O JÚRI (Runaway Jury, EUA, 2003)
Gênero: Suspense
Duração: 127 min.
Estúdio: Fox
Elenco: John Cusack, Gene Hackman, Dustin Hoffman, Rachel Weisz, Bruce Davison, Bruce McGill, Jeremy Piven, Nick Searcy
Compositor: Christopher Young
Roteiristas: Brian Koppelman, David Levien
Diretor: Gary Fleder

Já vi esse filme - muitas vezes

Quando visto e comparado com outras obras do gênero, o filme de Gary Fleder vira apenas mais um entre tantos, sendo fadado ao esquecimento

Não será apenas um acaso se o espectador perceber, durante a projeção, que se sente um pouco familiarizado com o que vê. Porque O Júri é tudo o que já foi visto. É eficiente? Sim. Tem uma história bem amarrada? Sim. A direção é correta? É. O filme é bom? Não. 

Enquanto o cinema for visto como lazer, como programinha de sábado à noite pra depois sair e encher a cara ou então ir no motel com a namorada, filmes como O Júri vão abundar. O filme não é nada mais do que um manual de como fazer uma película nos moldes de todo o sempre, da fórmula desgastada e chata que o espectador conhece familiarmente, mas insiste em querer rever. Na realidade, qualquer filme baseado numa história do Paulo Coelho dos tribunais ou qualquer ´suspense´ no estilo ´as grandes corporações não prestam e eu, um sujeito único, o super-herói da América, vou conseguir derrubar o seu império´, tudo isso já está mais que sabido. Quem viu um, viu todos. Na boa, quantas vezes isso já não apareceu na tela? As pessoas não se cansam da mesma lenga-lenga? É o eterno arroz e feijão, come-se diariamente e nunca se cansa. O problema é quando, diante de um prato mais elaborado, a rotina se torna mais importante e o arroz e o feijão falam mais alto...

De que serve um filme bem feito se o blá-blá-blá é o mesmo? Firma de advogados, indústria de tabaco, indústria de armamento, fábrica de chucrutes... a escória da América, que nunca resistirá ao bom caráter do mocinho fim dos vinte, pé na casa dos trinta. O roteiro é sempre o mesmo: sujeito idealista vê seu mundo cair diante da sujeira dos poderosos. Entretanto, por seu caráter acentuado e por acreditar num bem superior que paira nos céus americanos, será capaz de destruir todo o mal que pode ameaçar o bem do país. Temos a história de uma mulher que processa a indústria armamentista pois seu marido foi assassinado durante uma chacina, sendo que a arma utilizada na matança fora adquirida no mercado negro. Dentre os membros do júri está Nicholas Easter (John Cusack), que aparentemente não gostaria de cumprir com seu dever cívico. A partir daí, uma série de jogos de poder, envolvendo os jurados, a acusação e a defesa, se instala. 

O início do filme é assustadoramente ruim, mostrando uma festinha de aniversário num vídeo caseiro, um pai que chega para trabalhar no escritório (e aquele clichê horrível em que pessoas que chegam pra trabalhar num escritório andam tresloucadamente, como se estivessem atrasadíssimas, enquanto um capacho os segue falando como uma matraca) e que, para deixar seu filho contente, tenta lembrar uma musiquinha infantil junto com sua secretária (isso é para o público pensar: ´Nossa, um pai tão dedicado vai morrer! Pobre criança!´). A primeira parte do filme, até o momento em que os jurados começam a ser selecionados, é dirigida da maneira mais estereotipada possível, com direito a escolha de gravatas para o tribunal e velhos poderosos fumando charuto (ai, ai, ai... será que todos os velhos poderosos não fazem nada a não ser fumar charuto?). Além disso, há a insistente mania em apresentar o savoir-vivre dos personagens logo nos primeiros minutos da projeção, seguindo a seguinte filosofia: o espectador tem que saber com que está lidando. Será que o roteirista não atina para o fato de que há duas horas de filme para o desenvolvimento dos personagens? É realmente necessário rotular cada um para que o espectador saiba onde está pisando? Novamente, a tendência da rotulação de personagens, para que o espectador não se perca muito num material em que se perder é um pouco impossível...

Entretanto, começam as reviravoltas. Apesar de fantasiosas, o filme ganha ritmo, e realmente achei interessante a falta de escrúpulos dos personagens. Ao invés de lutarem por uma causa, estão apenas preocupados com as repercussões monetárias e profissionais que ela pode implicar. O que interessa é o dinheiro e a reputação, por assim dizer. Mas o filme tem a incrível capacidade de destruir suas boas qualidades, optando por um final ridiculamente correto, esdrúxulo e sentimentalóide. É realmente patética a cena final, com o óbvio pianinho melodramático, em que dois personagens centrais da trama avistam crianças brincando num playground. Será que é possível nos poupar da lição de moral? Numa boa, os roteiristas e o diretor Fleder deveriam ver o excelente O Homem que Copiava, em que existem clichês, mas bem trabalhados e reciclados de maneira inventiva (já que se trata de um homem que copiava... parabéns, Furtado!).

Quem leva o filme nas costas, no entanto, são os fantásticos atores. Seguros, profundos, precisos, são todos assim. Cusack, Hoffman e Hackman, como de costume, tecem personagens de forte presença, dando vida a uma trama um pouco ´conspirativa´. Quem surpreende, no entanto, é Rachel Weisz. A garota rouba todas as cenas em que aparece, com uma interpretação apaixonada. A tela vibra de energia quando ela está em cena, o que faz bem para o filme. O que incomoda um pouco é a crença de Fleder de que o espectador é meio retardado. Um exemplo claro: quando Weisz deixa o tribunal com sua peruca loira, ele faz questão de que ela a arranque na porta da sala de audiência, como se o corredor estivesse vazio e ninguém achasse estranho um indivíduo deixar o tribunal e arrancar uma peruca. Isso, obviamente, é feito para que o espectador não se confunda e compreenda que a loira, na verdade, é a morena disfarçada. Dá um tempo, meu!

Se esquecêssemos toda a história cinematográfica e filmes como A Firma, Gingerbread Man (que, apesar de ser do Grisham, tem uma interessante direção de Robert Altman, fazendo com que a megalomania do escritor seja um pouco mais plausível), O Homem que Fazia Chover, Tempo de Matar, O Cliente, O Dossiê Pelicano, todos do advogado com pretensões literário-cinematográficas, O Júriseria um filme excelente. Apesar de tratar de assunto pertinente de forma inteligente (o porte de armas nos EUA e o respaldo constitucional para isso), O Júrisofre do vírus do repeteco, resultado de espectadores preguiçosos amantes do arroz-feijão e da indústria papa-tudo do cinema. Isolado de uma memória cinematográfica, funciona bem, apesar da sua tendência boba de querer surpreender o espectador (e do final eu-acredito-em-duendes). Mas, quando visto e comparado com seus priminhos, O Júri vira apenas mais um, sendo (felizmente) fadado ao esquecimento.

Podem ser duas horas de diversão já conhecida e reciclada, mas será que não seria mais prático fazer uma compilação de todos os filmes de tribunal e de megalomanias corporativas e rever tudo num dia de chuva em casa? Quero dizer, ver um, porque quem viu um, acaba vendo todos. Justificadas estão as duas estrelas: não acho que filme é lazer. Além disso, o cinema, campo de produção de discursos e enunciados, tem que ser visto de forma global, já que o parâmetro para o gosto é ditado através do outro. E assim sempre será.

Cotação:
Bruno Moreto
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