Apartir
das transformações pelas quais passou a música de cinema nos anos 60, o
argentino Lalo Schifrin desenvolveu um estilo músical único. Suas
marcantes misturas de efervescente jazz, eloqüentes passagens sinfônicas
e faixas de ação ritmadas garantiram sua popularidade através de
gerações de ouvintes, e hoje seus talentos voltam a ser requisitados em
produções de primeira linha. O premiado compositor se destaca com
trabalhos originais, que misturam jazz e música clássica, além de
criações cinematográficas de alta qualidade. Graças a elas, Schifrin
garantiu uma posição privilegiada na galeria dos compositores
contemporâneos do cinema. Juntamente com a esposa Donna, Schifrin vem
lançando alguns dos seus trabalhos mais populares através da sua própria
gravadora, Aleph Records. Entretanto, adquirir os direitos de certas
trilhas nem sempre é uma tarefa fácil, como o próprio compositor nos
conta. "O problema é que certas gravadoras, que possuem os scores,
tornaram-se parte de conglomerados, e isso dificulta a negociação.
Propus a Clint Eastwood uma coletânea dos filmes de DirtyHarry, e
chegamos a um acordo em termos de royalties. Pareceu muito fácil, até
que os advogados do estúdio, por uma questão de princípios e por
desconhecerem meu bom relacionamento com Clint, negaram o acordo.
Posteriormente eu e minha esposa, que preside a gravadora, procuramos os
advogados e conseguimos lançar o CD. No momento estamos preparando
Mannix, porém estamos com dificuldades para obter a gravação
original, lançada apenas em LP. Vou ter de regravá-la com músicos
diferentes enquanto estiver na Europa, realizando concertos." Recriar
trilhas do passado na Europa tornou-se uma solução comum e econômica
para muitos compositores, apesar de ter suas armadilhas. "As trilhas
mais difíceis de regravar são aquelas que combinam jazz e música
sinfônica. Por exemplo, como refazer Cool Hand Luke na Europa? A
tabela do sindicato em Hollywood é alta, e eu não os culpo porque eles
possuem os melhores instrumentistas do mundo. Se precisar de gaitas de
boca, banjos, em que outra parte do mundo vou achar músicos que os
toquem do modo apropriado? Você precisa de alguém que leia e toque
rápido estes instrumentos, na marcação exata."
Schifrin
nasceu na Argentina, e foi em Buenos Aires que, em 1958, tocando piano
em um clube de jazz, foi descoberto pelo famoso trumpetista Dizzy
Gillespie . Após seu ingresso no grupo de Dizzy, passou a ser
requisitado por famosos jazzistas e compositores, como o maestro Quincy
Jones. Mas foi apenas quando desembarcou em Hollywood que viu seu
talento ser reconhecido pelo grande público. Após o grande sucesso do
tema e trilhas compostas para a popular série de TV Missão Impossível,
Schifrin foi contratado pelos grandes estúdios, para os quais compôs em
três filmes idealizados para tornar Ann-Margret uma estrela: Once a
Thief (com Alain Delon), The Cincinnati Kid (com Steve
McQueen), e a sátira aos filmes de espionagem protagonizada pelo agente
Matt Helm, Murderers Row (com Dean Martin). Sua maestria em criar
excelente música de suspense e ação também foi utilizada em séries como
O Agente da U.N.C.L.E, Mannix e os filmes The President's
Analyst, com James Coburn, and The Liquidator.
Apesar
de Schifrin ter tido a sorte de ver alguns de seus primeiros trabalhos
lançados em vinil, os interesses comerciais estavam mudando. "A Verve
Records fez uma compilação de algumas faixas de Once a Thief.
