Jerry Goldsmith

Pouquíssimos compositores de trilhas sonoras alcançam o reconhecimento do público em geral. Jerry Goldsmith, assim como seus contemporâneos John Williams e John Barry, é um notável membro dessa elite. Sendo o mais prolífico compositor americano do meio, listar apenas uma parte dos trabalhos de Goldsmith é uma tarefa árdua. O público e os críticos em geral sem dúvida mencionariam, entre numerosos filmes de cinema e TV, Patton, The Sand Peebles, A Pach of Blue, Instinto Selvagem, Lancelot, além de sua inestimável contribuição para filmes de ficção científica, terror e fantasia, como Jornada nas Estrelas, Planeta dos Macacos, Fuga do Século 23, A Profecia, Alien, O Vingador do Futuro, etc. Ao longo do tempo, Goldsmith formou uma escola no meio musical cinematográfico, sendo o primeiro compositor a manter uma seção fixa de instrumentos eletrônicos em sua orquestra. Jerrald Goldsmith nasceu em Los Angeles em 29 de fevereiro de 1929, e aprendeu a tocar piano aos 6 anos. Depois de estudar no Dorsey High School e Los Angeles City College durante os anos 40, incluindo aí um semestre de aulas sobre música de cinema com o lendário Miklos Rosza, juntou-se ao departamento musical da CBS em 1950. Inicialmente em um papel secundário, passou em seguida a compor em tempo integral para o rádio e, posteriormente, TV. Sua entrada no cinema deu-se no final dos anos 50 a convite de Alfred Newman, e após um começo hesitante, teve um crescimento surpreendente nos anos 60 ao agarrar todos os tipos imagináveis de assuntos, com alto domínio estilístico.

Na TV, suas obras incluem trilhas e temas para Além da Imaginação, Viagem ao Fundo do Mar, Os Waltons, Barnaby Jones, QB VII e outros mais. Em um dos seus primeiros trabalhos no cinema, City Of Fear, o pianista que desejava não estava disponível. Seu agente então lhe indicou um desconhecido, Johnny Williams. O resultado é que o futuro compositor de Tubarão tocou na orquestra de Goldsmith em vários trabalhos. Alguns anos depois, Jerry perdeu um grande pianista e o cinema ganhou um dos seus mais proeminentes compositores. De sua fase televisiva, Jerry Goldsmith tem gratas lembranças de seu trabalho em uma das clássicas séries dos anos 60, Twilight Zone. Apesar de ter composto para diversos episódios, seu predileto é The Invaders, também um dos prediletos dos fãs da série. "O fato de não haver nenhuma palavra falada tornou ainda maior o impacto da música", relembra Goldsmith. "Os sons tinham que comunicar todos os sentimentos e emoções da história. Fiquei muito contente com o resultado, e acho que aquele foi um dos meus melhores trabalhos." A trilha para o clássico contemporâneo da ficção científica Planet of The Apes foi o primeiro fruto de sua colaboração com o falecido diretor Franklin Schaffner (o segundo foi Patton), e um dos mais gratificantes. Nela, graças à liberdade de ação dada pelo diretor, Goldsmith empregou uma variedade de instrumentos de sopro, percussão e aparelhos musicais incomuns. À época, foi uma de suas gravações mais populares.

Após uma experiência difícil com Ridley Scott em Alien, onde o diretor cortou do filme muito da trilha original, inclusive substituindo-a por música clássica nos créditos iniciais e finais, o compositor voltou a trabalhar com ele em A Lenda. Goldsmith lembra de ter passado cinco meses compondo uma trilha que ele classifica como uma das melhores que já fizera. Infelizmente, ele também lembra que seu trabalho, pelo menos na versão americana, foi substituída por uma trilha composta pelo grupo alemão Tangerine Dream. "Quando um filme não fica como o esperado," ele observa, "os responsáveis começam a se agarrar a qualquer coisa para se salvarem. Infelizmente, a última coisa à qual se agarraram foi minha música".Outra experiência difícil foi em 1981, com Outland. "Este era um filme tão mecanizado que era difícil explorar o elemento humano", relembra. "Tive muita dificuldade, já que tudo que eu precisava estava no papel. Porém, quando vi o filme pronto, eu simplesmente não o senti e isso não foi muito agradável." Apesar de compor muito para filmes de terror, Goldsmith não é exatamente um apreciador do gênero. Mesmo assim, o período em que compôs para Psicose II lhe permitiu que fizesse um tributo a um de seus heróis, Bernard Herrmann, autor da partitura do Psicose original. O resultado foi algo arrepiante e imprevisível, como Norman Bates. "Gosto de pensar que tive uma abordagem mais lírica do que Herrmann, envolvendo Norman em uma música inocente e solitária. Conforme o personagem foi mudando, a música também mudou, tornando-se demente e esquizofrênica." A música para A Profecia, seu único Oscar até agora, foi uma das mais fáceis de ser composta. "Foi estranho", ele comenta. "Um dia eu simplesmente sentei e escrevi o material, antes de ir a Roma. Quando voltei, comecei a trabalhar na trilha." O resultado foi uma música intensa, com um dos corais mais marcantes do cinema e que amplificou em muito o impacto das imagens.

