a força da sinfonia

Houve época em que conhecia apenas o violonista John Williams, e o compositor homônimo não existia para mim. Descobri o John Williams compositor ao assistir a Terremoto, filme-catástrofe que definiu de maneira bombástica o filme-catástrofe. Assisti a Terremoto no pior lugar possível para ver algo sobre revoltas geológicas: San Francisco, sempre à beira da catástrofe às custas de reacomodamentos da crosta terrestre. O que mais me impressionou no filme, afora o perigo iminente e o impagável desfile de péssimos atores, foi o caminho sem escalas que a música fazia em direção ao estômago, agredindo-o. Muitas trompas, muitos uivos de trombones, muitos estertores de contrabaixos. Que tragédia! Não bastavam Ava Gardner do lado de lá do fim de carreira, Charlton Heston fora de forma fingindo heroísmos, efeitos especiais de subúrbio, Los Angeles devastada a perder de vista. Tinha que estar ali, sempre ali, por todos os canais de som dolby (ou terá sido antes do dolby?), aquela música nauseabunda, nojenta e muitíssimo apropriada a terremotos.

Assim conheci o compositor de cinema John Willliams. Com dor de estômago. Desde então, Terremoto permanece como minha trilha sonora favorita das quase cem que ele já compôs. Nenhuma a supera em poder de comoção, em simbiose com a matéria do filme, em reações físicas provocadas na inconsciência, sem tréguas de silêncio. Há pouco o New York Times comentava esse talento de John Williams, o de preencher por mais de duas horas filmes de ação, tragédia e romance com música ininterrupta. Seria um novo Wagner, um novo Liszt, a compor dramas líricos intermináveis ou poemas sinfônicos inacabáveis? E, vejam: a trilha sonora de A Vingança dos Sith, a respeito da qual o Times se derramou em bons parágrafos, não é caso único. Tudo se reporta ao primeiro Star Wars, uma geração atrás, trilha sonora sinfônica num momento em que se tornara risível música sinfônica em superprodução hollywoodiana. Que época aquela das modernidades eletrônicas, dos "dabadabada" das trilhas de Francis Lai! Só compositores à moda antiga ainda se atreviam ao anacronismo dos anacronismos, a orquestra sinfônica.

O retorno da orquestra sinfônica ao cinema foi obra de Stanley Kubrick, sempre ele. Não fosse o escândalo de colocar o "Danúbio Azul", de Strauss, para embalar naves espaciais em 2001 e tudo teria ficado como estava, "dabadabadas" e eletricidades. John Williams mordeu a isca de Kubrick e, a partir dos anos 1970, foi deixando surgir, uma a uma, trilhas sonoras orquestrais quase mahlerianas, primeiro desajeitadamente, depois cheio de certezas. Uma vez cheguei a escrever quase um tratado sobre a trilha de Tubarão, tanto ela me impressionou. Se o impacto da música era imenso, maior era a ameaça implícita da ausência da música. Isto se passou depois de Terremoto e antes do primeiro Star Wars. Só depois veio a trilogia que recolocou o heroísmo na música de cinema: Contatos Imediatos do Terceiro Grau (quem diria: a música de John Williams como interlocutora de humanos com ETs estupefatos...), Superman e Caçadores da Arca Perdida, o primeiro dos Indiana Jones que, dizem, ano que vem se completam. O açucaramento total de ET viria depois, mas aí a batalha já estava ganha. O sinfônico tinha voltado ao cinema e, na sua esteira, vinha o exagero total de John Williams: trilhas sonoras para jogos olímpicos, vinhetas para noticiários de redes de televisão, a titularidade na regência da Orquestra Boston Pops, versão veranil da sisuda Sinfônica de Boston. John Williams tinha conquistado o dom da ubiqüidade, era dele o poder de fazer penetrar no inconsciente a trilha sonora do seu tempo.

Hoje se pode dizer que A Vingança dos Sith é melhor música do que bom filme. Mas sempre me atraíram filmes mais íntimos, mesmo quando épicos. O Império do Sol, por exemplo, que tem boas passagens corais que liberam John Williams da música nazista tipo "Carmina Burana", essa mesma que povoa Star Wars. Ou, pasmem, me agrada o primeiro Esqueceram de Mim, com seu tema natalino bem afetivo. No entanto, obra-prima por obra-prima, fico com o primeiro Parque dos Dinossauros. Depois de tantas orquestras desesperadas, tanta grandiloqüência, tanto exagero de orquestração, nada mais reconfortante do que ouvir um solitário solo de piano, como aquele que se ouve na cena final desse filme de 1993. Ali a música é tão boa que continuou frutificando através dos anos até atingir a trilha sonora de A.I. - Inteligência Artificial. Sim, tudo começou com o "Danúbio Azul" naquele filme meio hippie de Stanley Kubrick. Com o caminho aberto à sua frente, John Williams abraçou o idioma orquestral do século 19 e, como ainda hoje se ouve, se pôs a homenagear incansavelmente dois antecessores seus, Erich Wolfgang Korngold e Max Steiner. Sem eles, parece dizer a música de John Williams, a trilha heróica dos Star Wars não existiria. Sem eles, a orquestra sinfônica não teria voltado ao cinema. Sem eles, Darth Vader correria um sério perigo: o de ver sua música ameaçadora reduzir-se a "dabadabadas".

Celso Loureiro Chaves (Músico)
Artigo originalmente publicado no caderno Cultura do jornal ZERO HORA

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