Quando cheguei em Hollywood, e Once a Thief foi um de meus
primeiros filmes lá, Henry Mancini
havia com sucesso mudado a arte e o formato dos álbuns de trilhas
sonoras. Ele pegava um trecho ouvido no filme, e o desenvolvia em uma
nova faixa gravada especialmente para o álbum. Claro, havia um tema
principal - 'Moon River,' 'Days of Wine and Roses.' A MGM quis que eu
fizesse o mesmo. Peguei trechos de Once a Thief e fiz um álbum
comercial para ser tocado nas rádios, que à época realmente colocavam no
ar música de cinema. A KABC, por exemplo, tinha uma grande audiência. Já
as gravações originais, aquelas realmente utilizadas no filme, eram
esquecidas. Quando uma nova administração assumiu a MGM, o presidente do
estúdio foi até os arquivos musicais e perguntou 'O que é isso?' Isso
eram as gravações de alguns dos maiores compositores, como
Miklos Rozsa. E ele disse 'Queimem, vamos utilizar
este espaço.' À época os grandes estúdios estavam se desintegrando, e
estavam alugando salas para muitas companhias independentes. Por sorte,
o responsável pelo arquivo na época, Harvey Taylor, me chamou e
perguntou se eu queria salvar alguns dos meus scores. Alguns nem
eram as gravações integrais, mas versões condensadas para pianistas e
regentes. Eu possuo The Cincinnati Kid assim. Também houve um
incêncio em Hollywood, quando muitas trilhas queimaram - minhas, de
Mancini, de todos. Na Warner Brothers houve uma inundação onde muitas
trilhas e fitas ficaram inutilizadas. Na MGM, queimaram a trilha de
Doutor Jivago! Todo mundo sabe disso. Maurice Jarre
foi para Londres reger uma orquestra chamada Filmharmonic, e
reconstruiu Doutor Jivago! Eu não sei como ele conseguiu."
Após
ter se estabelecido firmemente na indústria, Schifrin marcou o final dos
anos 60 e o início dos 70 com trilhas dinâmicas e funky,
avidamente disputadas por colecionadores. A primeira foi o sucesso
inesperado de 1968, Bullitt, no qual Steve McQueen participou, em
São Francisco, de uma das mais espetaculares perseguições
automobilísticas das telas. "Não escrevi qualquer música para a
perseguição de Bullitt. Compus uns cinco minutos de música que
antecedem à perseguição, que cessa no exato momento em que Steve McQueen
acelera bruscamente. Disse ao diretor que seria o melhor a fazer, havia
dois carros na cena e o público deveria concentrar-se apenas nos sons da
perseguição. Eu fiz cenas semelhantes, como em Dirty Harry na Lista
Negra com o carro de brinquedo, e em The Mean Season (com
Kurt Russell and Mariel Hemingway)."
Além
de Dirty Harry na Lista Negra, Schifrin compôs para outros três
filmes da popular série da Warner protagonizada pelo detetive Harry
Callaham. Em Dirty Harry (Perseguidor Implacável), Clint Eastwood
era um tira que desafiava o sistema, fazendo justiça com as próprias
mãos. "Esses filmes eram diferentes, devido à época e às suas histórias.
Contrapondo-se a um estilo europeu de filmar, muito apreciado à época,
na série Dirty Harry vemos o estilo americano por excelência. Há
muita ação e movimento - o personagem de Eastwood está sempre indo de um
lugar para o outro, e não sabemos porque, e nem o que ele fará em
seguida. Realmente não criei um tema para Clint Eastwood, mas alguns
motivos. Um é ouvido quando ele está investigando ou em ação, mas ele
não é um herói no sentido tradicional, é diferente do personagem que ele
interpretou para Sergio Leone, com a música de Ennio Morricone. Há um
tema sisnistro para Scorpio, o vilão. Próximo ao final surge um outro,
mais emocional, trágico. Ele está limpando o lixo da sociedade, e é um
tema depressivo. Magnum 44 foi totalmente diferente, já que os
vilões eram policiais. Em Impacto Fulminante há uma história de
vingança, com um tema de parque de diversões para os flashbacks. Cada um
desses filmes foi diferente, e a única coisa que permaneceu em todos foi
o tema curto para Dirty Harry, que acabou transformando-se na canção
ouvida ao final de Impacto Fulminante, cantada por Roberta Flack."
