma única nota original.Na verdade este CD contém temas extraídos de Indiana Jones e a Última Cruzada, que não estão na edição regular do score. Além disso, o som deste CD é realmente horrível e não merece consideração por parte de ninguém.

Pode-se dizer que a trilha sonora de Indiana Jones - em qualquer de suas três edições originais - é altamente recomendável para os aficionados da música do cinema, ou para qualquer apreciador da boa música sinfônica. É verdade que cada disco tem a sua própria identidade, um poderá ser mais apreciado que os outros, mas de qualquer maneira não podem - nem devem - faltar em qualquer discoteca cinematográfica.

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