O SENHOR DOS ANÉIS: A SOCIEDADE DO ANEL (The Lord of The Rings: The Fellowship of The Ring, EUA, 2001)
Gênero: Aventura, Fantasia
Duração: 178 min
Estúdio: New Line/Warner Bros.
Elenco: Elijah Wood, Ian McKellen, Viggo Mortensen, Sean Astin, Liv Tyler, Cate Blanchett, John Rhys-Davies, Billy Boyd, Dominic Monaghan, Orlando Bloom, Hugo Weaving, Sean Bean, Ian Holm, Andy Serkis, Sala Baker
Roteiristas: Philippa Boyens, Peter Jackson, Stephen Sinclair, Frances Walsh
Compositor: Howard Shore
Diretor: Peter Jackson

"O mundo está dividido entre aqueles que leram O SENHOR DOS ANÉIS e aqueles que não leram". Essa frase, cunhada de um famoso jornal estadunidense, serve perfeitamente para expressar o impacto e a importância da obra de J.R.R. Tolkien no mundo ocidental. Agora, graças ao cineasta Peter Jackson, a balança vai pender ainda mais para o primeiro lado, pois chegou o momento que legiões de apreciadores do livro esperavam há mais de 18 meses: a estréia da mais audaciosa adaptação de O SENHOR DOS ANÉIS. E o resultado final não poderia ser melhor. Palmas para Jackson que conduziu o projeto com grande paixão e controlou todos os aspectos da produção, evitando assim que fossem cometidos os mesmos erros da fraca adaptação para as telas do fenômeno passageiro HARRY POTTER, que acabou nas mãos de um diretor medíocre e teve qualquer chance de tornar-se um ótimo filme de fantasia dissolvida pelo excesso de merchandising e preocupações em agradar as exigências absurdas da autora.

Jackson seguiu o caminho oposto. Controlou tudo desde o início, escalou um elenco formidável com poucos nomes famosos mas que esbanjam talento e competência, não fez concessões comerciais (exceto talvez chamar a soporífera Enya para compor duas canções) e colocou a cara para bater, inclusive indo contra os herdeiros de Tolkien que rejeitaram o projeto. Azar deles, pois o primeiro capítulo da trilogia, A SOCIEDADE DO ANEL, é acima de tudo um filme maravilhoso para os olhos e para os ouvidos. Tudo que aparece em cena é perfeito - as paisagens, os efeitos especiais, os cenários... Realmente os efeitos visuais são um caso à parte: fluídos, extremamente naturais e convincentes, jamais agridem os sentidos ou desviam a atenção da trama. São impressionantes as primeiras cenas em que Gandalf (Ian McKellen) interage com Bilbo (Ian Holm). Quem não conhece vai sair do cinema achando que Holm é realmente um anãozinho!

Outro ponto alto do filme é a sua música. Jackson acertou em cheio ao chamar Howard Shore (dos filmes de David Cronenberg e SEVEN), um músico de verdade para compor, orquestrar e conduzir a trilha sonora, batendo o pé contra as exigências do estúdio, que queria contratar o plagiador James Horner (de TITANIC) ou o medíocre Danny Elfman, que já havia trabalhado com Jackson em OS ESPÍRITOS. Shore compôs para A SOCIEDADE DO ANÉL uma música séria, complexa e isenta de clichês banais, alternando magistralmente momentos bucólicos (associados aos Hobbits) e poéticos, a outros pesados e aterrorizantes (o ponto alto é a seqüência nas Minas de Moira, especialmente quando um coral de vozes sussurrantes anuncia a chegada do Balrog). Isso sem falar no tema da Sociedade do Anel, que transmite com perfeição toda a nobreza dos Nove Companheiros e sua terrível missão.

É claro que o filme tem alguns defeitos (a seqüência da fuga de Bri até a chegada ao Topo do Vento é rápida e truncada demais) e problemas (efeitos grotescos desnecessários, como o nascimento dos Huruk-Hai que grunhem e rosnam excessivamente, Bilbo ficando com carinha de monstro repentinamente, Galadriel transformando-se em bruxa flutuante), mas que jamais chegam a comprometer o resultado final. Ainda mais se levarmos em conta a excelência do elenco, que nunca deixa o filme cair. Elijah Wood como Frodo consegue passar com tranqüilidade o fardo carregado pelo pacato Hobbit, que tem em suas mãos o destino da Terra-Média. Ian McKellen esbanja carisma como o mago Gandalf e, juntamente com Christopher Lee (como Saruman), rouba todas as cenas em que aparece.

Viggo Mortensen dá o tom exato ao arredio porém nobre Passolargo (cuja importância e participação na trama vão aumentar nos próximos filmes). Mas quem surpreende mesmo é Sean Bean (de RONIN e JOGOS PATRIÓTICOS), um ator até então antipático e afetado, que conseguiu passar de forma extremamente convincente todo o conflito vivido pelo guerreiro Boromir. Apenas Orlando Bloom, como o elfo Legolas, acaba sendo um pouco inexpressivo e não causa maior impacto. Não há mesmo muito mais o que dizer de um filme desse porte, cujo esmero técnico é balanceado por uma trama densa, complexa, rica em detalhes e magia – tudo perfeitamente captado pelo roteiro brilhante de Philippa Boyens, Peter Jackson, Stephen Sinclair e Frances Walsh, que ainda tomaram decisões sabias ao mudar alguns elementos do livro.

Há que se lamentar, entretanto, os comentários insidiosos perpetrados por pseudo-críticos (como os publicados pela revista Capricho e pelos jornais O Globo e Folha de São Paulo), que entre outras imbecilidades qualificaram A SOCIEDADE DO ANEL como "um filme gay" ou "caça-níqueis". Infelizmente, em tempos de cinismo e pragmatismo exacerbados, deve mesmo ser difícil para pessoas mal resolvidas e pretensiosas ver nas telas homens chorando, abraçando-se e até beijando-se em nome de laços de amizade forjados à base de nobreza e de sacrifício, ou mesmo ter capacidade para enxergar a mensagem de respeito ao próximo, tolerância e amor que existe por trás de toda a mística e magia existentes na trama. Para esses, existe sempre a psicoterapia ou mesmo um filme para quem gosta de fazer "cara de conteúdo"... Para todo o resto, sobram momentos de pura emoção e alegria que somente um grande filme baseado na obra do grande J.R.R. Tolkien poderia passar. O duro vai ser esperar até janeiro de 2003 para ver AS DUAS TORRES. E até 2004 para O RETORNO DO REI. Haja paciência...

Cotação: *****

André Lux

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