O diretor de Dirty Harry, Don Siegel, já era um diretor
respeitado, e sua parceria com Schifrin resultou em alguns de seus
melhores filmes. "Don era um cara divertido, e de certo modo me lembrava
Dizzy Gillespie. Dizzy era muito seguro de si, e possuía um grande senso
de humor, exceto quando se tratava de música - aí ele ficava muito
sério. Don e eu gostávamos do que fazíamos e entendíamos o que cada um
desejava. Fiz Meu Nome é Coogan, The Beguiled, Dirty Harry, O
Telefone e Charley Varrick (O Homem que Burlou a Máfia) para
ele. Charley Varrick possuía um plano para enganar a Máfia, a
polícia, todo o mundo. Você não sabe qual é o plano, então a música tem
de dizer o que ele está pensando. Foi muito difícil! Don Siegel
incentivou muitos jovens diretores, como John Cassavetes. Ele encorajou
Clint Eastwood para tornar-se diretor; chegou a interpretar um barman no
primeiro filme de Clint, Play Misty for Me (Perversa Paixão). Don
e eu pregávamos peças um no outro. Por exemplo, Charley Varrick
inicia em uma cidadezinha de Nevada durante os anos 70. Nos primeiros
minutos há um violento assalto a banco, mas pelas cenas de abertura você
não desconfia que irá assistir a um filme de ação. Usei uma espécie de
pastoral gentil, no estilo de Aaron Copeland, para contrastar com o fato
do protagonista ser um ladrão. Foi então que Don entrou no estúdio de
gravação, para assistir aos créditos iniciais. Estávamos ensaiando e Don
não podia ouvir o som na cabine, portanto não sabia o que eu estava
dizendo à orquestra. Sabia quando iriam surgir as palavras "Directed by
Don Siegel," e disse aos músicos que, nesse exato momento, eles fizessem
exatamente o contrário do que havia escrito. Continuamos com nossa
música suave, mas quando o nome de Don surgiu, foi um completo
pandemônio musical! Ele quase teve um ataque cardíaco, mas logo percebeu
que era uma piada. Para se vingar, algum tempo depois ele me mostrou um
filme pornográfico com a música de Charley Varrick de fundo. E lá
estava a minha bela pastoral, enquanto na tela uma mulher "brincava" com
um cavalo! Pensei "Bem, agora tenho um futuro na indústria
pornográfica!" Isso lhes dá a idéia de como era divertido trabalhar para
Don."
Em
1971, o mesmo ano de Dirty Harry, Siegel e Schifrin também
fizeram The Beguiled (O Estranho que nós Amamos), uma espécie
conto de horror gótico situado durante a Guerra Civil americana, na qual
um soldado ianque ferido (Eastwood novamente) é tratado em uma escola de
moças. Ele logo aproveita a situação para obter favores sexuais, mas
logo aprende que não há nada pior que uma mulher sulista desprezada. "The
Beguiled é o melhor filme e a melhor trilha que fiz. É o score
que eu mais desejo regravar, tornar conhecido. É uma pena que a gravação
original nunca tenha sido lançada. Esse filme deveria ser exibido em
escolas para diretores, para que aprendam todas as técnicas e linguagens
cinematográficas que contém. Don quebrou muitas regras contando aquela
história, e ele a contou da melhor maneira possível."
Enquanto os anos 70 passavam, Schifrin começou a diversificar seus
projetos. Já havia sido bem sucedido com The Fox, do diretor Mark
Rydell, e teve contato com a ficção-científica através do primeiro
filme de George Lucas, THX-1138. Os grandes projetos
continuaram, incluindo o clássico das artes marciais Operação Dragão
e o drama da 2ª Guerra The Eagle Has Landed (recentemente lançado
em CD pela Aleph). Compôs uma trilha magistral para O Exorcista,
que foi descartada de modo no mínimo indelicado pelo diretor William
Friedkin. Retornou para o terror em grande estilo com The Amytiville
Horror. Nos anos 80 e até o início dos 90, Schifrin fez esporádicos
trabalhos para o cinema (O Casal Osterman, FX2) talvez por
descaso dos diretores. Agora, com sua música presente em filmes tão
diversos como Tango, de Carlos Saura, e A Hora do Rush, o
sucesso estrondoso de Jackie Chan e Chris Tucker, toda uma nova geração
de cinéfilos está descobrindo a arte versátil do talentoso Lalo Schifrin.