Em 1982, chegou a hora de trabalhar em Poltergeist. Ao entrar no estúdio com uma orquestra de 60 elementos, um coro de 60 vozes e nada de eletrônicos, Goldsmith criou uma trilha exuberante e impressionista, cujos movimentos acrescentaram tons sobrenaturais até mesmo a uma canção de ninar (Carol Ann's Theme). Os arranjos e o uso magistral das vozes foram dois dos elementos que lhe ajudaram a conquistar mais uma indicação ao Oscar. Seu trabalho de 1979 em Jornada nas Estrelas - O Filme, que também lhe valeu uma indicação para o Oscar, é um clássico exemplo do "precisamos para ontem". A primeira jornada cinematográfica da USS Enterprise foi amaldiçoada por diversos atrasos de produção, que fizeram com que Goldsmith concluísse seu trabalho perigosamente às vésperas da estréia. "Eles me traziam o filme para a orquestração em pedacinhos, uma ou duas seqüências de cada vez. Foi bem apertado. A última coisa que fiz foi compor a música para as cenas da abertura (Klingons). Chamei Alexander Courage e Fred Steiner (que trabalharam na série original) para me ajudar e terminamos a musica três dias antes da estréia do filme." Dada a natureza desesperadora da situação, houve um verdadeiro milagre: ao invés de produzir uma cópia de Guerra nas Estrelas, Goldsmith compôs uma trilha original, ao mesmo tempo forte e sutil, combinando orquestração, percussão, instrumentos eletrônicos e o tema familiar de Alexander Courage. Essa contribuição musical épica foi considerada, até pelos mais severos críticos de cinema, como um dos mais brilhantes atributos de Star Trek- The Motion Picture. Especificamente para as cenas da Nuvem Espacial (V´ger), o compositor utilizou um estranho instrumento musical chamado  "Blaster Beam". Superficialmente ele parece um simples instrumento de percussão, porém ao ser batido emite uma vibração com freqüência muito baixa. A criatividade do compositor foi amplamente reconhecida, tendo o álbum da trilha se tornado uma de suas gravações mais vendidas, e que finalmente foi relançado em uma caprichada edição com músicas adicionais, no final de 1998, pela Sony.

Oito anos mais tarde, sua música ressurgiu em Jornada nas Estrelas - A Nova Geração. O compositor não acompanhou a série, mas gostou do trabalho que incorporou seu tema ao de Alexander Courage. Em 1989, sem a pressa do primeiro filme, Goldsmith retornou à Enterprise para compor a partitura de Jornada nas Estrelas V, que apesar de não possuir a originalidade do trabalho anterior, ainda é uma das melhores trilhas da série cinematográfica. Em 1995, depois de anos afastado da TV, o músico compôs o grandioso tema de abertura da nova série Star Trek Voyager. Em 1996 compôs a música para Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato, juntamente com seu filho Joel. Em 1998, desta vez sozinho, repetiu a dose com o mediano Jornada nas Estrelas: Insurreição.

É difícil de acreditar que um compositor de qualidade e com um trabalho no cinema que abrange não só as trilhas já citadas, mas também a trilogia Rambo, Gremlins I e II, Viagem Insólita, O Rio Selvagem, Congo, L. A. Confidential, A Múmia, O 13º Guerreiro, O Homem Sem Sombra, etc, tenha sido tão pouco prestigiado pela Academia de Hollywood. Sua última indicação foi em 1998, por Mulan. Mas Jerry Goldsmith é, acima de tudo, um profissional que, apesar de ter diminuído de produção nos últimos tempos e ter sido criticado por seus últimos scores, não se descuida da qualidade do seu trabalho. Há alguns anos ele declarou. "Eu estaria queimado há muito tempo se eu simplesmente pegasse um emprego, o dinheiro e desse o fora. Ainda existe um desafio para mim na composição de trilhas. O que me interessa é abraçar um projeto que me ofereça uma chance de fazer algo que ainda não tenha feito. Quando fico excitado com alguma coisa, a criatividade simplesmente flui. Gosto de uma boa luta. A trilha sempre será feita, mas não fico feliz até que seja bem feita", conclui o veterano compositor de longos cabelos brancos.

Filmografia de Jerry Goldsmith, cortesia de Internet Movie Database.

Jorge Saldanha

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