KILL BILL: VOL. 1 (Kill Bill: Vol. 1, EUA, 2003)
Gênero: Aventura
Duração: 111 min.
Elenco: Uma Thurman, David Carradine, Lucy Liu, Daryl Hannah, Vivica A. Fox, Michael Madsen, Michael Parks, Sonny Chiba
Compositores: Luis Bacalov, Bernard Herrmann, Isaac Hayes, Quincy Jones, Tomoyasu Hotei, Billy May
Roteiristas: Quentin Tarantino, Uma Thurman 
Diretor: Quentin Tarantino

Q & U são do meu time

Tarantino retorna em mais uma homenagem ao que ele realmente gosta - aquilo que a crítica esnobe chama de "lixo cultural"

Quentin Tarantino, o maior cineasta norte-americano surgido nos anos 90, depois de seis anos em jejum voltou no final de 2003 com uma obra até certo ponto inesperada, mas que possui sua marca registrada: KILL BILL, que por ter ficado bem longo foi dividido em dois "volumes". Com um injustificável atraso de seis meses, a distribuidora Lumiére lançou o VOL. 1 no Brasil uma semana depois da estréia do VOL. 2 nos EUA, e depois do filme já ter sido lançado em DVD por lá. 
 
A gênese de KILL BILL remonta à época da filmagem do antológico PULP FICTION, quando "Q" (Quentin) e sua estrela "U" (Uma Thurman) esboçaram a história de "A Noiva", uma assassina profissional de um grupo que é uma versão sombria das PANTERAS, o Deadly Viper Assassinations Squad - D.I.V.A.S, chefiado pelo misterioso Bill. No dia do seu casamento, grávida, ela sofre um atentado de seus ex-colegas, a mando de Bill (que tudo indica é o pai da criança). Ela sobrevive mas perde o bebê, e depois de passar quatro anos em coma inicia sua vingança, eliminando seus antigos companheiros um a um, até finalmente confrontar Bill (isso é visto no VOL. 2).
 
Nessa trama de vingança Tarantino usa e abusa de uma série de referências pop retiradas do cinema e da TV dos anos 60 e 70, o que a crítica esnobe chamaria de "lixo cultural", as recicla e o resultado é um filme violento, com menos diálogos e mais ação do que os anteriores do diretor. Então, se você já é um quarentão, reconhecerá facilmente as homenagens aos filmes asiáticos  de samurai e kung fu, e séries de TV: de cara, o filme começa com o logo dos "Shaw Bros.", que por anos produziram em Hong Kong centenas de filmes de baixo orçamento; o traje amarelo de Uma Thurman é uma réplica do usado por Bruce Lee, o maior astro das artes marciais, em BRUCE LEE NO JOGO DA MORTE (o tênis, inclusive, é do mesmo modelo); as máscaras dos membros da gangue Crazy 88 são iguais à que Lee utilizava no seriado de TV O BESOURO VERDE (cujo tema musical é ouvido na chegada da Noiva a Tóquio); a participação do ator Sonny Chiba, muito popular no Japão; David Carradine, que encarna o Bill, era o astro da famosa série de TV KUNG FU; O-Ren Ishii (cuja origem é contada num violento animê) é interpretada por Lucy Liu, uma das PANTERAS do cinema; e por aí vai.
 
Há referências a outros gêneros, como os spaghetti-westerns e os filmes blaxploitation, que ecoam nas músicas de Luis Bacalov (a utilização do tema "The Grand Duel" no animê de O-Ren Ishii é genial), Ennio Morricone (com o tema de "Death Rides a Horse") e Isaac Hayes selecionadas para a trilha sonora. Mas há também elementos menos óbvios para o público em geral, como as homenagens ao diretor japonês Kinji Fukasaku: a música tema de seu filme
Battle Without Honor and Humanity (1998), ouvida antes do inacreditável combate da Noiva com os Crazy 88, virou a assinatura musical de KILL BILL, e a atriz Chiaki Kuriyama repete aqui praticamente o mesmo papel de assassina que viveu no último filme de Fukasaku, BATTLE ROYALE (2000). Até mesmo JORNADA NAS ESTRELAS é homenageada, o provérbio "klingon" que abre o filme ("A vingança é um prato que se come frio") foi retirado do melhor filme da série, JORNADA NAS ESTRELAS II: A IRA DE KHAN (1982).

Tudo isso é complementado por uma violência inédita em filmes do diretor - há uma profusão de mortes, cabeças e membros decepados, combates corporais e sangue espirrando em uma escala tão grande que provoca risos, ao invés de chocar. Talvez o maior choque seja ver os feios pés descalços de Uma em close - mas, como um colega já disse, aqueles dedões tortos fazem parte do charme da Noiva, uma diva! Também não faltam os cenários fake e aqueles deliciosos diálogos tolos típicos de seus filmes. Enfim, KILL BILL: VOL. 1 é uma delícia para quem conhece as inúmeras referências jogadas na tela e nos alto-falantes, e um divertido filme de ação para os mais novos ou desavisados. 

Aposto que Tarantino sentiu um prazer especial com os elogios a KILL BILL, vindos dos mesmos críticos que consideram a matéria prima de seu filme como mero "lixo cultural". Ao final, por vias transversas, Q & U - o diretor e sua musa - fazem justiça aos nossos ídolos. A vingança é mesmo um prato que se come frio... e que venha logo o VOL. 2.

Cotação:
Jorge Saldanha
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