KING KONG (King Kong, EUA, Nova Zelândia, 2005)
Gênero: Aventura
Duração: 187 min.
Elenco: Naomi Watts, Jack Black, Adrien Brody, Andy Serkis, Jamie Bell, Kyle Chandler, Lobo Chan, Thomas Krestschmann, Evan Parke, Colin Hanks, John Sumner
Compositor: James Newton Howard
Roteiristas: Fran Walsh, Philippa Boyens e Peter Jackson, baseado em estória de Merian C. Cooper e Edgar Wallace
Diretor: Peter Jackson

Gigantesco Amor

Nova versão do clássico reconta a velha love story entre o gorilão e a loira, mas acima de tudo é uma declaração de amor de Peter Jackson ao filme original e ao próprio cinema

KING KONG, o clássico de 1933, à época foi um marco do cinema fantástico e um prodígio da tecnologia cinematográfica. Há gerações vem maravilhando pessoas de todas as idades, e foi a inspiração de muitas que resolveram ingressar no mercado cinematográfico, como o mago dos efeitos stop motion Ray Harryhausen. Infelizmente, ao longo dos anos, gerou uma continuação fraca, várias imitações, apelações risíveis tipo KING KONG Vs. GODZILLA e uma badalada mas fraca refilmagem em 1976.

Mas a justiça, ainda que tardia, chegaria para o gorilão. Entre as crianças que descobriram todo um novo mundo de maravilhas através do clássico, estava o futuro diretor de cinema neo-zelandês Peter Jackson, que o assistiu em 1970 aos nove anos de idade. Jackson acalentou por décadas o sonho de fazer a sua própria versão desta releitura de A Bela e a Fera. Após OS ESPÍRITOS (1996), que ele dirigiu para a Universal, a hora parecia ter chegado. O estúdio o encarregou de desenvolver uma refilmagem que seria fiel ao original de 1933, inclusive com a ação situada nos anos 1930. Infelizmente, a pouca repercussão de OS ESPÍRITOS levou a Universal a suspender o projeto, e Jackson acabou dirigindo para a New Line outro projeto há muito acalentado - a adaptação da trilogia O SENHOR DOS ANÉIS. Felizmente, três filmes e 17 Oscars depois, Jackson voltou a ter o cacife necessário para retomar seu projeto de sonho, mediante um cachê de U$ 20 milhões e com U$ 150 milhões de orçamento para gastar.

Ao final Jackson estourou o orçamento em mais U$ 50 milhões, mas independentemente do retorno que possa obter nas bilheterias mundiais, o resultado indiscutivelmente está à altura do sonho acalentado por décadas.
E, aos que achavam que a tecnologia digital já tinha dado tudo o que tinha que dar, o filme é um assombro. A Weta Digital, empresa de efeitos do próprio Jackson, reproduziu com fidelidade a Nova York da Grande Depressão, colocou na tela uma impressionante Ilha da Caveira povoada de criaturas de pesadelo e criou um Kong como nunca se viu.

Para Kong Jackson utilizou a mesma técnica que empregara para criar o Gollum de O SENHOR DOS ANÉIS: os movimentos e a voz do ator Andy Serkis (que no filme também interpreta o cozinheiro do navio, Lumpy) foram capturados e aplicados o macaco digital. Serkis estudou profundamente o comportamento dos grandes gorilas, e o resultado é de cair o queixo. Com um foto-realismo que mostra seu corpo peludo coberto de cicatrizes deixadas pelos combates com monstros pré-históricos, expressões faciais, sons e movimentos de um verdadeiro gorila, o Kong de Jackson é a criatura digital mais perfeita já surgida nas telas.

O roteiro é muito fiel à história original de Merian C. Cooper e Edgar Wallace. Na Nova York devastada pela depressão, o cineasta picareta Carl Denham (Jack Black, uma emulação perfeita de Orson Welles) contrata a desempregada Ann Darrow (Naomi Watts, deslumbrante e de interpretação intensa) para rodar um filme na inexplorada Ilha da Caveira. Chegando lá, ambos e a tripulação do navio Venture descobrem que o lugar é habitado por uma tribo de selvagens agressivos, dinossauros e um gorila gigante, o último de sua espécie. Ann é raptada pelos nativos e oferecida em sacrifício a Kong. O inevitável acontece: o macacão apaixona-se pela pequena loira, que na medida do possível corresponde ao seu afeto, principalmente após ser salva por ele das garras de três tiranossauros. Uma equipe do Venture, liderada pelo escritor Jack Driscoll (o narigudo Adrien Brody, como sempre com sua cara de cachorrinho triste) parte para salvar Ann. Depois de muita ação na ilha, eles a resgatam e Denham consegue capturar Kong vivo, levando-o para ser apresentado como uma atração em Nova York.

As mudanças na estrutura narrativa são mínimas - Ann agora é uma atriz do vaudeville, e Driscoll, que no original era um marujo, virou o roteirista do filme de Denham. São introduzidos alguns personagens secundários de maior relevo, e os principais tem a caracterização bem mais desenvolvida. As situações originais são expandidas, algumas até o ponto do exagero - a ilha fervilha de criaturas digitais, muitas horripilantes e remetendo ao passado trash de Jackson - outras, que foram escritas mas ficaram de fora do filme original foram aproveitadas, como o confronto com insetos gigantes no fundo da ravina. Mas de um modo geral, até o confronto final de Kong com a esquadrilha de biplanos no topo do Empire State, o filme é uma carinhosa recriação expandida do original. Talvez recriação seja um
termo inadequado: tributo ou homenagem me soam melhores.

Infelizmente, durante a produção houve uma baixa importante. O compositor Howard Shore, o premiado autor das trilhas da trilogia O SENHOR DOS ANÉIS, teve algumas "desavenças artísticas" com Jackson e, após cinco meses de trabalho, foi dispensado. Para o seu lugar o diretor escalou o sempre competente James Newton Howard, que em apenas um mês compôs e gravou quase três horas de música. A partitura ficou muito boa, mas pressinto que Shore teria feito algo melhor. Ironicamente Shore pode ser visto no filme, regendo trechos do score original de Max Steiner durante a apresentação de Kong ao público nova-iorquino. 

Enfim, apesar de alguns excessos, como as suas três horas de duração, o KING KONG de Peter Jackson é um dos melhores filmes de entretenimento a atingir as telas em anos. Ele tem de tudo que a melhor diversão cinematográfica pode oferecer: drama, comédia, romance, cenas de ação alucinantes como há muito não se via, tudo temperado pela melhor tecnologia de computação gráfica que existe. Além de ser uma nova
versão da velha love story entre o gorilão e a loira, KING KONG é acima de tudo uma declaração de amor a um filme essencial, e ao cinema de modo geral. E com ele e a trilogia de Tolkien, Jackson pode com justiça, desde já, ocupar o trono que já foi de Lucas e Spielberg.

Cotação:
Jorge Saldanha
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